• Paulo Vinicius

Horimiya: Quando duas pessoas se encontram

Vamos falar desse lindo anime que fala de duas pessoas diferentes que encontram uma na outra um porto seguro.



Possivelmente um dos melhores animes da temporada de janeiro de 2021, Hori-san to Miyamura-kun, ou simplesmente Horimiya, é uma daquelas histórias que ficam em nossos corações. Com uma premissa simples e personagens encantadores é a velha história de dois personagens muito diferentes que se conhecem e acabam encontrando um no outro a razão de viver. Só que Horimiya faz isso de uma forma contemporânea e bastante madura abordando problemas típicos do amadurecimento e da chegada na vida adulta. Passando-se dentro de uma escola onde os personagens começam no final do segundo ano e chegando ao terceiro onde decisões importantes se tornam necessárias, a história de Hori e Miyamura acaba servindo também para mostrar outros personagens e seus próprios dilemas.


A série foi escrita por Hiroki Adachi que publicava em seu site sob o pseudônimo HERO. O webmangá foi publicado entre 2007 e 2011 em um formato bem curioso contendo quatro painéis. A Square Enix (sim, a produtora de games) se interessou pelo projeto e publicou em seu selo de mangás, o Gangan Comics entre 2008 e 2011 em um formato de 10 volumes. A autora chegou a escrever algumas histórias extras publicadas sob o título de Omake e o mangá acabou sendo adaptado pelo studio Cloverworks em 2021 em 13 episódios. A direção foi de Masashi Ishihama e a produção ficou com Takao Yoshioka. Aqui no Brasil o pessoal pode assistir o anime pelo streaming da Funanimation.


Fazendo uma rápida sinopse, Izumi Miyamura parece ser o típico otaku emo, quieto no seu canto, usando óculos e evitando manter contato com as pessoas. Já Kyoko Hori é uma garota popular entre suas amigas, energética e expressiva, se destacando nos estudos e sendo desejada por muitos. Mas, ambos possuem lados bastante curiosos fora da escola. Apesar de parecer ser um otaku nerd, Miyamura não tem o menor interesse em mangás, possui um visual rockeiro com piercings e tatuagens que ele procura esconder na escola. Suas notas? Bem medianas. Por outro lado, Hori deixa de lado todo o seu lado popular para se tornar uma irmã que precisa cuidar de seu irmão pequeno em casa, fazendo serviços domésticos e precisando cuidar para que tudo esteja em ordem. As vidas de Hori e Miyamura vão se chocar por acaso em um encontro casual na rua em que Miyamura acaba ajudando Hori durante uma ida ao supermercado. A amizade que se forma entre Miyamura e o irmão menor de Hori aproxima os dois cada vez mais. Uma amizade que lentamente vai se transformando em algo mais até que os dois não conseguem mais esconder os sentimentos um do outro.


O que eu mais curti na história é em como a autora não é exagerada nas situações. Ela poderia facilmente ter ido para um lado mais fofinho e engraçado (não que o anime não seja), mas ela prefere manter a narrativa com os dois pés no chão. As situações variam desde encontros e desencontros até dramas mais sérios. Outros personagens vão se juntando ao núcleo do par romântico, dando mais complexidade às histórias. No fundo, é uma história sobre conhecer uma pessoa a fundo e se encontrar nela ao mesmo tempo em que procuramos amadurecer e entender o que desejamos para nós mesmos. Todos os personagens, sem exceção, vão sair de um ponto A e chegar em um ponto B. Serão diferentes, nem melhores e nem piores. Algumas de suas decisões a gente não irá curtir, enquanto outras serão importantes para eles.



Miyamura adotou esse visual emo na escola por conta das situações de bullying que ele viveu no fundamental. Isso fez dele uma pessoa retraída e tímida, fazendo com que se tornasse antissocial. Ao mesmo tempo, as situações em sua infância fizeram dele uma pessoa bastante sensível. Não é que ele deteste as pessoas, ele apenas tem receio. Acho bem legal a relação que ele acaba desenvolvendo com Toru, um cara grande, popular e estiloso. Curiosamente o primeiro arco de histórias se desenvolve em um triângulo amoroso entre Miyamura, Toru e Hori. Mais legal ainda é que a autora não fica enrolando demais com isso e logo resolve a situação para se focar em como Miyamura vai superar os seus dilemas. O garoto solitário se transforma em uma pessoa magnética graças a Hori. Talvez essa seja a grande química do casal: estar um com o outro aumenta as potencialidades de cada um. Aliás, Miyamura rapidamente percebe os seus sentimentos em relação a Hori e não esconde dela suas intenções.


