• Paulo Vinicius

A princesa pirata e a busca pelo Eden

Fena é uma jovem de cabelos prateados que vive em um bordel após ter se envolvido em um naufrágio quando era criança. Quando ela atinge a maioridade, passa a se tornar alvo de inimigos terríveis, pois ela esconde um terrível segredo: em algum lugar de sua memória se esconde a localização da Terra dos Deuses.


A busca pelo Eden é uma jornada que vem sido tentado há muitas e muitas eras. Ela se confunde com a própria compreensão do homem no universo em que ele vive. É uma busca que já levou a guerras, a dissensões e a lendas que não tem pé nem cabeça. O que o anime tenta buscar é uma mistura da existência de uma possível Terra dos Deuses e a busca por Eldorado. Em um anime que surge com um produto original do serviço de streaming Crunchyroll, o que vemos é um anime belíssimo visualmente, mas cuja narrativa é bem complicada de se fornecer coerência. A experiência é positiva, mas definitivamente faltou juntar as duas metades da temporada.


Fena: Pirate Princess (ou Kaizoku Oujo) é um anime original produzido pela Production I.G. em parceria com a Crunchyroll e que foi exibido na temporada de verão do Japão de 2021 e teve doze episódios. Sua estreia se deu na metade da temporada de forma a não competir com outros animes que tinham maior expectativa. A Crunchyroll fez uma boa divulgação do anime, com diversos teasers e até liberando antes os dois primeiros episódios. O diretor da produção foi Fuji Saki que estreou na função enquanto que Kuroiki Rui já tinha um pouco mais de experiência tendo produzido Aoharaido, Kuroko no Basket e B: The Beginning. A Production I.G. é um estúdio bastante competente então já esperava um produto visualmente bonito e não me decepcionei nesse sentido. A gente pode reclamar dos rumos que a narrativa toma ao longo de sua curta temporada, mas visual e trilha sonora não são um deles. Aliás, Fena é uma das melhores animações nesse sentido dessa temporada em específico. Alguns cenários da animação são de tirar o fôlego e vale chamar a atenção para a pesquisa feita pelo estúdio ao trazer casas e construções que são europeias (um moinho holandês, uma ampla casa em estilo mourisco, os navios claramente ingleses). Palmas para a equipe de produção. Até acho que Fena não teve a atenção que merecia durante a temporada, e isso porque estamos falando de um período de quatro meses que foi bem ruim em boas animações.


A protagonista é uma menina chamada Fena Houtman, filha de um homem importante de sua época e que, quando estavam em viagem, sofreram um ataque que levou o navio a naufragar e Fena conseguiu sobreviver junto com outras poucas pessoas. Sem casa e órfã, Fena acaba sendo abrigada por um bordel onde passa a ser criada. Quando ela atinge a maioridade, Fena se vê obrigada a trabalhar como uma das meninas da casa e tem a sua primeira vez leiloada. Horrorizada com a situação, a jovem consegue fugir, mas descobre que está sendo perseguida por duas facções que aparentemente desejam descobrir se ela sabe a localização da Terra dos Deuses, Eden. Ela consegue ser salva pelos dois criados da sua família que são resgatados mais tarde pelos goblins, um estranho grupo de piratas que é uma das facções interessadas em seu segredo. Aonde isso irá levar nossa princesa de cabelos prateados? E onde ficará Eden?


A narrativa tem duas metades bem claras: a primeira onde Fena é resgatada e vai parar junto dos goblins e a segunda que é a busca por Eden. No primeiro trecho vemos a personagem precisando entender quem ela é e qual o seu lugar no mundo. Ela reencontra pessoas do seu passado e descobre mais sobre o que aconteceu com os seus pais. A partir daí vemos o início de uma jornada e ela precisa ganhar a confiança da tripulação, embora ela seja muito jovem e inocente. Na segunda metade ficamos sabendo da relação entre ela e a mãe dela, o que significa a busca por Eden e a jornada até o local. Nesse momento, Fena parece ter se tornado uma espécie de líder para a tripulação e todos eles a seguem sem pestanejar. Até o episódio 6, a série tem uma narrativa muito boa, diferente, divertida e que parecia se desenrolar aos poucos. Dali em diante, parece que o diretor pisou freneticamente no acelerador e alguns acontecimentos se desenrola com extrema conveniência e velocidade, sem explicar muito os motivos por que tais coisas aconteciam. É nesse ponto que a história perde o prumo. Os momentos finais são bem interessantes do ponto de vista criativo, mas Fena claramente é uma série que precisava de uma temporada completa.


