• Paulo Vinicius

A Rosa mais vermelha desabrocha, de Liv Stromquist

A autora de A Origem do Mundo volta em uma HQ que fala sobre um dos temas mais importantes do mundo contemporâneo: o amor. Mas, como as definições de amor mudaram neste universo dinâmico que são os dias de hoje?



A autora Liv Stromquist nos traz essa HQ bastante interessante onde ela aborda o conceito do que é o amor em nossa sociedade contemporânea. Partindo de uma série de reflexões surgidas a partir da leitura de sociólogos e filósofos, Stromquist nos apresenta como o capitalismo tardio afetou a nossa percepção sobre a relação com o outro. Antes de falar mais a respeito da HQ, fica aqui uma pequena e ligeira crítica porque acho que a autora se focou mais nas relações heterossexuais, e ela fala isso no começo. Apesar de que há momentos breves em que ela analisa algumas relações homoafetivas, mas tenho certeza que a HQ ganharia imensamente ao abordar como é a descoberta de amar alguém do mesmo gênero, como se dão as relações de poder, como a sociedade enxerga tais relações amorosas. Não consigo deixar de pensar, mesmo com reservas, na ideia de modernidade líquida do Zygmunt Bauman. Já que mesmo nas relações amorosas existem vários fatores a se considerar. E eu tenho certeza que, por conta de todo o preconceito e as dificuldades sociais existentes, a própria noção de amor entre pessoas do mesmo gênero pode ser diferente em algum nível. Isso é pura especulação, mas eu adoraria ler algo do tipo.


Sobre a HQ em si, não há muito o que falar porque ela funciona bastante como uma espécie de livro ilustrado ou HQ informativa. Os desenhos servem para ou dar um ar de leveza à HQ ou ilustrar alguma ideia. Então não me sinto apto a analisar de forma sistemática o que a autora quis colocar aqui. Para mim, serve à proposta apesar de eu achar que ela poderia ter carregado menos no texto. Mas, okay, cumpre os objetivos. No final ainda tem alguns extras bem legais para o leitor. A forma como ela concebeu o quadrinho me agradou demais e já vou correr atrás dos outros quadrinhos dela.


Agora, falando um pouco sobre algumas temáticas, queria jogar algumas bolas para o alto e discutir com vocês. Como um estudioso de mudanças sociais, preciso destacar que a nossa noção do amor romântico surge apenas no século XVIII e XIX. Pelo menos da maneira como o conhecemos. Não à toa boa parte das reflexões da autora são com base nesse período, salvo alguns trechos da obra de Marsílio que são do século XV. O amor era entendido quase como um contrato entre homem e mulher. Cada um dos lados tinha suas responsabilidades um para o outro: o homem deveria ser o fornecedor dos bens, o protetor; a mulher era a progenitora, a cuidadora. Uma sociedade claramente patriarcal onde a noção de dever era mais forte. Salvo algumas raras exceções na sociedade europeia, o homem era o provedor. E é interessante pensar que a sociedade demandava uma postura assertiva do homem com sua futura esposa. Havia um ritual para o estabelecimento de um compromisso. Stromquist nos mostra como essa relação dava poder ao homem. Por outro lado, a mulher tinha o controle da geração de herdeiros. Para o homem antigo, era fundamental gerar o maior número de filhos, porque isso era sinal de virilidade. E, principalmente, gerar filhos homens, que pudessem levar a família adiante. Embora mulheres pudessem ser negociadas em casamentos que favorecessem a família, elas não representavam status. Apenas dependência.


Stromquist nos mostra que no nosso capitalismo tardio, o dever deu lugar ao poder. Possibilidades. Ser capaz de poder fazer alguma coisa. Com as revoluções femininas que se espalharam por todo o século XX, as mulheres tomaram espaços que eram predominantemente masculinos. Por exemplo, se pensarmos a partir do final da Primeira Guerra Mundial, isso se tornou essencial para um processo de recuperação econômica na Europa. Pensar que a Primeira Guerra arrasou com a população masculina em idade ativa para o mercado de trabalho (mais de um terço mortos e um sem número de traumatizados com os horrores da guerra), as mulheres precisaram assumir estes postos de trabalho. Isso fortaleceu os movimentos que reivindicavam maiores direitos para elas como equiparação salarial, segurança, horas de trabalho estipuladas. Com isso, o homem perde um de seus espaços de atuação. Stromquist aponta três locais onde o espirito masculino era ressaltado: no ambiente de trabalho inteiramente masculino, em uma extensa família e em um clubes/locais de socialização masculinos. Mas, hoje, as mulheres muitas vezes ocupam posições de mando em determinados departamentos. Isso diminui esse espírito do "macho-alfa" criando novas relações de trabalho. Isso quando a mulher não é a única dentro de uma família a ter um posto de trabalho. Não é incomum nos dias de hoje termos "homens do lar" ou homens com menos responsabilidades profissionais, e consequentemente renda menor, do que uma mulher. Sem falar no fato de que as mulheres também conquistaram seu espaço o suficiente para realizar suas atividades sociais e de recreação. Stromquist aponta que a forma como o homem buscou recuperar sua "masculinidade" foi em uma noção de amor mais desencantada e desapegada. Todas aquelas responsabilidades e obrigações que ele tinha como provedor, protetor e pessoa assertiva se perderam.


