• Paulo Vinicius

Wonder Egg Priority e o problema do suicídio no Japão

Um dos animes que foram sensação na temporada de janeiro de 2021 apresentou temas bem difíceis de serem discutidos além de uma animação acima da média. Saibam mais sobre Wonder Egg Priority.

Atenção: alerta de gatilho para temas sensíveis como suicídio e abuso sexual.



Essa é uma daquelas matérias que eu fiquei um bom tempo pensando se deveria ou não escrever a respeito. Não me entendam mal: adorei Wonder Egg Priority, mesmo ele tendo se tornado um daqueles animes esquisitos que muita gente fala bem, mas poucos assistem de verdade. O problema real é que WEP trata de temas complicados, sem vergonha e sem medo de ser feliz. Sua abordagem via simbolismos e metáforas tornam o anime incrível, permitindo com que aqueles que conseguem enxergar além da superfície, encontrem camadas e mais camadas de significados. A história de Ooto Ai é repleta de críticas à sociedade japonesa, uma sociedade que mesmo caminhando para o século XXI e seus modernismos ainda mantém vícios de uma cultura rígida e nem sempre aberta. Apesar dessa carinha doce e gentil de meninas lutando contra monstros bizarros, é um anime que fala de suicídio, aceitação, bullying, meninas buscando sua sexualidade e pais ausentes. E tudo isso é colocado no roteiro de uma maneira elegante e com uma equipe técnica extremamente talentosa.


Por incrível que pareça, Wonder Egg Priority é um roteiro original feito para animação. Sim, não é baseado em mangá algum. Então não adianta procurar o mangá na internet porque não tem. É uma série do estúdio Cloverworks, que é um dos meus favoritos dos últimos anos, mas precisamos ser honestos e dizer que 2021 não tem sido um bom ano para o estúdio. Parece que trapalhadas se tornaram comuns para eles, e WEP não foi uma exceção. Apesar da linda animação e da fantástica execução, o projeto do anime foi produzido em cima da hora, o que provocou atrasos e problemas de cronograma. O resultado é que o anime foi prejudicado por isso e não teve final durante sua transmissão normal. O último episódio antes do hiato foi entregue às vésperas da transmissão, o que fez com que o Cloverworks fosse obrigado a passar um especial para a TV em junho de 2021 de forma a encerrar a história. Ou seja, WEP tem 12 episódios + 1 especial tendo uma equipe boa que dirigiu os esforços. O roteiro original é de Shinji Nojima, um roteirista acostumado com doramas e a ser bem polêmico nos temas tratados. Não se incomoda em ser bastante crítico aos problemas sociais do Japão tendo feito bastante sucesso entre os fãs de doramas. Shin Wakabayashi trabalha na direção e para quem curte animes há mais tempo vai reconhecer trabalhos como K-On e Koe no Katachi.


A série é sobre uma garota chamada Ooto Ai que se vê em um momento bem complicado de sua vida. Sua personalidade introspectiva, além de possuir olhos de cores diferentes um do outro a tornaram uma garota com poucos amigos. Mas, ela consegue fazer amizade com uma garota Koito. A amizade das duas se transforma em um belo sentimento de apoio uma para a outra. Até o dia em que Ai vê sua amiga em um estranho momento com o seu professor de artes e alguns dias depois, Koito pula do alto da escola e se suicida. Isso causa um trauma em Ai que decide parar de ir a escola. Ela se esconde em seu quarto tentando viver uma vida normal. Um dia, Ai estava andando pela rua até que é atraída para um escorregador que a leva a um estranho lugar. Lá ela conhece dois estranhos seres chamados Acca e Ura-Acca. Eles dizem a ela que Ai entrou em um mundo paralelo ao mundo terrestre; mundo este que leva a outros que são criados de acordo com a vontade daquele que se encontra lá. Acca e Ura-Acca oferecem a oportunidade de trazer de volta Koito. Mas, para isso, Ai terá que ajudar outras pessoas que também se suicidaram a lidar com criaturas malévolas e um ser chamado Wonder Killer. Apenas derrotando o Wonder Killer é que essas pessoas (chamadas Wonders) podem descansar em paz.



Como eu disse, é um anime bem complexo e repleto de simbolismos. Ao longo de sua trajetória, Ai conhece mais três meninas que vão se tornar suas amigas: Neiru, a chefe de um importante conglomerado de pesquisas (embora seja apenas uma garota); Rika, uma idol que caiu em desgraça; e Momoe, uma menina que possui uma aparência semelhante a de um menino o que provoca constantes confusões em sua vida. Essas quatro garotas vão formar um intenso laço de amizade que ajudarão a todas a superar suas dificuldades. Os Wonder Killers representam pessoas abusivas dentro da sociedade japonesa. O espectador pode imaginar que isso é um estereótipo criado pelo diretor, mas não entendi dessa forma. Eles não representam o todo, mas sim uma possibilidade de abuso que pode levar uma pessoa a ter dificuldades na vida. E temos vários exemplos: o professor assediador, a fã stalker, a pessoa de confiança pedófila, o homem violento. Todos estão ali representando um aspecto do todo a ser enfrentado pelas meninas. Ao mesmo tempo em que elas ajudam as wonders a superarem seus traumas, amadurecem seus corações para enfrentar suas próprias dúvidas.


