• Paulo Vinicius

Space Jam 2: Entre mudanças e polêmicas

Uma das animações mais divertidas dos anos 90 foi Space Jam. O encontro entre um time de basquete liderado por Pernalonga e o astro da NBA, Michael Jordan. O reboot do filme foi lançado em 2021 e veio cercado de polêmicas. Vamos falar sobre algumas e discutir o assunto.



Uma das animações mais divertidas da década de 1990 foi Space Jam. Quantas vezes já não passou em sessões de filmes em tudo quanto é canal aberto? A história é simples e divertida: um time de basquete formado pelos personagens da Looney Tunes precisa enfrentar um time formado por alienígenas ultramusculosos que querem destruir tudo o que há de divertido na Terra. Depois de levarem uma surra dos aliens, Pernalonga pede ajuda ao astro do Chicago Bulls na época, Michael Jordan. O jogador treina os personagens para se tornarem um supertime e derrotar os malfeitores. Space Jam - O Jogo do Século fez um baita sucesso em 1996 quando foi lançado e teve uma bilheteria de U$230.000.000,00, superando em quase três vezes seu orçamento. Era uma época em que o nome de Michael Jordan era forte e representava tudo o que havia de pop na cultura esportiva americana da época. Agora em 2021, a Warner quer explorar novamente esse filão, se aproveitando também da imagem de outro jogador importante da NBA, LeBron James. Space Jam 2 - O Novo Legado foi lançado recentemente, mas vem cercado de polêmicas relacionadas à maneira como os personagens são representados na telinha. E isso bate bastante com a chamada cultura do cancelamento. Só que vamos ver ao longo dessa matéria o quanto o tema é espinhoso e repleto de complexidades que não parecem estar ali à primeira vista. E as respostas nem sempre são simples e é preciso analisar caso a caso.


Vamos começar por uma situação mais "simples" de ser debatida. Um dos personagens que não estão presentes no elenco do novo time é o gambázinho Pepe LePew. Ele foi discretamente removido do elenco, sem muitas explicações pelos roteiristas. O que podemos pensar a esse respeito é que o personagem representa uma postura complicada de ser representada e repetida, principalmente no que diz respeito a um público infanto-juvenil. O famoso gambá francês tem uma piada recorrente que o mostra sendo um conquistador irresistível que agarra suas pretendentes a qualquer custo para lhe tascar umas bitocas. A situações representadas são sempre bizarras com o Pepe perseguindo sua amada por todo o cenário, chegando a encurralá-la em alguns cantos para forçar um beijo, algo que a personagem não deseja. Estamos diante de uma apologia a um comportamento de assédio. Algumas cenas chegam a mostrar o gambá trancando portas para obrigar a mocinha a não sair de perto dele. O que parece ser uma brincadeira, não é um comportamento aceito atualmente. Aliás, em momento algum. Achávamos engraçado porque foi veiculado dessa forma; mas, se pararmos para pensar um pouco, é sim um comportamento agressivo e moralmente degradante.


Muitos colocam que isso era aceito em décadas anteriores. O fato de ser aceito não significa que é correto. Se eu pensar nessa linha, na pré-história dizia-se que homens arrastavam mulheres pelos cabelos para dentro de suas cavernas para gerar descendentes. Era aceito? Sim. Correto? Nem pensar. Nossa sociedade evoluiu de tempos para cá onde passamos a discutir o que é moralmente correto e o que é socialmente aceito. Não quer dizer que o autor do personagem precise ser linchado em praça pública. Significa apenas que é preciso dar uma outra roupagem ao personagem que ele criou. Oras, o gambázinho pode ser um conquistador tipo don Juan que luta para ser aceito pelas suas parceiras. Um bichinho com ideias românticas fora de moda, mas que está atrás de seus objetivos à sua maneira. Pronto. A piada do galanteador continua sem que isso fira a integridade de alguma mulher. O que não é possível é passarmos para crianças que é correto assediar moralmente ou sexualmente a sua coleguinha. Vou frisar ao longo de toda essa matéria: isso é um desenho... é feito para um público infantil.



Na mesma linha, precisamos falar de Lola Bunny. Uma personagem que foi introduzida no primeiro filme para ser o interesse romântico do Pernalonga. Mas, mesmo sendo um desenho infantil, a personagem é hiperssexualizada. Me lembrou bastante a protagonista de Cool World, Holli Would (baseada no visual da época da Kim Bassinger, um ícone sexual do início dos anos 90). Para um filme voltado para um público infantil, parecia estranho, mas a Warner sempre usou desse tipo de piada, criando personagens voluptuosas e fazendo piada em cima disso. Só que para o filme de 2021, os produtores decidiram diminuir o nível de sexualidade da personagem o que irritou os fãs. Foram realizadas inúmeras petições online para que isso fosse revisto, gerando toda uma escalada de discussões a respeito de quem ou o que deveria ser cancelado ou repaginado. Até o momento a produção manteve o que foi acordado, até porque se eles mudassem agora, poderia gerar uma reação oposta sem precedentes e criar fissuras na forma como a franquia é enxergada pelos pais.


