• Ana Lúcia Merege

Na Mesa do Escritor: Essa tal de pesquisa

Na coluna dessa semana, vamos falar sobre pesquisa. Ela é necessária para escrever um livro? O que preciso ler? A arte da pesquisa está na mesa do escritor. Puxe uma cadeira, acomode-se e vamos pesquisar.



Pessoas Queridas,


Ao responder a entrevistas, e mesmo ao interagir nas redes sociais, há uma tecla em que sempre acabo batendo: a importância da pesquisa para o escritor. Jamais achei quem discordasse frontalmente, mas às vezes surgem algumas questões:


Será que é mesmo necessário pesquisar antes de escrever sobre qualquer coisa, mesmo que a história se baseie no cotidiano?

E se ela se passar num universo imaginário?

E como a gente sabe se pesquisou o suficiente?


Vamos partir de um princípio: Literatura alguma surge do nada. No entanto, certos tipos de narrativa podem, sim, ser construídos sem que haja uma pesquisa específica por trás. Autoficção, crônicas do cotidiano, romances em que duas pessoas conversam sobre si mesmas…. Às vezes são necessárias algumas consultas ao Google para checar informações: quanto tempo se levaria de ônibus do Rio a Recife, por exemplo, ou que novela estaria passando na TV em 1972. Confirmados os detalhes, o autor segue em frente, escrevendo com base em sua própria bagagem: suas memórias, reflexões e conhecimento pré-adquirido.


Para a maioria das histórias, porém – as que trazem elementos externos à vivência do escritor --, a pesquisa se faz necessária, numa extensão que irá variar de acordo com o peso desses elementos na narrativa. Por exemplo: para escrever ficção científica do tipo hard, que cria especulações dentro das reais possibilidades da ciência, o autor precisará de sólidos conhecimentos da área, ou certamente irá cometer erros (e os críticos não irão perdoá-lo), mas uma space opera costuma exigir menos precisão no que se refere à ciência. Já no gênero policial, um escritor que deseje retratar o dia-a-dia de uma investigação terá um foco diferente daquele que narra a história do sobrevivente de um crime. Mas ambos precisarão de pesquisa para escrever com bases consistentes.


Usei a FC e o policial como exemplos, mas o foco principal deste post são os gêneros nos quais costumo escrever: ficção fantástica, ambientada neste universo ou em mundos imaginários, e fantasia histórica. Esta difere da ficção histórica por conter elementos fantásticos, mas deve levar em conta os acontecimentos da História real. Isso também vale para obras de História alternativa (aquelas em que um ponto de divergência faz mudar a História que conhecemos) e está longe de se restringir a datas e fatos. Pelo contrário, é principalmente a estruturas sociais, mentalidades, crenças e os inúmeros aspectos da vida cotidiana que se deve estar atento a fim de escrever uma história verossímil.


E quando a narrativa é ambientada num universo criado pelo autor? Nesse caso, é claro, não existem características ou uma cronologia prévia, mas – lembrando o que eu disse no início –, por maior que seja a imaginação de um escritor, suas criações sempre irão se basear em elementos do mundo real, e tal como este o universo ficcional precisa ter uma lógica interna. Na verdade, “quanto mais o autor afasta seu universo do mundo real, mais difícil é, para o leitor, conceder-lhe criatividade”. É o que aponta J. R. R. Tolkien, um divisor de águas da fantasia contemporânea, que também foi catedrático em Filologia e grande estudioso de História e Literatura.



Mas peraí... A gente precisa ser tão erudito quanto o Tolkien para escrever?


Claro que não. Nem como Umberto Eco, também catedrático, nem como Rick Riordan, que foi professor de Mitologia, nem como Bernard Cornwell, que estudou a história da Inglaterra durante anos antes de narrar as aventuras de Uhtred, filho de Uhtred. Tampouco é necessário criar um universo tão detalhado quanto Nárnia ou a Terra Média para contar suas histórias. Basta fazer o tipo certo de pesquisa e saber como usar a informação.


Vou dar um exemplo, baseado no que acontece com frequência no meio literário: vamos supor que você escreve há algum tempo, tem bom domínio do idioma, das ferramentas e técnicas de escrita. Certa escritora veterana (cof, cof) sugeriu que iniciantes procurassem publicar em coletâneas, e uma oportunidade acaba de surgir, por meio de uma editora que abriu submissões para a coletânea “Gladiadores”. Querem histórias com 5.000 a 7.000 palavras sobre gladiadores reais ou imaginários, e vamos dizer (em nome do foco deste post) que a história tem de ser ambientada no mundo romano antigo. Ou seja, nada de escrever sobre gladiadores espaciais ou uma arena cyberpunk.


