• Paulo Vinicius

Editoras e seus parceiros: debates e embates

O tema do papel dos parceiros e sua relação com as editoras volta à tona em mais um capítulo de uma eterna discussão. Acho que a pergunta central que vou tentar elaborar aqui é: o que é um parceiro?



Todos os anos temos a mesma discussão sobre parcerias retornando. Seja um autor insatisfeito com uma resenha feita por um parceiro, uma editora usando métodos estranhos para selecionar seus parceiros ou reclamando dos mesmos ou parceiros que não respeitam as regras traçadas durante a seleção. Pretendo me debruçar uma última vez sobre isso para não ter que retornar mais a esta discussão. Até porque ela já se tornou alguma coisa repetitiva e que cai nos mesmos clichês e problemas.


Vou contar duas situações e elaborar a respeito de ambas. Talvez o primeiro caso seja o mais central nessa matéria de hoje. Há mais ou menos duas semanas chegou a vários grupos de parcerias um áudio vazado de uma pessoa responsável pelo marketing do grupo editorial Coerência (estou usando o nome da editora porque ela fez uma postagem pública em suas redes sociais sobre o assunto). Nesse áudio estavam diversas críticas aos parceiros, a maneira como a editora abordava a propaganda de seus materiais e como eles fariam futuras seleções de parcerias. O áudio na verdade era de alguns meses antes, mas só chegou a um conhecimento comum de outros produtores de conteúdo agora no final de março. As consequências imediatadas foram uma série de postagens nas redes sociais denunciando a postura da editora. Inicialmente a editora pretendia apenas deixar o assunto morrer já que se tratavam de poucas pessoas envolvidas. Porém, o assunto não morreu e tomou proporções tão grandes que eles foram obrigados a se posicionar.


Vou começar com uma frase simples que eu acho que poucas editoras compreendem, de fato:


PARCEIROS NÃO SUBSTITUEM UM BOM DEPARTAMENTO DE MARKETING.


A partir daqui são opiniões pensadas a partir de uma experiência de vários anos à frente do Ficções e trocando ideias com outros criadores de conteúdo. Muitas editoras acabam repassando para seus parceiros a tarefa de divulgar um livro. Isso é mais verdade tanto em algumas editoras de médio porte, mas principalmente com editoras pequenas que preferem não ter um departamento de marketing e se focar única e exclusivamente na produção do livro. São essas que às vezes chamamos de editoras-gráficas. Na maior parte das vezes, não há uma preocupação em trabalhar o material, em preparar o autor, em criar eventos. A ideia básica é imprimir o livro, repassar a parte dos direitos do autor e lucrar com o resto. Esta não é uma postura correta para uma editora que almeja algum sucesso no mercado editorial. Publicar um livro vai muito além da capa e do miolo. Já vi casos de editoras que sequer se preocupam em revisar o original enviado pelo autor, colocando na prateleira um produto mal acabado.


Por que editoras grandes relutam em publicar ficção de novos autores? Porque colocar uma nova cara no mercado não é tão simples quanto parece. É preciso trabalhar o autor, desde o seu texto até a forma como ele vai se envolver nas mídias, seja nas convencionais ou nas sociais. No Brasil, o agenciamento literário ainda é incipiente, com boas agências conquistando cada vez mais espaço como a Página 7, a MGH e várias outras. Mas, na maior parte das vezes é a própria editora quem precisa trabalhar a imagem do autor. Como isso se liga aos parceiros? Oras, o atalho usado por algumas é inflar as redes sociais com aparições do autor.Seja em podcasts, em canais de youtube, entrevistas para grandes blogs, lives no instagram. Algumas editoras fazem isso elas mesmas; outras acabam não se envolvendo e cobrando dos parceiros esse trabalho. Só tem um problema: o parceiro está preparado para fazer esse trabalho? A divulgação da imagem do autor é uma etapa importante. E se a editora não usar a forma adequada para criar um hype para o autor ou para o seu próximo trabalho, é óbvio que as vendas vão naufragar.


