• Paulo Vinicius

As dificuldades em escrever sobre folclore na literatura de gênero

Atualizado: Ago 29

No dia 22 de agosto se comemora o Dia do Folclore e gostaria de repassar algumas dificuldades que novos autores brasileiros tem tido para representar adequadamente a cultura brasileira em suas narrativas. Algo que vem da minha experiência após muitas leituras e que gostaria de compartilhar com os leitores do FH.



O aumento de obras de literatura fantástica escritas no Brasil por autores que buscam seu espaço no mercado tem espantado muitos críticos. Talvez pela popularização da autopublicação e formas alternativas de colocar seu livro à venda, isso tem estimulado autores a apostarem a sorte. O início desse novo boom teve uma ligação com o que estava na moda no mercado americano, então vimos muitas cópias do que já era produzido. Histórias escritos por brasileiros, mas que tinha a ambientação e todos os clichês típicos de obras importadas. Com o tempo vimos que o aumento de novas vozes provocou uma peneira interna que fez algumas vozes pioneiras sumirem dando espaço a um material de mais qualidade. Só que novas vozes surgem todos os dias e alguns vícios são bastante comuns e provocam dores de cabeça a quem trabalha em editoras ou em revistas especializadas na publicação de contos.


Colocando o porquê de eu poder escrever uma matéria assim antes de começar a falar. Não sou especialista em folclore e cultura nacional, apenas alguém que lê muito e pesquisa sobre o que lê (já volto nessa frase aqui). Segundo que o Ficções Humanas é um blog que já existe há mais de seis anos, caminhando para o sétimo. Fora que este que vos fala já tinha um blog anterior, também voltado para resenhas que teve meros um ano e pouco de existência. Nas minhas costas sozinho eu carrego mais de setecentas resenhas publicadas. Também participei do processo de seleção de duas edições da revista A Taverna tendo lido bastante material (devo ter passado dos cento e cinquenta ou duzentos contos na época, o que é um número bem pequeno comparado a outras pessoas que trabalham nesse tipo de publicação). Fora que já trabalhei como leitor crítico para pelo menos quatro autores (é pouco) e trabalhei por contrato para uma editora X com produção de material de apoio pedagógico. Detesto dar carteirada (sério... detesto mesmo... não costumo nem dizer minha formação acadêmica), mas sempre aparece alguém para dizer quem é você na fila do pão. Então, este sou eu.


Um segundo preâmbulo antes de começarmos a debater o tema é desmistificar um pouco o que significa trazer elementos do folclore brasileiro para obras de literatura de gênero. Sinto que os autores possuem um certo receio de mexer nesse assunto. O que considero uma perfeita bobagem. Existe ainda uma falsa visão, fruto de décadas de ignorância do Estado em tratar do assunto nas escolas, de um folclore infantilizado que não se preocupa em falar sobre as lendas em si, sua origem e impacto cultural. O Brasil é um país continental e que possui uma enorme variedade de culturas espalhadas por todos os quatro cantos. Temos mitos que vão desde o conhecido saci, passando pela pisadeira, pela iara, pelo boto e tantos outros. E quem pensa que os contos são fofinhos e engraçadinhos, parece que se esqueceu que os contos europeus também não são nada fofinhos. A maioria das histórias são contos cautelares, voltados para alertar as pessoas sobre os perigos que se escondem na mata. Então, meu conselho é não tenha medo; vou dar alguns conselhos básicos nesta matéria que podem ajudar a pelo menos estimular aquela faísca do escritor curioso.



Uma das grandes dificuldades percebidas em contos que buscam trabalhar alguma criatura oriunda do folclore brasileiro é a sua desfiguração ou estereotipificação. Quase sempre o saci é o negro peralta de um pé só que apronta peças. Ele é risonho e curioso. E essa é a visão do livro didático do Fundamental I. Talvez para quem não parou para pensar por trinta segundos, o saci é mais uma versão de um trickster, um personagem voltado para enganar e ludibriar os incautos. Muito no que é... uhmmm... deixa eu ver, Loki? Essa ideia de seguir ideias que nos foram incutidas em momentos iniciais de nossas vidas parece que persegue até a nossa imaginação na hora de criar uma história. O personagem não é isso. Uma boa dica inicial, e vai parecer óbvio dizer isso, é pesquise sobre o assunto. É uma tarefa tão primordial que a gente esquece por achar que o mote da lenda folclórica parece óbvia. Mas, não é. Uma boa ressignificação do mito do saci foi dada por Lauro Kociuba em um dos contos do livro Raízes de Sangue. Ele pensou na criatura como um espírito da floresta que tem apetites mortais e gosta de ir atrás de pessoas que invadiram seu território. É um conto realmente assustador e vemos como Kociuba foi atrás de histórias a respeito do personagem. Ele buscou uma das histórias mais primitivas sobre ele, que tinha conexões com a própria floresta e com o que ela pode esconder.


Para começar uma pesquisa, sempre gosto de recomendar materiais que sejam clássicos e conhecidos entre estudiosos. Luís da Câmara Cascudo tem uma coleção excelente sobre o assunto, mas vocês podem começar por Folclore do Brasil. Um livro que vai te dar algum norte sobre o assunto. Claro que esse já é um livro mais antigo e tradicional sobre o tema que já foi revisitado inúmeras vezes nas últimas décadas. Mas, como ponto de partida já pode quebrar aquelas certezas bobas que temos sobre o tema. Minha segunda indicação é um autor e pesquisador que terá seu livro resenhado amanhã por nós: Andriolli Costa. Uma pessoa que tem uma vasta produção no tema, deste textos para o seu blog Colecionador de Sacis até um podcast fantástico chamado Porandubacast. O que gosto do trabalho do Andriolli é como ele consegue criar links entre os temas do folclore brasileiro e assuntos atuais e pertinentes. Provavelmente a sua próxima faísca de ideia vai surgir desse contato, tenho certeza disso.


