• Paulo Vinicius

Big Fish & Begonia

Chu é uma garota que vive em um mundo abaixo dos oceanos do nosso. Um mundo de seres poderosos que controlam os quatro elementos. Uma vez em suas vidas, eles precisam passar um dia como golfinhos no mundo dos homens. E chegou a vez de Chu. Só que uma tragédia acontece que vai mudar a vida de todos para sempre...



A cultura oriental é repleta de simbolismos e representações. Seja o significado por trás do ato da meditação, as festas que celebram a colheita, o espírito calmo, porém indomável. Big Fish & Begonia bebe dessa tradição milenar para criar uma linda história sobre generosidade e amor. São mais de 90 minutos de uma animação belíssima, marcada pela exploração do cenário, das estações do ano e de como os personagens se relacionam com ela. Não há inimigos terríveis e maldosos; a história se concentra na relação entre Chu e Kun e como o fato de Chu ter trazido um ser humano a um mundo onde estes são proibidos. Somos colocados diante de uma animação que trabalha questões como o tempo perene, a passagem das eras, a relação de seres com poderes quase divinos com os seres humanos e o que o amor nos leva a fazer. Algumas cenas são maravilhosas como a dança de Chu ao lado do pequeno Kun em cima dos telhados e a imensa árvore que aparece no final do filme.


Big Fish & Begonia é uma produção chinesa que levou doze anos para ficar pronta até que foi exibida em 2016. O roteiro é uma adaptação de um livro taoísta chinês chamado Zhuangzi, uma espécie de coletâneas com diversos textos, lendas e anedotas do período dos Estados Combatentes na China. Tem também uma mescla de outras narrativas tradicionais chinesas como os Clássicos das Montanhas e dos Mares e Em Busca do Sobrenatural. O objetivo do Zhuangzi é apresentar mensagens como paciência, serenidade, generosidade e outras ideias trabalhadas no Tao Te Ching. Outro objetivo do Zhuangzi é mostrar como o ser humano tem uma visão rasa sobre a diferença entre o bem e o mal, algo bastante trabalhado no filme. Pensem que Chu ao levar Kun por um capricho, uma vontade de pagar uma boa ação, mas que acabou colocando todo o mundo dela em perigo, pode ser entendida como maligna, ao mesmo tempo em que faz um ato de bondade. Esta é a mensagem do livro que deu origem ao filme. A adaptação ficou a cargo de Liang Xuan assim como a direção que ele dividiu com Zhang Chun. O estúdio de produção foi o Studio Mir, que contou com o apoio da Beijing Enlight Media. O sucesso foi tão grande que vários críticos disseram que isso seria o cartão de visitas da China como uma origem para novos e interessantes trabalhos ao lado do tradicional mercado de animação japonesa. A Funanimation adquiriu os direitos de distribuição e passou nos cinemas ocidentais em 2018, sendo que um ano depois a Netflix comprou os direitos e adicionou ao seu catálogo.


Fica também o meu destaque para a maravilhosa trilha sonora composta por Kiyoshi Yoshida. Ela consegue compor um fundo significativo para os eventos da trama, seja uma música mais parada e ambiental demonstrando o cenário idílico de onde Chu vive, ou um momento de maior tensão. Os efeitos visuais também estão lindíssimos. Quer ver como vai ser o nível de animação de Big Fish & Begonia? Assistam os primeiros cinco minutos do filme. Se você não se convencer de que a animação é maravilhosa, nem se preocupe em continuar. Esse é um daqueles filmes que levaram anos para ser produzido, onde o estúdio valorizou cada pequeno detalhe do que estava sendo mostrado em tela. Não é a história mais maravilhosa do mundo, acho que tem alguns problemas de encaminhamento narrativo, mas consegue entregar algo bastante competente. O final consegue ser emocionante e até um pouco melancólico como toda boa lenda oriental. Há uma lição maior a ser aprendida.



Somos apresentados no começo da história a um mundo idílico que se situa abaixo do nosso. Enquanto nós nos desenvolvemos como seres efêmeros com nossos problemas e dilemas, o mundo dos Outros fica abaixo dos oceanos. Quando os peixes nadam em águas muito profundas, eles conseguem, por vezes, atravessar o véu que separa o nosso mundo do dos Outros. Nele, vivem seres que possuíam particularidades que os colocam com poderes quase divinos. Seu controle sobre os elementos da natureza os fazem seres que transcendem a compreensão humana. Uma vez na vida, os Outros precisam atravessar o véu que separa os dois mundos e viver uma semana entre os homens para tentar aprender como eles vivem, o que pensam e como melhor usar seus poderes sobre a natureza. Eles se transformam em golfinhos vermelhos e simplesmente vagam pelo mundo, observando e assimilando. Assim foi com Chu que conheceu a Terra e os homens e se afeiçoou a eles. Logo quando ela sai do redemoinho que liga os dois mundos, ela conhece um jovem pescador e sua irmã. Chu fica encantada com o som de sua pequena ocarina e percebe que ele é uma boa pessoa. Quando estava retornando de sua viagem pelo mundo, a menina-golfinho acaba ficando presa em uma rede de pesca e vê seu retorno ameaçado. Mas, o jovem pescador arrisca sua vida para cortar a rede e ela consegue voltar para casa. O rapaz morre afogado, deixando sua irmã inconsolável. Chu se sente culpada pelo que aconteceu e busca um ser responsável por guardar as almas que passam do mundo humano para o outro mundo. Lá ela faz uma barganha perigosa para recuperar o espírito do jovem rapaz.


