• Paulo Vinicius

Como a Literatura transformou a civilização, por Martin Puchner: a literatura mundial

Atualizado: Jan 15

Nessa terceira parte, veremos a literatura ganhando uma nova abrangência e difusão. Leitores de todas as partes do mundo começam a ter contato com materiais de fora do seu espaço. Isso provoca uma revolução na maneira de encarar a escrita e a publicação.


Cervantes e os moinhos de vento


Durante o período medieval, os romances de cavaleria fizeram muito sucesso entre os poucos leitores da época. Eram histórias simples onde cavaleiros enfrentavam poderosos inimigos ou faziam o impossível em nome de um amor platônico. Histórias como os Contos da Cantuária, de Chaucer ou Tristão e Izolda (em uma pegada mais romântica). Era fácil identificar aqueles que eram bons dos que tinham desígnios malignos. Uma escrita inocente ainda voltada para um público que foi se tornando cada vez mais ávido por novas histórias. A outra vantagem delas é que elas não se passavam em continentes confusos como aqueles que surgiram após as Grandes Navegações. Mesmo em plena Idade Moderna, a escrita ainda era medieval. Era complicado para as elites pensarem em um mundo onde pessoas realizavam sacrifícios humanos, onde o cristianismo ainda era muito incipiente e sofria forte resistência e os povos eram estranhos demais ao que os europeus consideravam "civilizado".


Havia outro ponto ainda mais sensível: o trauma da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453. É preciso lembrar que a cidade não era só o principal entroncamento entre os continentes europeu, africano e asiático. Era o último bastião do antigo Império Romano que havia sido devastado quase mil anos antes pelos povos germânicos, mas havia deixado para trás a sua fração oriental. O Império Bizantino era a recordação de um império que se julgava eterno, do qual os feitos de Júlio César ainda o marcavam. Mas, mais do que isso: era o ponto fulcral do poderio do cristianismo como uma bandeira para o ocidente e para o oriente. Sua queda acentuou a crise ideológica dentro da Igreja.


Mas, Gutenberg fez a relação do leitor com os livros mudar. A quantidade dos mesmos circulando era muito maior. Os copistas entravam em extinção, tendo sido substituídos por imensas máquinas capazes de realizar várias cópias por dia. Houve até mesmo mudanças na forma de lidar com os autores: o pagamento em dinheiro, o adiantamento por manuscrito. Com a impressão era possível a mais pessoas se aproximar desse mágico mundo da leitura. Eles deixam de ser um objeto raro e de adorno para começarem a ser encarados como uma forma de entretenimento.



E surge nesse meio, Miguel de Cervantes. Ele chega criticando os romances de cavalaria. Para ele, era preciso apresentar algo novo e interessante aos leitores. Não só isso: Cervantes precisava escrever para garantir a sua sobrevivência. Por essa razão, a maneira como ele pensava sua escrita era diferente daqueles que abraçavam algo mais artístico. O protagonista que ele deixou lendário, Dom Quixote, era um homem tolo e ingênuo. Bem diferente dos cavaleiros corajosos e destemidos de Chaucer. Ele acreditava ser um cavaleiro medieval, mas aqueles que observavam as ações de Dom Quixote o entendia como um lunático. Além disso, as camponesas do livro eram entendidas como lindas donzelas, mesmo quando estas eram feias. Durante a narrativa pessoas comuns eram atacadas subitamente como se estas fossem rivais do inocente "cavaleiro". O pobre diabo quase sempre se metia em inúmeras enrascadas por conta desse comportamento volátil.


É através desse personagem completamente fora dos padrões que Cervantes obteve o seu sucesso. Ele demarca o surgimento do romance moderno. Curiosamente, o autor quis escrever seu romance como uma forma de criticar os heróis medievais. Mas, Quixote acabou ele mesmo se tornando um herói, pois a interpretação dos leitores sobre o que o autor queria dizer acabava saindo equivocada. A sátira era levada a sério. Mas, os problemas de Cervantes não terminaram aí: os leitores queriam mais aventuras do personagem. E o autor não havia preparado isso já que a jornada de seu herói havia chegado ao fim. Por causa das quase inexistentes leis do direito autoral, outro autor acabou escrevendo uma suposta segunda parte do romance (com uma péssima qualidade). Para lidar com as cópias piratas, Cervantes acabou de fato escrevendo uma segunda parte e até em uma passagem Dom Quixote aparece duelando contra o falso Quixote. Se tornou algo muito debatido a questão da impressão em contraposição ao controle criativo dos autores sobre suas obras.