Um segundo erro comum e é algo advindo do primeiro é com a falta da pesquisa, a cultura local acaba estereotipada. No caso de lugares que se situam no interior do Brasil, o folclore se mescla facilmente à cultura local produzindo algo único e diferenciado. Muitas vezes tratamos aquele morador do interior como o caipira mascando uma folhinha ou a menina com trancinhas. Ou até pela forma, até meio pejorativa, de falar. Isso cria um cenário bobo e cartunesco do que está sendo apresentado. Que foge um pouco do que é a narrativa de verdade. Seres como a mula sem cabeça podem ser tratadas com mais seriedade se elas representarem um perigo real àquela região onde elas se situam. E onde as pessoas não falam como caipiras bobos. Paola Siviero conseguiu fazer uma síntese excepcional entre cultura nordestina e fantasia urbana em seu romance Auto da Maga Josefa. Mais do que isso: ela homenageou a literatura dos autos, saído de um barroco de final da Idade Média e início da Moderna (me remeteu imediatamente ao Auto da Barca do Inferno). E seu romance não deixa de ser extremamente bem humorado, ao mesmo tempo em que cria um universo interessante e repleto de nuances que envolvem o leitor. Sem estereotipar a cultura local.



Por último, é sempre bom saber o que você está escrevendo. E certamente você, cara-pálida, não é o cara que mais entende do assunto. Por mais que você tenha pesquisado sobre o assunto, por mais que tenha lido calhamaços e mais calhamaços a respeito, nada supera alguém que teve contato direto com histórias locais. Dessa forma, minha terceira dica óbvia e final é consulte alguém que conheça a cultura local. Leitores sensíveis, meu povo. Existe uma cultura besta de acreditar que leitor sensível só serve para transformar o seu livro em um panfleto comunista. Isso é de uma ignorância inacreditável. Tem mais: leitor sensível não é só voltado para temáticas negras e LGBT. Existe sim pessoas especializadas em fazer revisão de textos que versam sobre cultura indígena e até sobre folclore.


Vou contar uma história triste e recente para vocês que resume o assunto: a DC Comics recentemente colocou no ar uma iniciativa chamada Future State, uma série de histórias que se passavam em um futuro próximo e misterioso onde teria acontecido algum acontecimento trágico que teria afetado os heróis e ocasionado algumas substituições. Um dos personagens que teve o seu alter ego mudado foi o da Mulher Maravilha, cujos poderes passaram para uma mulher chamada Yara Flor, uma amazona pertencente a uma dissidência das amazonas de Themyscyra e que vive no coração da Floresta Amazônica. Lá, ela precisa lidar com espíritos malignos e invasores, além dos seus próprios super vilões. A ideia inicial é genial: transformar um dos três grandes da DC em uma personagem legitimamente brasileira e que possui suas histórias calcadas em elementos do folclore amazônico. Só tem um pequeno problema: tudo saiu extremamente estereotipado e pobre nas relações culturais e só foi mais um pastiche americano que deu uma cara totalmente estranha ao ambiente em que ela vive. Sem mencionar que a personagem foi altamente sexualizada (fica a dica de um ótimo artigo das Garotas Geeks sobre a polêmica). Para os americanos, que não conhecem muito sobre a cultura indígena, tudo pareceu exótico e diferente. Mesmo para boa parte dos brasileiros que não possui a menor noção também sobre o assunto.


Essa história gerou uma forte reação de uma ativista indígena chamada Alice Pataxó que argumentou ponto a ponto porque a criação de Yara Flor estava repleta de problemas básicos. Vocês podem estar então comentando que isso pode ter sido obra de algum roteirista novato que foi pego de surpresa. Infelizmente, não: tratou-se de Joelle Jones, uma roteirista altamente respeitada, que tem bons trabalhos na DC e que costuma trabalhar com pautas de gênero. Foi surpreendente o quanto a autora não teve reação ante as críticas. Não sei como se desenrolou depois o caso porque não tivemos um feedback sobre como foi a reação da autora ou se houve um novo direcionamento editorial. O caso é que mesmo autores grandes podem acabar se enrolando caso não façam o básico. Aliás, deixei lá o link da Alice Pataxó que pode servir como uma ótima referência para buscar ajudar ou fazer uma consultoria. Consultar alguém que sabe é, no mínimo, respeitoso.


Sei que todas essas minhas dicas foram óbvias. Não ensinei nada espetacular sobre o assunto. Mas, na minha experiência como leitor, essas dicas óbvias parecem passar longe de alguns escritores, que insistem em erros crassos e simples. Durante o processo de seleção de contos para A Taverna peguei dúzias e mais dúzias de contos que caíam neste erro. Sejam criativos, criem mundos alternativos legais para os nossos personagens do folclore, mas não deixem de pesquisar o que eles são, o que fazem e como se relacionam localmente. Caso contrário, o seu saci vai parecer um Loki perneta ao invés de alguém calcado nas raízes brasileiras. Pesquise, consulte, estude.




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