O sexo e as relações sexuais se tornaram o novo domínio do homem. Onde ele consegue exercer o seu patriarcalismo, segundo Stromquist. E ela destaca isso a partir de três conceitos: a autonomia, a autoridade e a solidariedade. Ou seja a possibilidade de manter um certo distanciamento emocional, relegando a possibilidade de escolher o "momento certo" para uma relação avançar em seu escrutínio. O aspecto da autoridade é a capacidade de definir os termos de uma relação. E a solidariedade é o apoio de outros seres masculinos àquilo que o homem em questão está fazendo. Esse último caso cai na possibilidade de um homem manter um número de parceiras sexuais que forneçam status a ele. Ou seja, se na sociedade patriarcal tradicional o homem se casava com uma mulher e permanecia com sua parceira por toda a vida (mesmo que viesse a ter casos secretos com outras), hoje a sociedade contemporânea valida o homem capaz de ter várias parceiras. Dentro do universo masculino, isso é valorizado e encorajado. Dá poder e status dentro de um grupo. isso sem falar na separação entre o sexo e o casamento, já que antes entendia-se a necessidade de se casar antes de poder se relacionar com o seu par.


Na visão de Stromquist o amor no capitalismo tardio tem um foco no eu mais do que no outro. E justamente por essas alterações na dinâmica entre homem e mulher. Parando para refletir sobre o que a autora coloca e seus argumentos, concordo quase 90% com o que ela diz. Tenho pequenas ressalvas principalmente no que diz respeito à ascensão das redes sociais e na forma como isso afetou a relação a dois. Mas, voltando ao que destaca Stromquist, ela entende que não mais enxergamos o outro como um complementar, mas como um reflexo nosso no espelho. O próximo serviria apenas como uma espécie de validador da sua existência. Por isso nos focamos em buscar quem compartilha de nossos hábitos e costumes. Ao buscar igualdades e não diferenças, cancelamos o outro. Cancelamos no sentido de que o amor é baseado, segundo ela, na individualidade do outro. Ela usa algumas expressões tipicamente românticas para exemplificar como "Aquela pessoa é única em minha vida", ou "não há ninguém como ela".


Outro bom exemplo é a ascensão de aplicativos que visam apontar nossa alma gêmea, ou encontrar uma pessoa a partir do que eu desejo encontrar em uma mulher. Falando dessa forma, parece que a gente entrou em um restaurante e buscou em um cardápio aquilo que eu desejo consumir. E é justamente isso o que Stromquist aponta. Nos encontramos em um nível onde consumimos o amor e não mais o sentimos. Há aqui uma pequena ressalva de que, por vezes, ela generaliza demais em prol de uma reflexão filosófica. Mas, okay. É possível entender aonde ela quer chegar. O amor consumista não leva em consideração os elementos aleatórios que constituem a arte de encontrar a pessoa de sua vida. Alguns bons exemplos podemos ver em realities que nos mostram casais que se conheceram pela internet e decidiram se casar. Quase sempre não dá certo. Seja por que a relação se mostrou mais difícil em pessoa do que era nas redes sociais. Ou por que a pessoa mentiu sobre alguma característica física e/ou psicológica. Ou até problemas culturais que criam obstáculos intransponíveis para uma relação.


Ou seja, é como se o amor tivesse se racionalizado junto das transformações sociais do século XX. Existe uma lógica na escolha de uma parceira. Se antes o homem muitas vezes não escolhia sua parceira, hoje temos um dilema sobre como escolher. Só que aí vem o problema: como decidir algo que tem tantas variáveis como o amor? Não dizemos que ele é uma fagulha que surge em nosso coração? De que forma racionalizar isso? Na visão da autora, é como se buscássemos um método científico com teses e hipóteses. Estamos sempre tentando encontrar um método ideal para o melhor parceiro em nossas vidas. Isso viria de uma necessidade de buscar especialistas capazes de antever todas as possibilidades de escolhas. Mas, essa hipercientificação acaba tirando de nós parte do nosso sentimento. Porque o amor não é uma ciência exata; é uma palpitação que habita nosso coração e dispara quando nos deparamos com "aquela pessoa". Falta o envolvimento. E ao faltar o envolvimento, porque buscamos uma lógica nele, temos um processo de desencantamento do mundo. Isto é, a escolha intuitiva se torna borrada por outras reflexões que em nada contribuem com o resultado final.


Outro ponto destacado pela autora é a de como houve uma mudança na forma como os homens lidam com seus sentimentos. Se até o século XIX havia uma demonstração dos sentimentos como base, ou seja, era preciso ser assertivo e protetor, a tendência no mundo contemporâneo é a retenção dos sentimentos. Cortejar uma mulher na sociedade tradicional implicava uma prova de poder. Só que houve uma inversão desse papel já que hoje as mulheres tem uma postura mais ativa na definição de seu parceiro. Até mesmo na formação de uma família essa tendência foi alterada. Se antes havia uma pressão social para ter filhos, hoje esta não existe mais. Em muitos casos, é a mulher que tem a prerrogativa de definir se quer ter filhos. Mas, onde eu quero chegar? Simples, as mulheres, na visão de Stromquist querem estabilidade e confiança a partir de um parceiro cujo vínculo emocional é forte e exclusivo. O mesmo não pode ser dito dos homens já que muitas mulheres significa mais status.


Bem, acho que compartilhei com vocês alguns dos temas trabalhados pela autora nessa HQ. É um manancial de informações e reflexões e não toquei nem em metade do que é dito aqui. Ela faz ótimas metáforas e associações com elementos de cultura pop. Me incomoda um pouco as generalizações, mas ao que parece ela está divagando para tentar chegar a alguma conclusão ao final do processo. Gostei de como ela é bastante didática e fácil de ser entendida, embora ela fale de muitos assuntos. Mesmo assim, é uma leitura instrutiva e que vai te dar bons argumentos para repensar ideias.