A escrita a favor da política


As impressoras acabaram se tornando cada vez mais comuns e logo chegaram no Novo Mundo. Isso provocou uma revolução na forma dos colonos perceberem o mundo. Obras de filósofos iluministas começavam a chegar e elas foram responsáveis pelos movimentos de emancipação que começam a ocorrer de forma tímida no século XVIII e com toda a força no século XIX. É preciso lembrar que os participantes da Conjuração Baiana, ocorrida no nordeste do Brasil na década de 1790, tinham acesso às obras de Rousseau, inspirador ideológico do movimento. Mas, Puchner se foca na figura de Benjamin Franklin e na declaração de independência dos EUA.


Os jornais se tornam cada vez mais comuns no continente americano. Esse era um espaço de denúncias e de panfletagem política. Também eram empregados como um lugar de debate de ideias. Vai ser através da rápida difusão deles é que as pessoas ficarão sabendo dos acontecimentos e dos sentimentos em relação aos administradores. Franklin vai ser o responsável por criar uma forma de impressão mais rápida em um suporte mais barato. É essa conjunção de fatores que vão transformá-lo em um ícone para a independência norte-americana. Sua principal virtude foi ter percebido as possibilidades por trás do controle de todas as etapas da impressão. Diferentemente de Gutenberg que inicialmente pensava em edições de alta qualidade e in foglio, Franklin queria máxima eficiência e máxima quantidade.


Principalmente a partir do momento em que surgem obras volumosas como a Enciclopédia de Diderot. O objetivo do pensador francês era reunir todo o conhecimento humano em um livro que pudesse resguardá-lo para a posteridade. Mas, imprimi-lo se tornou um desafio. Os processos de impressão precisaram ser renovados. Franklin também foi responsável por difundir rapidamente a declaração de independência de forma a consolidar e legitimar a soberania da nova república que surgia. Por essa razão, quantidade e velocidade!



A literatura mundial


A expressão que usamos como subtítulo dessa terceira parte foi cunhada pelo assistente de Goethe durante uma de suas discussões. Estamos no século XIX e agora a literatura ganhava muito espaço. Obras vindas de diferentes partes do mundo chegavam à Europa e Goethe era fascinado pela literatura oriental. Os temas empregados pelos romances europeus começavam a se tornar repetitivos e enfadonhos. A chegada dessa nova literatura traz um novo frescor e novos temas que poderiam ser empregados por estes autores. Homens esses como Goethe.


O século XIX é também o período do nascimento do imperialismo. Após o fim da era napoleônica, o Congresso de Berlim cria as áreas de influência nas quais as potências europeias vão passar a agir até meados do século XX. Quais serão suas zonas de ação? Que países estarão sob seu jugo? O imperialismo vai estimular uma nova onda de viagens científicas como as de Charles Darwin a bordo do Beale. A febre pelo exótico e pelo diferente vai dar espaço para obras de cunho científico. É a literatura de viagens que ganhava espaço e atraía o interesse de inúmeros leitores. Claro que serão visões enviesadas, repleta de incompreensões e preconceitos. O discurso eugênico surge a partir das formulações darwinianas sobre a evolução do homem (Darwin ficaria decepcionado com o que se tirou do que ele escreveu).


É o nascedouro também de disciplinas modernas como a Sociologia que buscava explicar a origem da civilização humana. Ela partia da busca pelas origens, da necessidade de entender de onde viemos para refletir sobre os nossos próximos passos. A disciplina queria encontrar aquela sociedade que estaria em seu estado mais puro para poder traçar comparações com a sociedade europeia, entendida como em um estágio mais avançado. Em pouco tempo os sociólogos descobrirão ser impossível traçar este comparativo por conta de inúmeras variáveis presentes no desenvolvimento social. Um outro sentido para a busca das origens é o movimento dos nacionalismos modernos do final do século XIX. Todos os países buscavam estabelecer suas origens: a França ia buscar o nascedouro nas conquistas de Carlos Magno; os alemães traçavam seu surgimento na figura de Clóvis e os ingleses iam ainda mais longe ressaltando os feitos dos saxões de eras passadas.


