• Paulo Vinicius

Vivy e a canção que traz a felicidade para as pessoas

Vivy Fluorite Eye's Song é um anime com roteiro original do estúdio WIT se tornou uma das sensações da temporada. Contando a história de uma Inteligência Artificial autônoma que tem o objetivo de encontrar uma canção que vem do coração. Mas, ela precisa ajudar a deter uma rebelião de IAs que se aproxima.



Pode uma Inteligência Artificial (IA) ser capaz de cantar uma música vinda do seu coração para levar a felicidade aos seres humanos? Essa é a essência dessa série incrível que estreou em abril de 2021 e foi capaz de impressionar os espectadores ao longo de seus treze episódios. Uma narrativa que vai trazer de volta uma velha discussão sobre o papel dos robôs e das inteligências autônomas em um futuro próximo. Já aceitamos a possibilidade da existência de máquinas, mas o próximo passo é entender até onde elas podem ir. Além disso, a narrativa brinca com a possibilidade de futuros alternativos e o impacto da viagem no tempo na história. Para os fãs de boas histórias de ficção científica, é um prato cheio. Não pensem que se trata de um anime fofinho e engraçadinho; muito pelo contrário. Alguns episódios são bem pesados e alternam momentos de ação e perseguição e outros com situações conspiratórias. Os últimos episódios também são de arrepiar.


Como disse acima, Vivy Fluorite's Eye Song é um anime original do studio WIT e estreou no início de abril. Por enquanto o anime conta com apenas uma temporada com 13 episódios que se fecham muito bem. Ou seja, a narrativa tem início, meio e fim. O diretor da série é Shinpei Ezaki (Ao no Exorcist e Banana Fish) que tem bastante experiência. Mas, o roteiro da série é de Tappei Nagatsuki (Re:Zero) e Eiji Umehara (Appleseed e Re:Zero), ambos com boa experiência nesse tipo de série. Uma novelização começou a ser publicada um mês depois tanto em mangá quanto em light novel. No momento o mangá ainda não tem um volume fechado; o mesmo caso da light novel. A animação está de alto nível, comparável aos melhores trabalhos da Kyoto Animation como Violet Evergarden. Uma animação fluida, dinâmica e explorando um cenário bastante complexo de replicar. Existe um alto grau de detalhamento nas máquinas e construções. Direção de arte e roteiro se superam em lindas imagens como o do interior da mente de Vivy que é uma sala de música ou a da ilha Metal Float. Um banho de visual que deixou muita animação no chinelo. Como estatística, o anime se tornou o sexto melhor anime com roteiro original no My Anime List logo na segunda semana de exibição.


No futuro, as máquinas vão alcançar o estágio de IAs. A história começa em 2056 e estamos em um lugar chamado Nialand. Uma espécie de parque de diversões completamente automatizado onde toda a família pode ir se divertir. Os robôs de Nialand cumprem diversas funções para divertir o público como vender doces e salgados, apresentações; tudo seguindo uma programação estrita que os tornam especializados em pequenas coisas. Diva é a primeira andróide com aspecto humano que tem total autonomia. Ela é programada como uma IA cantora e se apresenta em um pequeno palco em Nialand. Ela se incomoda com o fato de poucas pessoas irem assistir as suas apresentações e tem o desejo de cantar em um palco maior. Mas... espera: se incomoda? Deseja? Sim, Diva tem algumas sensações e a cada momento que ela passa se relacionando com outros humanos, ela ganha mais auto consciência. Seus dias de tédio acabam quando um urso de pelúcia começa a conversar com ela. Esse urso na verdade é uma IA extremamente avançada chamada Matsumoto que veio de 100 anos no futuro quando as IAs atacaram a humanidade, se rebelando contra elas e causando um assassinato em massa de todos os que eles viam pela frente. O criador de Matsumoto o incumbe de voltar ao passado e encontrar a única IA que não foi afetada pelo que quer que tenha feito as outras se rebelarem: Diva, a cantora. Matsumoto convence Diva (ou Vivy, como ela gosta de ser chamada) a ajudá-lo no Projeto Singularidade. Ele destacou vários acontecimentos que em um período de cem anos ajudaram a criar as condições para a rebelião das IAs. Nesse período eles precisam impedir esses acontecimentos.



A narrativa do anime se passa dentro de um espaço de cem anos, com os arcos de histórias não acontecendo imediatamente. Por exemplo, o primeiro arco que é Vivy e Matsumoto tentando impedir a morte de um senador por um grupo extremista que queria impedir a votação de uma lei dos direitos das IAs se passa em dois episódios. O terceiro acontece alguns anos depois do final desse arco. Então a gente não apenas acompanha as aventuras dos dois personagens, como também a própria evolução da humanidade e das IAs em paralelo. Até mesmo as escolhas feitas pelos seres humanos, seja regredindo as IAs, seja criando novas condições. O enredo é inteligente ao nos mostrar que manipular os acontecimentos não é tão simples como parece. A propósito, Matsumoto nunca retorna ao seu período. A viagem no tempo é de mão única e ele permanece no passado. Quando uma missão específica termina, ele simplesmente se desliga e aguarda o próximo acontecimento a ser impedido. Mas, cada vez que eles mexem com as coisas, se torna mais e mais difícil alterar determinados paradigmas. O tempo parece se solidificar mais e criar situações completamente inesperadas para eles. Quando eles chegam mais para o final do anime, Matsumoto já não sabe mais o que fazer porque as condições mudaram completamente.