Apesar da restrição, o tema é instigante, e você tem algumas noções a respeito dele. Roma antiga, Coliseu, Russell Crowe, polegares pra baixo... Sim, dá até para visualizar algumas cenas na sua cabeça (o que, se o seu processo criativo for parecido com o meu, pode ser o “pontapé inicial” para escrever o conto). Porém, isso não basta: mais cedo ou mais tarde você terá de buscar referências, informações que lhe permitam avançar em segurança, quer na construção dos personagens (será que tinha mesmo gladiador celta? O que comiam? Dá para botar eles tomando vinho?), quer na ambientação ou na própria trama (as lutas só aconteciam em Roma? Quem podia assistir? Um murmillo poderia lutar contra um retiarius?). É claro, nada impede que você escreva usando só o que sabe, mas, sem alguma pesquisa, é bem provável que acabe entregando um conto “genérico”, cheio de clichês e imprecisões ou que, na melhor das hipóteses, não proporcione ao seu leitor uma boa imersão naquele cenário.



E por onde eu começo essa tal pesquisa?


Você começa pelo que já tem. Vá a um site como a Wikipedia (30 ou 35 anos atrás, eu sugeriria uma enciclopédia ou um bom livro didático; eles continuam valendo) e parta de verbetes como “Roma Antiga” e “Gladiadores”. Amplie suas pesquisas a partir daí. Logo irá se dar conta de que o mundo romano incluía as regiões dominadas por Roma (que tal, como diferencial, ambientar seu conto no anfiteatro de Mérida, Espanha, e não no Coliseu?), saber como viviam os gladiadores e achar informações sobre o povo ao qual pertence seu protagonista (sim, ele poderia ser celta, uhul!). Pode também buscar referências visuais, assistir a filmes e documentários, visitar museus online e tudo o mais que lhe ocorrer para entrar no clima.


Pouco a pouco, quase sem que você perceba, sua pesquisa irá se aprofundar nos aspectos que lhe interessarem mais. Esses são, provavelmente, aqueles a serem abordados no seu conto. Pode ser que você queira mostrar as diferentes categorias de gladiadores e seu armamento; talvez prefira explorar a vida deles fora da arena, fazer menção ao imperador ou aos políticos locais ou até mesmo escrever sob o ponto de vista de um deus invocado pelo lutador. Seja qual for o seu foco, é bom que não demore a definir as bases da história, primeiro porque a coletânea tem prazo, segundo porque, conforme for avançando (e fazendo anotações, pelo amor de Minerva!), você encontrará um volume muito grande de informações, enormes listas de links interessantes, livros e artigos acadêmicos. É preciso ser seletivo, escolher fontes confiáveis (sites mantidos por universidades, por exemplo) e assegurar que sua pesquisa forneça boas referências para os aspectos que decidiu explorar. Outros podem ser mostrados em linhas mais gerais, como uma espécie de pano de fundo. Ou seja, você não precisa se tornar especialista em Roma Antiga. Basta garantir um background sólido para avançar com segurança – e o resto fica por conta da sua imaginação e habilidade em narrar.


Ao longo de todo o processo, você irá adquirir muitas informações que não serão usadas. Algumas entrarão na primeira versão do texto, mas terão de ser cortadas na revisão. Faça isso sem pena, pois – como você bem sabe -- detalhes em excesso podem comprometer uma narrativa. Tenha em mente que a pesquisa não deve substituir a história – isso é o que ela não deve fazer! --, mas sim ajudar a construí-la, mostrando novos caminhos para o escritor e o ajudando a enriquecer seu trabalho literário.


Eu poderia me estender, sugerindo como usar alguns elementos dentro de um conto de ficção ou fantasia histórica e dando a minha opinião sobre o que acho que funciona, mas este post já está bem mais longo do que deveria. Fico por aqui, esperando que vocês tenham gostado das minhas observações – e, como devem imaginar, cheia de ideias para escrever histórias sobre gladiadores.


Até a próxima!


***


No Canal Fantasticursos, que eu recomendo sem restrições, o Prof. Alexander Meireles da Silva falou recentemente sobre este assunto. Confiram neste link.


Ainda não escrevi sobre gladiadores, mas tenho alguns contos de ficção fantástica ambientados na Antiguidade. Quer conhecer um deles? Aqui está o link.


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