• Paulo Vinicius

A Commedia dell'Arte

O gênero teatral surgida na Itália na metade da Idade Moderna influenciou a maneira como a sátira e a comédia são contadas até hoje. Conheçam um pouco mais sobre ela em nossa postagem de hoje.


Antes de mais nada é preciso dizer o por que de estarmos tratando sobre esse gênero teatral no Ficções Humanas. Acontece que vamos dedicar o ano de 2020 para falar sobre as peças teatrais e romances de Ariano Suassuna. Muitas delas possuem enredos que bebem da vertente fantástica, constituindo aquilo que chamamos de realismo mágico. Falar das peças de Suassuna é falar também da commedia dell'arte, um gênero teatral famoso do século XVIII e que se caracterizava pela exploração do mundano e do cotidiano com vários toques de humor, ironia e sarcasmo. Talvez O Auto da Compadecida seja a peça de Suassuna que mais se assemelha às peças da commedia.


A commedia dell'arte tem suas origens na metade do século XV, na Itália. Ela vai se tornar popular na região até meados do século XVIII quando seu estilo cai em decadência e é substituído por outro gênero mais melancólico e atendendo aos anseios da época. Num período em que a commedia dell'arte vai disputar espaço com as famosas peças de Shakespeare, o seu ponto de destaque é sua vertente picaresca e suas apresentações sempre realizadas em ruas e praças públicas. Ou seja, falamos então de uma trupe itinerante que vai de cidade em cidade realizando suas apresentações. Por adotarem esse estilo, normalmente seus palcos eram improvisados. Mais uma vez eu me recordo de O Auto da Compadecida em que seus cenários podem ser montados em qualquer lugar. Bastando ter uma saída para a Igreja e outro para a cidade.


Os roteiros eram bem simples, podendo sofrer improvisos de acordo com o público presente no espetáculo. Um dos pontos principais era a interação com o público, tornando a apresentação mais expansiva. Os personagens principais são o arlequim e a colombina, o doutor e o palhaço, mas havia vários papeis para as diferentes peças. Segue uma imagem dos personagens que se repetiam nas apresentações:



ARLEQUIM: Um servo astuto e ignorante, sempre envolvido em confusões (e envolvendo os outros também em suas confusões).

PANTALEÃO: comerciante idoso, avarento e que se apaixonava facilmente.

CAPITÃO: militar que gostava de festa, fanfarrão, inseguro e covarde.

BRIGHELLA: servo fiel, egoísta e cínico. Um homem a mando do pantaleão.

POLICHINELO ou PIERROT: um criado simples e gracioso.

PULCINELLA ou PUNCH: o corcunda.

DOTTORE: velho rico e charlatão, que possuía uma postura de intelectual.

COLOMBINA: mulher esperta, acrobática e inteligente, tirava proveito de todas as situações. Geralmente era a namorada do arlequim.

PALHAÇO: geralmente era o narrador da história ou passava no início dos atos puxando a trupe.

ORAZIO: namorado ingênuo, fútil e vaidoso, movido pela paixão. Podia ter também outro enamorado chamado Leandro.

ISABELLA: a namorada ingênua, mas com alto poder de sedução. Se apaixonava com facilidade e podia vir junto com outras enamoradas Rosalba, Lavínia e Flavínia.


As apresentações da commedia envolviam malabarismos, acrobacias e as apresentações teatrais. Se pararmos para pensar podemos associar em parte com o circo até pouco tempo atrás. Esses personagens pré-estabelecidos se mantinham nas diversas apresentações. Havia um número de enredos que eram trabalhados pela trupe. Esses enredos costumavam envolver adultério, ciúme, inveja, velhice e o amor. Claro que, por se tratar de uma apresentação feita no improviso, os textos se aproveitavam de temas ou problemas locais para permitir ao público se identificar com o que estava acontecer. Isso porque os temas gerais são atemporais, mudando apenas os personagens (suas motivações ou quem são) e onde a ação se passava.


Os diálogos podiam ser usados para brincar com problemas locais, mas também podiam envolver piadas mais simplórias ou bordões que guiavam toda a apresentação (repetição de frases, trocadilhos, inversão de provérbios). Todos os atores usavam máscaras, seguindo o modelo do teatro clássico ateniense. Ou seja, se inseria na tradição das comédias antigas do final do período clássico, quando os escritores faziam críticas a militares, a nobres. Essa tradição foi mantida com severas críticas feitas também a membros do clero e à avareza de banqueiros.


Como a gente pode ver nas imagens, os personagens usavam e abusavam de um figurino colorido, para se destacarem no público. Algo que chega até os dias de hoje nas apresentações carnavalescas. A ideia das plumas e paetês se insere nessa prática de chamar a atenção para aquilo que estava acontecendo no palco. Dessa maneira, o espectador sabia qual era função de qual personagem já que sua figura chamativa ficava guardada na memória. Porém, ao mesmo tempo em que isso era uma vantagem, também se tornou uma desvantagem: a partir do momento em que um ator se tornava especialista em determinado personagem, fazia com que sua liberdade criativa fosse limitada. Isso fazia com que as apresentações fossem bastante herméticas variando apenas de acordo com o lugar onde esta era realizada.


Seu declínio vem com um pouco de falta de criatividade nas apresentações. Estas se tornam mais licenciosas e vulgares, afastando os espectadores. Para tentar resolver esse problema, algumas companhias decidiram voltar às origens, resgatando temas mais tradicionais. Mas, como a commedia dell'arte se baseava justamente no improviso, quando esta era guiada com um texto mais preso, ela perdia boa parte de sua essência.


O italiano Carlos Goldoni tentou restaurar a grandeza da commedia dell'arte a partir do século XVIII. Ele procurou investir na identificação dos personagens com o público. Para isso, ele passou a inserir elementos da vida real, além de scripts prontos para os personagens, eliminando em parte o aspecto do improviso. Isso acabou formando grandes companhias teatrais que viajavam por toda a Europa em suas apresentações. Mas, aqui ele já estava longe da essência original do gênero e, para muitos, Goldoni se insere em um outro gênero teatral de sua própria criação. O que nos chegou até hoje são os próprios personagens que ficaram marcados ao longo do tempo e essa maneira mais despojada de fazer teatro. Algumas de suas características sofreram evoluções drásticas e chegam até nós hoje de maneiras bem inesperadas como programas teatrais feitos em estúdio como o Vai que Cola, o Sai de Baixo e Os Róni. Lógico que as máscaras não funcionam nos dias de hoje, mas a temática, o improviso e os personagens caricatos estão ali presentes. Ou no carnaval onde podemos ver as fantasias abraçando temas os popularescos possíveis.


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