A bola acaba sendo jogada para a Hori. É ela quem vai precisar decidir o que ela sente de verdade por Miyamura. Hori tinha esse lado desregrado dela por conta de suas responsabilidades e seu colega entra em sua vida de um jeito que ela não é mais capaz de retirar. A grande questão no arco inicial de histórias é a aceitação. Ela quem vai precisar definir se aceita ou não uma pessoa em sua vida e o quanto ela é importante. Mais do que isso: Miyamura vai ser só o crush da escola ou ela vai levá-lo para a sua vida? Isso rende momentos absolutamente lindos como o que acontece lá pelo episódio 12 (que eu não vou contar o que foi rsrsrs). Dentro de todas as confusões comuns em qualquer comédia romântica existem momentos de reflexão sobre para onde os dois desejam levar seus caminhos.


Outro arco narrativo importante é o de Miyamura precisando lidar com seus sentimentos sobre se relacionar com outras pessoas. Ou até de perdoar pessoas que lhe fizeram mal no passado. Por exemplo, Tanihara é um garoto que vivia abusando moralmente de Miyamura na infância. A narrativa busca mostrar para nós por que ele fazia isso. E se isso serviu de alguma forma para ele se tornar uma pessoa mais confiante. O que não é o caso. Um bully não é um bully porque é confiante; justamente o contrário. Ao encontrar-se com um novo Miyamura com uma pessoa pelo qual ele se apaixona e tendo um círculo de amigos ao seu redor, Tanihara se pergunta se as escolhas de sua vida realmente foram boas. Ao mesmo tempo, Miyamura não desfaz os seus laços anteriores, agregando o divertido Shindo ao seu núcleo. A amizade entre os dois é bonita e difere de todas as outras que Miyamura desenvolve depois. A jornada do protagonista envolve aceitar aquilo que aconteceu no passado e entender que isso fez parte de sua formação para o presente. E que ele agora trilha novos caminhos, que foram possíveis graças a uma pessoa especial que entrou em sua vida. Esta pessoa lhe deu a coragem e a capacidade de se tornar uma pessoa melhor.



Mas, Horimiya é mais do que só o romance do casal. Por exemplo, Toru, um personagem que vai se tornar um amigo precioso de Miyamura passa por dois grandes momentos. O primeiro deles tem a ver com o seu arco inicial em que ele encara o fato de ser rejeitado por Hori. Aliás, nunca houve uma disputa real e o anime não faz mistério algum sobre esse tema. Coloquei mais acima o triângulo amoroso como arco, mas ele serve muito mais como uma sequência de desencontros e falsas percepções do protagonista do que um drama. Fica até aqui o meu destaque para o fato de a autora não usar clichês típicos de comédias românticas para alongar a narrativa. Ela não alonga nada; o que precisa resolver, ela resolve logo. Mais importante do que criar ganchos artificiais para manter o leitor investido é trabalhar os personagens. Por essa razão, os personagens são tão legais. Toru vai enfrentar uma escolha difícil entre a pessoa que está ao seu lado e a menina que se declara para ele. Por quem o seu coração bate mais forte? Outra coisa interessante é o pedido de namoro ter partido dela e não dele, algo pouco usual em animes de romance japoneses. Geralmente as meninas suspiram e esperam o rapaz tomar coragem e se declarar... o que não é o caso aqui.


Outra imagem forte presente no anime é a máscara que usamos na sociedade e nossas personas reais. Essa até é a forma como os protagonistas se conhecem. Mas, queria trazer outra pessoa para esse bolo. Shu é considerado aquele cara engraçado e, às vezes, inconveniente do grupo. Ninguém o leva tão a sério simplesmente porque ele mesmo não se leva tão a sério na escola. Mas, mesmo sendo um personagem coadjuvante, temos um momento bem singelo com ele. Em casa ele é o irmão mais velho e responsável por tomar conta dos demais. Sua irmã mais nova, Motoko, o enxerga como alguém com quem ela sempre pode contar, e que a ajuda nos seus momentos mais difíceis. O completo oposto da imagem que ele possui na escola.


Toda essa matéria é 10% daquilo que o anime oferece aos espectadores. Emoção, sensibilidade, momentos absolutamente divertidos (a relação entre Hori e Miyamura é impagável) e a autora cria personagens femininas bastante antenadas nos dias atuais. Mulheres que sabem o que desejam, empoderadas o suficiente para tomar suas próprias decisões. A maturidade da Sakura é exemplar na história e a forma como ela lidou com um sentimento dolorido e mantendo sua compostura é muito legal. Recomendo demais a todos assistirem esse anime que foi um dos meus xodós em 2021.



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