A busca pelo Eden ou por uma terra dos deuses acontece desde a Antiguidade e o Medievo. Tal busca pode estar disfarçada na busca pelo Santo Graal, no encontro com o divino ou simplesmente na percepção do que é a vida e por que existimos. O roteirista mesclou essa ideia com a procura por Eldorado, um objetivo que levou espanhóis a adentrarem em uma Amazônia desconhecida durante o período Moderno de onde saíram relatos de uma cidade feita completamente de ouro, de uma fonte da juventude e de monstros destruidores. Esse foi um dos pontos que não compreendi por que optar por só um dos plots já teria dado pano para várias histórias. Misturar as duas coisas ficou estranho e sem nexo. Tem até menções à Joana D'Arc e uma possível associação à Fena. Tentando juntar as peças e com a explicação do último episódio até dá para entender o motivo dessa associação, mas ficou tão jogado e sem menção posterior que me incomodou. Possivelmente, o roteirista complexificou demais a história quando poderia ter adotado uma abordagem mais simples e objetiva e ter conseguido um resultado final melhor.


A protagonista é típica desse tipo de anime, funcionando como uma mola propulsora para os demais protagonistas. Ela funciona como uma agregadora, como alguém pelo qual os personagens lutam com dedicação. Quase como um tipo de Niké, a deusa da vitória, que é um tema típico em animações japonesas: a mocinha em perigo, mas que por suas virtudes, se torna a inspiração do grupo e os leva à vitória. Temos alguns desenvolvimentos interessantes nela, com um pouco de perda de inocência ao mesmo tempo em que ela se torna mais corajosa e decidida. Minha reclamação tem a ver com a forma brusca como a personagem muda de personalidade na série. Até porque o início dava um indicativo de que isso seria gradual e ela conquista a tripulação um a um. Mas, a partir da segunda metade, essas alterações se dão de uma hora para outra. Sua relação com o Yukimaru é bonitinha e funciona como a boa e velha tensão amorosa entre protagonista e seu crush. Isso mesmo tendo o estranho Abel no meio do caminho. Fiquei realmente preocupado entre uma relação da Fena e do Abel, que poderia soar como algo estranho.


Me incomodou o quanto os membros da tripulação não são bem desenvolvidos. Mesmo o Yukimaru tem apenas menções aqui e ali. O garotinho que sempre gostou da protagonista e se tornou amargo por que não conseguiu proteger todos. É um estereótipo comum de personagem. Ou o yojimbo, o guarda-costas. Em comparação, Abel tem muito mais substância do que ele. Cheguei até a comprar a amizade relutante com o Shitan, mas novamente, como se importar com um personagem se o pano de fundo dele é tão mal explorado. Tudo isso soma a uma forma apressada de desenvolver o enredo que poderia ter ganhado mais se o anime tivesse vinte e três episódios. A amizade e companheirismo dividido entre eles é enriquecedora, mas a inserção da Fena no meio soou forçada e estranha porque foi trabalhada poucas vezes. Era preciso algumas aventuras a mais para reforçar estes laços e até desenvolver mais do mundo em que eles vivem.


Gostei bastante da relação entre Helena e Abel, que acabou sendo desenvolvido em um episódio completo. Mas, muitas perguntas sobre Helena ficaram sem ser respondidas. Só usar a referência da mulher misteriosa não supre as lacunas do enredo. Toda a busca por Eden em si foi explicada tão pela metade que me incomodou. E isso porque eu gostei da animação, mas fiquei frustrado por tantos problemas e furos. Talvez minhas críticas sejam ainda mais sérias porque a gente esperava mais. Helena parecia ser uma personagem que poderia ser usada para trazer a mitologia da série para os fãs. Talvez em flashbacks espalhados pelos episódios, mostrando aos poucos a relação dela com Abel.


Como uma iniciativa do Crunchyroll Originals, Fena foi uma boa história, produzida por um estúdio reconhecidamente competente. Falando de visual e trilha sonora, a animação cumpre com folga a expectativa trabalhada nos teasers e comerciais. A narrativa parecia ser promissora, mas a opção por uma meia temporada acabou sendo errônea porque obrigou o roteirista a apressar demais o final. Aliás, ter só uma temporada é ótimo porque fornece a perspectiva de início, meio e fim, sem aqueles finais meia-sola de animes que se esticam demais. Recomendo o anime, ele é divertido e vai proporcionar boas horas de entretenimento.



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