Vou começar falando sobre como a animação se foca no que significa bem e mal. E a generosidade do coração de Chu. Tudo o que ela queria era retribuir o que Kun fez a ela no mundo dos homens. Ela estava ciente das proibições de seu mundo. Claro que não passou pela cabeça dela a destruição que manter o pequeno Kun no mundo dos Outros iria causar para a estrutura de sua existência. Fica um pouco incerto saber os sentimentos dela por Kun, apesar de que o filme dá algumas pistas de que ela está apaixonada pelo pescador. Mas, não é nada concreto. Não passa pela cabeça dela desistir de sua intenção. Para ela, é uma questão de honra retribuir a boa ação que foi feita a ela. Só que ela acaba se tornando a "vilã" de seu mundo. Chu desestabiliza completamente o mundo, causando enchentes, alterações climáticas, bagunçando o modo de vida de todos. Tanto que as pessoas de sua vila passam a persegui-la e a amaldiçoá-la pelo que ela fez. Tem uma cena mais no final do filme que envolve os pais de Chu que é bastante forte. Pensar no que acontece logo em seguida com a personagem e como os pais não voltam atrás em sua ação é patente disso.


Aliás, preciso tocar no porque temos o símbolo da begônia ao lado do grande peixe. Se o grande peixe pode ser entendido como o Kun, a flor tem uma simbologia importante para o próprio filme. Se vocês pesquisarem um pouco no Google sobre o significado das flores, vão descobrir que a begônia geralmente é associada à felicidade, à delicadeza e à lealdade. De certa forma todos os personagens possuem em algum nível esses sentimentos. Já façamos do amor e da lealdade de Chu para com Kun. Mas, talvez o personagem que mais incorpore esses sentimentos é Qiu, o melhor amigo de Chu. Sim, é a velha história do amigo que é secretamente apaixonado pela protagonista. E ele percebe de cara que sua amiga possui fortes sentimentos para com o golfinho. Aquele lugarzinho especial que ele tinha na vida de Chu foi sendo substituído pouco a pouco por ele. É de partir o coração a abnegação e o amor que Qiu tem por Chu. Os sacrifícios que ele faz em prol de sua amada são gigantescos, mesmo sabendo que seus sacrifícios não lhe darão nada. Tudo o que ele faz é apenas para ver a felicidade de quem ele ama. O diálogo que ele tem com o Mantenedor de Almas onde ele faz uma barganha, assim como Chu fez no começo do filme, é ilustrativo de até onde ele pode ir por amor.



O tema do equilíbrio é constantemente abordado na animação. Existe uma razão para a natureza ser do jeito que ela é. Ela não é boa ou má; ela segue um fluxo. Quando alteramos esse fluxo de alguma forma, o resultado é mortal. Se pensarmos ainda nessa linha, podemos também falar de vida e morte. Os Outros são seres que vivem mais do que os seres humanos. Com vidas mais estendidas, eles passam a perceber o mundo com outros olhos. Suas vidas são mais contemplativas, curtindo o meio em que vivem com harmonia. Por exemplo, o avô de Chu é um sábio que vive em uma pequena casa no alto da vila. Ele observa a tudo com parcimônia e paciência, se deleitando em como os mais jovens passam suas vidas. Também absorve as sensações do vento, do cair de pétalas de rosa, de sua esposa que se tornou um enorme pássaro. Apesar de Chu estar triste com o fato de a hora de seu avô estar chegando, ele demonstra total serenidade entendendo que não há razão para a imortalidade. Vivemos uma vida limitada para podermos nos regozijar com as coisas que cercam o mundo. A vida ser finita é uma forma de fazer com que o homem valorize mais o tempo que ele passa no mundo material.


Algumas das cenas na vila de Chu me lembraram as animações do studio Ghibli, principalmente A Viagem de Chihiro. Tem um momento em que Chu e Qiu estão chegando para uma celebração que eu juro que vi um noname, uma daquelas criaturas de sombra e sem rosto de Chihiro. Gostei demais da animação e você não vai parar enquanto não terminar de assistir. Ela te prende pelos 100 minutos de projeção. Vale cada minutinho. Ah, e se prepare para suar pelos olhos porque não tem como. A ceninha da Chu e do Qiu no alto do penhasco é mortal para os mais sensíveis. Fiquei impressionado mesmo e entrou para o meu hall de animações favoritas.





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