• Paulo Vinicius

Encanto

Esta animação da Disney de 2021 nos apresenta os Madrigal, uma família unida por laços que vão além do sangue. Mirabel é a única pessoa da família que não recebeu nenhum dom mágico. E ela busca a qualquer custo mostrar o seu valor.


A Disney vem tentando investir em diversidade e representatividade nos últimos anos. Seja com animações que mudem algumas permanências da produtora, como a ausência de princesas negras, a europeização dos temas sem se importar com outras nacionalidades, denúncias de preconceito entre outros. Ainda falta um longo caminho a ser percorrido, mas certamente devemos louvar os esforços em tentar algo diferente. Ao mesmo tempo a Disney vem tentando pegar o estilo de animação e histórias que fizeram da Pixar o colosso que ela representou no início do século XXI antes de ser comprada pela Disney. Se por um lado a Disney vem mostrando uma preocupação em abraçar outras culturas, por outro vem falhado em apresentar histórias que saiam do modelo Disney de ser. E o que fez a Pixar ser (e continuar a ser) incrível. Encanto tem a fórmula do Oscar, e ganhou um Oscar por isso. Mas, será que ela tem o que é preciso para ser a melhor animação do ano? Ou seu sucesso foi fruto mais do nome Disney?


A animação foi lançada em novembro de 2021, buscando atrair as crianças durante o feriado de Ação de Graças e teve uma boa receptividade de público. A produção foi feita pela Disney, tendo como produtores Byron P. Howard (das animações Bolt, Irmão Urso e Enrolados) e Jared Bush (de Zootopia e Moana) e com a co-produção de Charise Castro-Smith que estava no elenco devido à grande aposta da Disney nesta produção. Se tornou necessário dividir mais o peso da direção. No roteiro, Charise dividiu os créditos com Jared Bush. E ela também esteve envolvida na produção ao lado de Clark Spencer, que fez sucesso com a produção de Zootopia onde conquistou um Oscar. A trilha sonora foi composta pelo sensacional Lim-Manuel Miranda, que dispensa apresentações. Na minha opinião, Miranda é um dos grandes gênios da música no cinema nos últimos anos. O filme teve uma duração de 102 minutos, o que é de ótimo tamanho: não cansa e nem tem ausências.


A animação em si é muito fluida e competente. Podemos usar a palavra colorida e animada na mesma frase. É o que Encanto representa. Muita dança, muitas cores... essas podem vir em explosões por toda a parte. Muita coisa no cenário que chama a atenção do espectador, sejam as personagens mais à frente ou aqueles que estão no fundo apenas participando de um número. No que diz respeito ao andamento da história, a animação possui bastante fluidez e movimento, o que é um traço da Disney nos últimos anos. O que me incomoda um pouco é o quanto Encanto parece uma cópia carbono de como a Pixar anima seus filmes. A animação possui aquela marca, seja no rosto ou na movimentação dos personagens. O que diferencia um pouco é o cenário que foi inspirado nas casas grandes latinas que parecem villas. Nessas habitações, que são típicas da antiga América Espanhola, várias famílias poderiam morar juntas e compartilhar de um espaço comunal. Há também a presença de mosaicos espalhados por diversos ambientes, que remetem à colonização espanhola (são artes típicas da Andaluzia).


A história começa mostrando a história da família e como eles foram parar em sua casa. Eles estavam fugindo de uma situação ruim até que Pedro, um dos primeiros membros da família morre e a matriarca da família fica desesperada. É então que surge uma vela que oferece um lugar onde eles possam viver em segurança e sua família é abençoada com diversos dons mágicos. A família Madrigal decide ajudar todas as pessoas que moram no vilarejo próximo à sua casa. As próximas gerações da família herdam as habilidades mágicas dispondo de superforça, habilidade de ver o futuro, falar com animais, controlar o clima entre outros. Todos, exceto Mirabel que, misteriosamente, quando da sua cerimônia de revelação de seu dom tem sua porta (um lugar que representaria os seus dons) desaparecendo. Desde então ela vive à sombra de suas irmãs e primas, buscando ajudar a família quando pode. Quando o pequeno Camilo é o próximo a ir para a cerimônia, todos estão apreensivos de que aconteça o mesmo com ele. Mas, não é o que acontece e ele recebe seus poderes, mas Mirabel recebe estranhas visões em que o lugar onde eles moram, que é alimentado por poderes mágicos, está para ser destruído. E Mirabel está no meio dessa confusão, sendo responsável ou por destruir a todos ou mudar tudo.