O mesmo pode ser dito do trabalho de resenha. A técnica mais usada por editoras é uma das que eu mais critico: a "metralhadora de resenhas". Normalmente, quando uma editora lança um novo livro a postura mais comum é enviar esse material ao maior número possível de parceiros para alcançar o máximo número de pessoas. Usando o círculo de alcance dessas pessoas, a ideia é amplificar o espectro de vendas em um prazo de trinta a quarenta e cinco dias. Bem... tenho uma má notícia: isso raramente funciona. Eu conheço vários bons criadores de conteúdo que possuem milhares de seguidores. Digo dezenas de milhares de seguidores. Tenho total confiança de que muitos vão responder que curtidas e comentários em suas publicações de lançamentos de livros não se convertem em muitas vendas. É possível saber isso através da conversão de compras pelo Amazon Associados. Parte do lucro das vendas de livros que vocês, leitores, fazem através dos nossos links, se convertem em recursos que usamos para adquirir outros livros para trabalhar em nossos sites. Não vou me utilizar como exemplo até porque meu alcance é reduzido, mas muitos vão dizer que mal dá para comprar um lançamento. Editoras, somente grandes influenciadores de conteúdo vão dar a vocês um retorno garantido. E esses grandes influenciadores cobram por um publicação patrocinada.


Diabos... eu não faço mais resenhas de livros que eu desconheço o autor. Tenho minhas condições de leitura patrocinada e costumo ser bem rígido com elas. Se eu consegui umas duas ou três leituras patrocinadas até hoje foi muito. E isso porque já ouvi de algumas pessoas que o Ficções é um dos melhores sites para feedback de literatura de gênero.


Vamos jogar outra verdade no ventilador?


PARCEIROS LITERÁRIOS SÃO MÃO-DE-OBRA BARATA.


Sim, são. Garanto que os leitores vão ficar indignados com essa afirmação já que recebemos muitos livros legais em casa. Galera, para montar uma resenha como as que publicamos todas as semanas, precisamos gastar horas de nossos dias lendo livros, estudando escrita criativa e preparando material que seja agradável ao leitor e passe, de forma honesta e bem elaborada, o que achamos do que foi lido. Já peguei livros que eram verdadeiras bombas-relógio. Inclusive de autores que se achavam a próxima grande face da fantasia ou da ficção científica. No começo do Ficções, quando eu tinha uma política de portas abertas, eu recebia de 8 a 10 livros todos os meses (sejam físicos ou ebooks). Alguns deles eram tão ruins que eu sequer publiquei resenha no Ficções. Toda editora dispõe de uma cota de livros impressos usados para divulgação. Sim, toda editora, não importa se é grande ou pequena. Faz parte da cota de impressão. Essa cota é que é usada para distribuição aos parceiros, sorteios ou envios para o autor fazer sua própria divulgação (apesar de eu conhecer casos de editoras que nem isso fazem). Fica a impressão de que a editora está pagando ao parceiro para fazer uma resenha. Só que isso não é verdade. Não posso trocar horas de estudo, esforço e trabalho por um material que pode ser avaliado abaixo de preço de custo.



Outra estranha confusão feita pelas editoras é a de que eu estou comprando a opinião do parceiro ao enviar um livro. Diabos, autores pensam isso quando pagam um publieditorial (e esse era o segundo tema da matéria de hoje). Mais uma frase em caixa alta:


MINHA OPINIÃO SOBRE UM LIVRO NÃO ESTÁ À VENDA. VENDO MEUS SERVIÇOS COMO LEITOR CRÍTICO. E COMO TAL, POSSO EXPRESSAR MINHA OPINIÃO DE FORMA POSITIVA OU NEGATIVA.


Como dizem em inglês: Deal with it (Lidem com isso).


Eu tenho um compromisso com aqueles que seguem o Ficções Humanas. Um compromisso de compartilhar minhas opiniões de forma honesta e sincera. Meus textos são gigantescos mesmos, causam sono a muitos e desagradam a vários outros. Lamento. Mas, se tem algo que eu conquistei com suor, sangue e trabalho foi a confiança dos que acessam o blog e leem o conteúdo. Opiniões não estão à venda, assim como votos em uma eleição não estão à venda (pelo menos não os meus). Editoras e autores confundem as bolas e acabam cobrando do seu parceiro uma atitude antiética. Acreditem: público leitor não é burro e percebe imediatamente que criador de conteúdo se vendeu ou não a uma editora.