Ou seja, é uma história que parece bonitinha, mas é carregada de simbolismos. Nenhuma das personagens é isenta de ter algum defeito ou problema que elas carreguem. Ai, a protagonista, é um bom exemplo disso. Ao longo da série descobrimos que a personagem tem uma outra questão a ser resolvida junto com a Koito. Sem entregar a história, Ai não aceita seus sentimentos porque estes a envergonham. Admitir a si mesma o que aconteceu e que pode ou não ter contribuído para o suicídio de sua amiga é admitir algo terrível. A cena em que ela chega a essa conclusão na segunda metade da série é belíssima, mostrando Ai correndo na chuva em direção à sua escola. A tempestade é a representação do estado de seu coração e quando ela chega em seu objetivo, a chuva passa e um arco-íris ilumina o horizonte com nuvens nubladas ao fundo. Não significa que ela vai ser feliz agora, apenas que ela aceitou uma situação, sabendo que as dificuldades começavam a partir justamente disso. O professor de artes com quem ela flagrou Koito dias antes de sua morte agora se tornou um namorado de sua mãe. Algo que vai provocar o caos em sua vida porque como ela deve reagir a isso?


Neiru é uma garota obcecada em obter wonder eggs e resolver o máximo de problemas possível. Por conta de ter sido criada em uma espécie de redoma dentro da empresa que ela agora é presidente, Neiru não tem muito tato com outras pessoas. O espectador demora a saber mais detalhes sobre sua vida e o porquê de ela estar envolvida com Acca e Ura-Acca. Digamos que a pessoa a quem ela quer que retorne é alguém que morreu por sua negligência. Ou pelo menos Neiru pensa assim. Ela se culpa por não ter sido forte o suficiente para poupar a pessoa a quem ela gosta de sofrer em seu lugar. Isso faz com que a personagem exagere na maneira como ela aborda as missões. Chega a ser até um estilo meio kamikaze o que a coloca em situações perigosas de forma desnecessária. Na narrativa de Neiru, somos colocados diante de pessoas obcecadas, que não medem as consequências para seus próprios corpos de situações perigosas. Ai coloca em uma determinada cena que Neiru precisa amar a si mesma. E que ela é importante para aquelas que a cercam. No caso dela, era só o fato de que ela não tinha pessoas a quem ela pudesse entregar seu coração.



Já Rika é a verdadeira bagunça emocional do grupo. Uma ex-idol que interrompeu sua carreira após um trágico acontecimento. Dona de uma personalidade intempestiva ao mesmo tempo em que é meiga, Rika se comportava como uma idol. Até que uma de suas fãs, uma menina gordinha que se considerava sua fã número 1, começa a preocupar Rika. Vinda de uma família pobre, a fã consumia todo o seu dinheiro nos shows e encontros com a pessoa a quem gostava. Mas, a personalidade de Rika, superficial e chamando aquelas que eram suas fãs de carteiras, acabou provocando a morte de Chiemi, a sua adorada fã. Chiemi havia cometido diversos pequenos roubos e tentado vender o fruto deles para conseguir dinheiro para ver Rika. Mas, a menina acaba emagrecendo demais e morrido. As circunstâncias de sua morte não são exatamente reveladas, mas isso provoca uma profunda dor em Rika. A personagem vive também um dilema familiar já que ela não sabe quem é seu pai. Sua mãe se envolveu com vários namorados e não sabe (ou não quer) dizer quem é para sua filha. Isso provoca uma profunda revolta na personagem, talvez um dos grandes motivadores para a sua personalidade. Com a ajuda de Ai e das outras meninas, Rika consegue encontrar um norte para os seus sentimentos. Mas, claro, existem ainda outros problemas na vida da personagem e vamos descobrir logo que sua dor é bem maior do que parece.


Por último e não menos importante temos Momoe. Sua aparência masculina, alta, retilínea provoca várias confusões. Frequentemente ela é confundida com um menino. Na sua escola, diversas meninas já se declararam para ela, mesmo ela não gostando disso. Momoe é doce e gentil, e isso acaba fazendo com que ela absorva a dor que é causada em outras pessoas para si. O caso de Momoe é o de julgar as pessoas pela sua aparência externa. Apesar de ela estar buscando os ovos para resgatar uma menina que quis se envolver romanticamente com ela, Momoe não é lésbica. Ela não deixa transparecer isso; o fato de termos algumas situações que parecem implicar isso se devem mais à personalidade gentil dela. Posso estar enganado (e me corrijam, por favor, se for o caso), mas não percebi isso nela. Muito pelo contrário, ela se incomoda quando uma menina se declara para ela ou quando outra pessoa a confunde com um homem. A aparência dela é aquela, a forma de se vestir que ela gosta é aquela e ponto. Essas duas características não a transformam automaticamente em uma menina que gosta de outras meninas. Só a distingue de outras pessoas. A batalha de Momoe é para perdoar a si mesma já que ela não foi culpada pelo suicídio de sua amiga. Infelizmente foi uma tragédia que a marcou. Mas, ela precisa seguir em frente.


Como pudemos ver, Wonder Egg Priority é um anime bastante complexo com temas que são relevantes para a nossa sociedade contemporânea. Apesar de o roteirista ser alguém que gosta de cutucar nas feridas, acredito que esse anime jamais teria passado na televisão se já não houvesse uma mentalidade transicional em busca de refletir sobre os problemas que assolam jovens e adolescentes. São questões que precisam ser discutidas para chegarmos a algum avanço como seres humanos. WEP foi um dos meus animes favoritos da temporada de inverno de 2021 e é uma daquelas séries esquisitonas que ou você ama ou você odeia. Pela internet afora as opiniões sobre ele são sempre bastante extremas. Mas, fica aqui aquela puxada de orelha no estúdio Cloverworks pela falha com o cronograma da série. Me incomodou demais ver a série sem final e com um estranho "especial" sendo passado alguns meses mais tarde.




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