Essa é a história já conhecida da menina que é diferente dentro de sua família e faz o possível para demonstrar o seu valor. Mirabel é uma menina doce e animada, que percebe e compreende as suas limitações, mas ama sua família. Ela tenta fazer o dobro do que as outras fazem, já que não foi abençoada com habilidades mágicas. É a maneira que ela encontrou para ser reconhecida por seus esforços. Tudo o que ela deseja é que sua avó, Alma, a reconheça e a valorize. Só que Alma teme que Mirabel traga a ruína para a sua família. Não é que ela odeie a menina, mas o temor que ela tem de que as coisas deem errado fazem com que ela afaste a convivência com ela. Mirabel percebe o quanto sua família a vê com muitas reservas e mesmo as pequenas coisas ferem o seu coração. Sua amizade com Camilo é muito bonita e demonstra a inocência da criança. Camilo e Mirabel dão forças um para o outro e se apoiam. É curioso como no começo da história Mirabel é quem apoia Camilo e mais para a frente acontece o contrário.


No decorrer da narrativa vemos que Mirabel vai precisar conhecer melhor cada um dos membros de sua família. O que cada um representa e como se posiciona dentro dessa dinâmica curiosa em que eles vivem. Acaba não havendo tempo para explorar todos, mas os números musicais demarcam o momento em que Mirabel se aprofunda acerca de cada um deles: seja a poderosa Luisa, a romântica Julieta, a sua rival Isabela ou a sábia Alma. Saber que Luisa é a pessoa que tenta absorver os problemas da família, usando seus longos ombros e força poderosa para funcionar como um Apolo segurando todo o peso é o que faz Mirabel entender o quanto sua força vem com uma terrível responsabilidade. Ou o quanto Julieta é inconformada por estar solitária, sem um amor para chamar de seu. Ou sua rival Isabela, a quem ela considera a mais perfeita da família, na verdade é uma menina reprimida. Como todos esperam o máximo dela, Isabela não pode ser verdadeira consigo mesma e é apenas um truque de uma só cor. Ou o desaparecido Bruno que por ter descoberto um segredo tão terrível, decide se esconder para que ninguém saiba o que ele viu e quem sabe evitar a ruína de sua família. Mas, ele não consegue ficar longe daqueles que ama. Ou Alma que tenta a todo custo manter a coesão da família e as relações com a vila, mesmo que ela soe como rigorosa às vezes. Todas essas relações são colocadas em perspectiva. Mas... qual é o lugar de Mirabel no meio de tudo isso?


Do que podemos observar a partir do filme, Mirabel é aquela que une todos. Não dispor de poderes mágicos lhe oferece uma perspectiva única sobre todos. Ao não depender de tais habilidades, Mirabel é alguém que desenvolve outras qualidades como a criatividade e a coragem para superar os problemas. Se pensarmos bem de acordo com a filosofia do filme, ela não precisa de uma porta para si. Isso porque sua porta é a casa inteira, é a família que ela ama. A personagem consegue compreender além das visões estreitas de cada um. Quando todos olham para a frente, ela olha para os lados. Isso é perceptível na cena de iniciação do Camilo; todos estão concentrados em saber se Camilo terá poderes, enquanto Mirabel está preocupada com o bem-estar de todos, buscando entender de onde vieram as visões que ela teve. Percebam que em nenhum momento do filme Mirabel reclama de não ter poderes. Ela dá de ombros e entende que isso não é para ela. Não quer dizer que ela não gostaria de ter, significa apenas que ela se conformou e seguiu em frente.


Sobre a narrativa em si, a história segue a boa e velha fórmula da Disney. Tirando a valorização de outras culturas que não a europeia ou a americana, Encanto é uma história comum que já vimos milhares de outras vezes como em A Pequena Sereia (com Ariel que é a diferente dentro do seu contexto) ou a Dory em Procurando Nemo (que enxerga o mundo de uma maneira diferente e é deixada de lado por seus pares). Nos últimos anos a produtora começou a buscar inspiração em outros lugares como Moana que explorava os mitos havaianos. A ideia é boa, mas não basta só colocar uma pele de outra cultura, é preciso explorar o que faz delas tão diferentes. É um avanço ver musicais da Disney com as famosas danças latinas em que as mulheres batem saias e exploram canções animadas típicas. Mas, no fundo, ainda é uma fórmula clichê que é seguida à risca. Difere de explorações sobre a adolescência como em Red, ou sobre a vida após a morte como em Soul, ou sobre a amizade e a sensação de pertencimento como em Luca. Por isso que a Pixar possui animações tão mais interessantes. Encanto não é ruim... só é normal. E, a vontade da Disney de apagar a Pixar só faz com que a produtora ganhe ainda mais relevância. Porque mesmo copiando o estilo de animação, ainda falta a ousadia e a criatividade. E, sem dúvida alguma, a Disney não é uma produtora que gosta de ousar.








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