Vivy é uma personagem extremamente complexa. No começo ela realmente se parece com uma máquina. Mas, ela tem alguns tiques de que está desenvolvendo sentimentos e sensações. Ela só não consegue explicar o que é. Sua programação segue em parte as leis de Asimov e, no segundo episódio, quando Matsumoto faz algo inacreditável, Vivy se rebela contra seu parceiro. A protagonista se sente na obrigação de proteger os seres humanos. Algumas de suas ações a colocam em perigo extremo e Matsumoto acaba se vendo obrigado a se dobrar a ela para que ela não seja destruída. Vivy deseja resolver tudo de forma pacífica, mas os acontecimentos vão obrigando-a a adotar uma postura mais agressiva. Tanto que ela só vai desenvolver uma programação de luta mais para frente do anime. Ela entende que o seu papel é o de impedir os acontecimentos e, para isso, ela não é obrigada a machucar ninguém, seja homem ou IA. Mas, assim como as missões vão ficando mais complicadas para serem resolvidas, as decisões tomadas também. Vivy se vê obrigada a escolher entre o sucesso da missão ou uma ação horrível. Por exemplo, na missão que acontece no hotel espacial Sunrise, ela precisa se decidir entre matar uma IA que é uma espécie de irmã para ela (um modelo posterior) ou salvar as pessoas. Só que ela sabe que essa IA não é responsável diretamente pelo fato, tendo sido envolvida por outras forças. Ou mais tarde quando ela precisa deter uma IA que tomou o controle de uma ilha e começou a produzir robôs bélicos.


Podemos dizer que Vivy vai colher os frutos de seu contato com outros seres humanos. Ao estar tanto com eles, ela vai se transformar em uma andróide com sentimentos. E a missão que ela e Matsumoto precisam cumprir exige objetividade e as soluções nem sempre são as melhores. Vai ter um momento em que a protagonista vai vivenciar uma situação tão terrível que ela vai se fechar. Ou seja, a série trabalha bastante com essa noção de inteligências adotando posturas humanas. Inclusive tem um arco sobre um casal humano e IA. Um homem se apaixona perdidamente por uma IA que foi muito importante em sua vida. Eles desenvolvem um sentimento de afeto um pelo outro. A discussão ética é se esse tipo de amor é possível, ou é apenas um apego a uma máquina por conta de um momento de vulnerabilidade? O psicológico e o emocional são colocados em xeque, e Vivy fica em dúvida se Grace, a IA, realmente tem sentimentos pelo seu par. São sentimentos ou programação? A linha entre esses dois conceitos fica embaçada e o espectador se confunde tentando buscar uma resposta. São histórias que vão brincar com essa separação entre funcionalidade e sensação onde Vivy talvez seja a personagem mais humana de todas.



A trilha sonora é um espetáculo à parte. Sim, tem toda aquela vibe meio Macross com uma personagem que é cantora e um cenário de ficção científica no fundo. As músicas cantadas tem letras muito bonitas que traçam esse meio termo entre a máquina e o ser humano e a busca por compreender o que são as sensações humanas. Mas, o soundtrack em si também é muito bom. As músicas se combinam com os momentos certos para causar o melhor impacto possível no espectador. Tem um determinado arco do anime todo centrado em Vivy tentando pensar na possibilidade de ela mesma ser capaz de compor uma música. Algo que nenhuma IA jamais tinha feito. Todas as músicas interpretadas por IAs são músicas conhecidas que ganham com a entonação da personagem e a produção visual envolvida. Ou seja, tudo depende mais da técnica de canto da IA. Só que Vivy quer ir além. No seu desejo de levar a felicidade às pessoas através de sua música, ela quer compor uma que represente os anseios do seu coração. Acho a premissa da série tocante e em vários episódios a gente vai se emocionar junto com ela.


Na minha modesta opinião, Vivy Fluorite's Eye Song é candidato fortíssimo a melhor anime do ano. Não estou contando aqui longa metragens (antes que o pessoal que é fã de Kimetsu no Yaiba se revolte... fora que o filme é de 2020) e sim séries. Já vi duas temporadas completas e a terceira em julho que até o momento não teve grandes destaques e sei que vocês vão se encantar se derem uma oportunidade a ela. Por ser curtinha, pode ser um incentivo. Estou aqui batendo palmas lentas para o estúdio WIT que conseguiu mais uma vez mostrar porque é um dos melhores estúdios de animação do Japão.



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