Em toda essa conjuntura estava um escritor do porte de Goethe. Com Os Sofrimentos do Jovem Werther, o autor foi capaz de nos apresentar uma nova forma de escrita. Uma forma de composição mais global, influenciada pelas leituras que ele absorvia e selecionadas por um assistente apaixonado por suas criações. Goethe foi alguém que marcou o início de uma nova era.



Mudando a realidade social


Se o século XIX foi importante do ponto de vista geopolítico, ele também marcou a produção de dois autores fundamentais para nós até hoje: Karl Marx e Friedrich Engels. Naquele período, a filosofia alemã era marcada pelas preocupações do pensamento de Hegel com a História. A necessidade de entender o nosso desenvolvimento em um longo período, mas sem o envolvimento do homem. O que movia a história eram as ideias e a imaginação. Um pensamento claramente em conjunção com aquilo que se produzia de forma literária naquele período. Os romances tentavam captar a realidade social de sua época. Mostrar aos leitores uma obra calcada em acontecimentos reais. Tolstói ganhou sua fama a partir de uma obra volumosa conhecida como Guerra e Paz que tinha a alma da Mãe Rússia em cada página de seu romance. Os personagens eram muito identificáveis com o momento vivido por eles: um país ainda arcaico lutando para se desenvolver e chegar próximo de seus rivais europeus. Um homem como Stendhal ao escrever O Vermelho e O Negro buscava atacar as bases da sociedade francesa considerada fútil. Ou até mesmo um Charles Dickens que com seus Grandes Esperanças retrata a realidade cruel de uma Inglaterra em plena Segunda Revolução Industrial. Era o auge do historicismo na literatura.


Quando Marx e Engels passam a pensar sua realidade, eles culpavam os seres humanos pelas transformações ocorridas no mundo. Sem sua intervenção, os mesopotâmicos não teriam domado o rio Tigres e Eufrates, por exemplo. O motor da história deixa de ser o abstrato para ser o concreto. Surge então a noção do materialismo histórico e O Manifesto do Partido Comunista vai ser uma obra altamente crítica da forma como o capitalismo liberal, do século XIX, era nocivo à realidade vivida pelo homem da época. Com os dois autores, surge o gênero do manifesto, um tipo de escrita voltada para a crítica social, para arrebanhar pessoas capazes de transformar o seu mundo através da ação e da luta social. A marca dos manifestos é uma combinação de uma grande história com um chamado para a ação.


Puchner enxerga no Manifesto do Partido Comunista uma obra que teria aprendido com literaturas passadas. O produto de uma sociedade madura e que colocava a literatura em outro patamar. Ou seja, o manifesto escrito por Marx e Engels contava uma história sobre as origens buscando na Antiguidade Clássica as razões para nossas mazelas. Dirigia-se a todos os povos através de uma rápida dispersão por todos os países. Por ser uma literatura de protesto ela precisava chegar ao máximo número de mãos possíveis. Sem um projeto de impressão apropriado isso jamais teria acontecido. A obra dava vida a uma nova realidade política, apesar de que só veremos as ideias de Marx sendo colocadas em prática a partir das adaptações feitas por seus sucessores como Lênin, Fidel e Mao. E por fim, a obra aprendia a dinâmica da literatura universal podendo se adaptar a realidades distintas. Tudo isso deu um caráter único a uma obra que tem pouco tempo de vida em relação a livros mais antigos como a Odisseia ou a Epopeia de Gilgamesh.


Nessa terceira parte vimos como a literatura chegou a um patamar mais global. Agora estamos diante de leitores que possuem acesso a obras oriundas dos mais diversos países com as mais variadas culturas. Mas, qual é o futuro da escrita? Como os novos leitores se relacionam com seus livros? E quais foram os efeitos da globalização e da internet para a composição de novas histórias? Isso é o que veremos na última parte dessa matéria.



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Livro citado:


Ficha Técnica:


Nome: O Mundo da Escrita - Como a Literatura Transformou a Civilização

Autor: Martin Puchner

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Não Ficção

Tradutor: Pedro Maia Soares

Número de Páginas: 488

Ano de Publicação: 2019


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras


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