• Paulo Vinicius

Histórias de raposas na cultura oriental

As raposas são figuras repletas de mistério nas tradições de culturas do Extremo Oriente. A coletânea de contos Raposas - Contos Fantásticos Orientais nos mostra algumas destas histórias entre seres matreiros e malignos. Venham conferir um pouco sobre estas criaturas que nos encantam até hoje.


Nas histórias infantis, a raposa sempre aparece como um animal matreiro e esperto, buscando vantagens. Suas ações nem sempre são boas. Isso estamos falando em relação ao Ocidente. Mas, e no Oriente? Bem, nosso pequeno animal quase sempre é visto da mesma forma. Sua agilidade, leveza e beleza o transformam em um ser enigmático cujas ações são orientadas apenas pela sua própria vontade. Temos histórias que destacam o lado maligno destes seres enquanto outras são belas histórias de amor. O que isto diz a respeito destes seres? A verdade é que nem os pesquisadores sobre folclore oriental possuem uma visão uniforme destas criaturas dada a variedade de histórias e como as raposas são representadas nelas. Fato é que existem diversos temas presentes nestas histórias: a busca pela felicidade, a manutenção de uma promessa, os laços que unem duas pessoas.


A edição da Laboralivros segue o modelo que vimos em Gatos : tamanho menor, em formato paisagem, retangular, amarração feita com cordas, de forma artesanal, um papel bem sedoso de se manusear. Internamente existem várias ilustrações em preto e branco e algumas coloridas separando as três partes do livro. Tem um prefácio da Lua Bueno Cyriaco contando sobre o papel das raposas nas histórias folclóricas orientais e os diversos temas presentes. Tem também uma introdução da Márcia Namekata falando sobre as origens das histórias e as diferenças entre elas. Quando necessário tem notas de rodapé espalhadas pelos contos da coletânea. Mas, nada que atrapalhe a leitura. Além disso, a tradução está muito boa e mesmo quem não é pesquisador da área consegue ler tranquilamente.


É perceptível que as raposas são entendidas como tricksters, os famosos enganadores nos contos de fada ou nas narrativas folclóricas. Como o Loki na mitologia nórdica ou o saci no folclore brasileiro. À primeira vista, não é muito claro se suas intenções são benignas ou malignas, dependendo muito da história na qual estão inseridos. E essa malandragem vem de sua sutileza em sua forma animal. Um animal matreiro, que persegue sua vítima e esconde seus passos usando o ambiente ao seu redor. Ou que se esconde às claras. Portanto, veremos histórias em que as raposas são apresentadas como sedutoras ou enganadoras. Na cultura oriental, este lado ligado à atração física fez com que as mulheres tivessem traços de raposa fossem entendidas na mesma linha. As sobrancelhas levantadas, as covinhas no rosto, um meio sorriso que pode indicar divertimento ou travessura. São os kitsunes, as raposas sobrenaturais, que se tornaram animais populares entre os fãs da cultura japonesa. Curiosamente tem poucos contos com as verdadeiras kitsunes, que a tradutora nos explica a origem, que tem como base um pequeno detalhe semântico.


Outro ponto importante é o quanto as raposas estavam integradas à sociedade humana ou pelo menos ao seu imaginário. Vemos muito mais raposas interagindo e dialogando com seres humanos do que os gatos da outra coletânea da editora. Os gatos pareciam seres mais etéreos do que as raposas, que sempre buscavam obter alguma vantagem. Sendo triscksters, é bem comum a existência de raposas com capacidades metamórficas. Tem um bom número de histórias em que uma raposa busca ocupar o lugar de uma esposa, como na história de Kuzunoha que só foi descoberta quando seu filho a viu adormecida por cima do tear.


Em uma das histórias chamada Huang Jiulang, o nono filho, temos um personagem claramente homossexual. Segundo as notas de tradução, essa era uma situação socialmente aceita onde veremos pajens servindo seus mestres. Um ponto bastante curioso e que certamente poucos conheciam. Na história o protagonista He se apaixona pela raposa e faz todo o possível para conquistá-la. Outro ponto que vale destacar é como He se insinua sexualmente para a raposa que se nega a ter relações com ele. A partir daí, He chega a ser forçosa em suas investidas amorosas. O motivo por trás da negativa é que raposas agem sugando a energia vital daqueles a quem estão próximas. Várias histórias lidam com esta situação, sendo que esta o faz de uma forma até gentil.


Nas histórias o sobrenatural é visto com certa naturalidade pelas pessoas comuns. A presença de fantasmas ou criaturas sobrenaturais é parte do cotidiano e regras precisam ser observadas. Raposas místicas podem roubar sua energia vital, logo desconfiam quando um chefe de província enfraquece rapidamente; salvar um animal místico pode lhe conferir poderes sobre sua existência. Enquanto que no Ocidente, o sobrenatural é temido por definição, no Oriente existe uma flexibilidade. Uma pessoa precisa temer quando cometeu alguma infração: destruiu um templo, descumpriu uma promessa. As raposas são habilidosas em dobrar essas convenções a seu bel prazer. Por essas e outras elas continuam a ser fascinantes até os dias de hoje.


Ficha Técnica:


Nome: Raposas - Contos Fantásticos Orientais

Organizado por Lua Bueno Cyriaco

Editora: Laboralivros

Gênero: Contos de Fadas

Tradutor: Felipe Medeiros

Número de Páginas: 110

Ano de Publicação: 2020


Link de compra:

https://amzn.to/3OJIfSA (ebook)













0 comentário

Posts recentes

Ver tudo