Ah, sim. Só para deixar claro: existe uma diferença bem grande entre crítica construtiva e crítica destrutiva. O que fazemos no Ficções é o primeiro caso. Com nossos textos procuramos não apenas mostrar ao leitor os pontos positivos e negativos de um livro, mas ajudamos escritores a perceberem o que não ficou legal segundo nossa percepção. Como qualquer opinião, nossas matérias são de cunho opinativo e claramente subjetivo.


Até reluto em usar a expressão resenha em minhas resenhas (perdoem-me a piadinha) porque nenhum blogueiro que eu conheço produz resenhas. As verdadeiras resenhas seguem vários critérios acadêmicos apontados na ABNT. A expressão resenha acabou sendo usada como sinônimo de matéria opinativa, o que é um erro. Mas, de qualquer forma, ela acabou sendo absorvido pelo universo dos críticos informais de literatura. Como diria o João Peçanha, um autor sensacional que eu conheci na FLIP, criou-se a "profissão" dos resenheiros de internet como complemento aos críticos de jornal.


Outro erro comum que algumas editoras cometem é selecionar parceiros sem pesquisar muito sobre o tipo ou a forma do conteúdo que os mesmos produzem. É até uma das reclamações do áudio vazado. A pessoa que fez a "seleção" procurou conhecer o material produzido pelo parceiro? Ou só olhou uma ou duas postagens e achou bonitinha? Por exemplo, o Ficções é um site que trabalha com literatura de gênero, ou seja, fantasia, terror e ficção científica. Já aconteceu de eu receber materiais fora desses gêneros e eu doar a instituições de caridade. Qual parte do "trabalho com literatura de gênero" não ficou claro para a editora? No áudio vazado, a editora em questão também afirma que enviava 3 ou 4 livros de uma só vez, materiais que estariam encalhados e precisavam de divulgação. O parceiro não foi consultado para saber se ele tinha interesse em receber o dito material. Qual é o resultado óbvio? O parceiro não leu o que foi enviado. É lógica pura. Por que raios eu vou enviar um material que um parceiro não tem interesse ou não gosta do gênero?


Entendo o argumento de que existem parceiros que não leem o material que lhes é enviado. Mesmo quando tem interesse. Novamente a minha sinceridade chocante:


DIFICILMENTE UM PARCEIRO VAI LER TODOS OS MATERIAIS ENVIADOS.


Sério. E isso não é culpa do parceiro em questão. Hoje eu tenho 6 parcerias sendo uma editora grande, duas editoras de médio porte e três independentes. Às vezes recebemos tanto material que simplesmente não damos conta. A vida acontece. Não somos "resenheiros" em tempo integral. Por exemplo, eu sou professor do ensino público e posso estar envolvido com responsabilidades em meu serviço. Procuro ser o mais correto possível com as editoras que eu tenho parceira. Ano passado de um total de 60 leituras de parceria, fiquei devendo 2 livros (digo até quais são: Crônicas do Pássaro de Corda e 1984 na nova edição). Sim, eu tenho um altíssimo índice de devolutivas para as parcerias, mas eu também tenho os meus dois colaboradores que podem ou não ter suas próprias questões. Somos humanos e podemos cometer falhas.


Existem criadores de conteúdo mal intencionados? Claro. Como em qualquer outra atividade. Durante a seleção, cabe ao selecionador avaliar quais produtores de conteúdo se encaixam dentro dos seus parâmetros. Se a Coerência teve tantos problemas com os seus parceiros, é sinal de que a seleção não foi tão boa quanto deveria. Também não houve uma relação positiva de troca entre os parceiros. Quando um parceiro não devolve aquilo que a editora deseja, na próxima seleção o blogueiro não deve ser selecionado. Ficou claro que tudo o que foi observado é quantos seguidores um bookstagramer possui. Ou quantas pessoas assinam o Youtube. Essa seleção por critérios quantitativos só pode dar errado. É preciso empregar critérios qualitativos. Como o parceiro vai poder ajudar a editora? Como eu disse lá em cima, ter um parceiro com muitos seguidores não significa necessariamente uma conversão em vendas. Pense fora da caixinha.


A atitude da editora foi errada. Por mais que a forma como o áudio tenha vazado possa ser questionável por se tratar de uma conversa interna, foi um ato falho que demonstrou a maneira como a editora lida com os seus parceiros.


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