Antes de prosseguir na discussão, só deixo aqui a diferença básica:



Como podem ver, a personagem de 1996 é aquela típica femme fatale e foi dublada por Kath Soucie na época. A ideia por trás da personagem é que ela representasse uma personagem radical e destemida, e no final ela se torna a namorada do Pernalonga. Em vários momentos da trama, a personagem faz poses sensuais que despertam o interesse do protagonista, que faz aqueles olhos esbugalhados tão típicos dele. Mas, se a ideia é que ela seja o interesse amoroso do Pernalonga, por que se focar nos aspectos sexuais? Ou alguém aqui imagina em algum momento que no meio do filme, vai haver um momento de sexo selvagem entre os personagens? Okay, prefiro nem ouvir a resposta para não me decepcionar. Em várias entrevistas, os produtores afirmaram que a Lola do filme de 2021 vai continuar a ser o interesse amoroso do nosso coelho maluquinho, mas que eles decidiram se focar em outras qualidades da personagem como a inteligência, a coragem e a determinação para alcançar seus objetivos. Dependendo de como isso for levado para as telinhas, pode ser um belo arco narrativo apresentado em segundo plano. O foco do tamanho dos seios e dos quadris e passa a ir para uma personagem mais interessante e que pode servir de modelo para meninas mais jovens.


Então a solução é apagar tudo o que está errado, certo? Tirar todos os personagens que remetam a violência, assédio e preconceito, certo? Pois é... não. Porque na mesma toada que houve a discussão sobre o Pepe LePew, outro personagem começou a ser ameaçado nas redes sociais: o Speedy Gonzalez, ou Ligeirinho (como é conhecido no Brasil). O famoso ratinho mexicano que se envolve em todo o tipo de enrascada, mas consegue com inteligência e malandragem roubar comida e se divertir. Surgiu o debate quanto ao personagem representar uma forma de preconceito étnico contra os mexicanos ou outros povos da América Latina. Ao colocar o personagem como malandro, ladrão ou folgado isso seria uma forma indireta de estabelecer um estereótipo para esse povo. Não houve nenhuma manifestação da produção do filme e o personagem continua a aparecer em todos os cartazes de divulgação de Space Jam 2.


Só que no caso do Speedy Gonzalez houve uma reação bem diferente por parte dos fãs mexicanos da Warner. Eles tomaram as redes sociais defendendo o personagem, dizendo que o ratinho se tornou uma espécie de ícone nacional. E eles não se sentem ofendidos em como ele é retratado nos desenhos da turminha do Pernalonga. Isso tomou uma proporção maior do que se esperava em um primeiro momento. Até o dublador do ratinho no filme, Gabriel Iglesias, fez um pedido no twitter para que o personagem não fosse retirado. A questão é que o personagem realmente é uma piada recorrente sobre latinos. A maneira como ele é representado de fato é uma forma de preconceito. Mas, ele acabou sendo ressignificado pelos povos mexicanos que tomaram para si a leitura original e transformaram em outra diferente. Não é que eles aceitam o rótulo colocado em cima deles, mas que eles entende o personagem como uma espécie de desafio à cultura americana. Se os americanos querem nos dominar com sua cultura, vamos usar de nossa inteligência para transformá-la a nosso favor. Claro que tudo isso é uma conjectura. E a figura do Speedy Gonzalez pode ser apenas uma maneira que os povos latinos tiveram de se adaptar à cultura do conquistador. E nesse adaptar, o rótulo foi internalizado.



Fato é que não é possível compreender a cultura do cancelamento a partir de um espectro amplo. Isso é um erro recorrente. Isso porque determinados aspectos precisam ser analisados caso a caso. Por isso que uma cultura democrática mais madura se torna necessária, caso contrário vamos nos perder na politização das coisas. Ou é vermelho ou é oliva. Ou é coxinha ou é petralha. Isso é simplificar, é reduzir. A sociedade precisa entender que para alcançarmos um outro estágio de desenvolvimento precisamos dialogar, chegar a um senso comum acerca de temas que nem sempre são legais. Detesto fazer essa associação, mas a sociedade é uma grande engrenagem. Todos precisamos colaborar para o bem-estar como um todo. Apesar de eu discordar em diversos pontos da teoria de Émile Durkheim, um sociólogo que entendia o funcionamento das coisas como uma imensa aparelhagem, nesse ponto ele faz total sentido. Precisamos aprender a viver no coletivo, embora o capitalismo reforce um comportamento individualista do homem. Ora, vivemos em uma pandemia em que nosso comportamento, nossa forma de compreender o covid-19 determina um perigo potencial àqueles que nos cercam.



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