• Paulo Vinicius

Resenha: "Zé do Caixão - Maldito: A Biografia" de André Barcinski e Ivan Finotti

A biografia de um ícone do terror e do thrash nacional: José Mojica Marins, o Zé do Caixão.




Esta é uma resenha especial e diferente por uma série de razões. A primeira delas é que este é o primeiro livro recebido pelo blog como fruto de uma de suas parcerias: a DarkSide Books. Quero agradecer publicamente como um dos administradores do blog à editora que apostou no nosso humilde, porém criativo trabalho. Mas, isso não significa que eu vou pegar leve nas resenhas!! Porém, é dark love eterno.

O segundo motivo é que eu recebi a biografia de um dos meus ídolos de infância. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, fez parte das minhas tardes e noites de adolescente rebelde quando via seus filmes escondido de minha mãe de madrugada. Ele tinha um programa no canal CNT que passava à meia-noite de sexta-feira. Foi aí que eu fiquei fascinado pelo personagem. Então certamente um pouco dessa minha nostalgia de adolescente vai passar na minha resenha. Queria eu poder ser um pouco mais imparcial, mas as lembranças voltam à mente de momentos bacanas de quando comentava com meus colegas sobre o filme assustador visto na última sexta-feira.

Vou dividir esta resenha em 3 partes: na primeira, vou analisar a edição, na segunda, a biografia e na terceira, vou tecer alguns comentários sobre a minha leitura sobre a figura de José Mojica Marins.


1 - A Edição


É impossível falar desse livro sem comentar sobre a belíssima edição da DarkSide Books. Como já se tornou padrão da editora, eles utilizaram uma capa dura e o interior bem estilizado. As edições do livro vem com um pequeno marcador de página no formato de um caixão. Um pequeno mimo nesta edição fantástica. A edição foi bem feita com muitas imagens do acervo pessoal e de pesquisa dos autores. Esta é a segunda edição de Maldito, sendo que a primeira foi publicada em 1998 pela Editora 34. Esta nova edição parece que recebeu uma nova revisão. Abaixo seguem algumas fotos tiradas da minha edição do livro:




É preciso aplaudir o trabalho da editora, mesmo que todo este trabalho tenha encarecido um pouco o valor final do livro. Acredito que tal vale a pena até porque é um trabalho de fôlego e sobre cinema, o que exige bastante que os aspectos visuais sejam chamativos e façam parte fundamental da obra. Ao final do livro, temos uma extensa e acurada filmografia cobrindo desde os primeiros passos de Mojica até os filmes não terminados e curtas.

A edição da editora está de parabéns.


2 - A Biografia


Já vou logo avisando aos navegantes: a obra não é para qualquer um. Digo isto porque Maldito é uma obra voltada para os fãs do personagem Zé do Caixão, para os cinéfilos ou para aqueles que gostam de uma biografia. A DarkSide se tornou uma editora que investe bastante neste tipo de obra como é o caso de De Volta Para o Futuro: Os Bastidores da Trilogia e Evil Dead. Não é um romance ou uma obra de ficção; é o relato da trajetória de vida de José Mojica Marins. E se formos analisar a obra pelo que ela é, ou seja, uma biografia, os autores foram bem meticulosos em sua pesquisa. Pesquisando um pouco na internet, podemos perceber que André Barcinski tem experiência em biografias sobre músicos e outras figuras ligadas à cultura audiovisual. Outros trabalhos do autor incluem Pavões Misteriosos que tratou da cena do rock brasileiro na década de 1970 e uma biografia sobre o Sepultura. Maldito não é o seu primeiro trabalho e a forma como o autor tratou os dados que ele possuía sobre José Mojica demonstram a experiência no trato com fontes históricas.

Um medo que eu tive ao pegar Maldito pela primeira vez é de que o autor fosse muito parcial com o biografado. Alguns biógrafos acabam despertando sentimentos fortes com o objeto de sua pesquisa: uns amam seus biografados e outros os repudiam. Barcinski manteve um certo distanciamento, apresentando as virtudes e os defeitos da pessoa. Em alguns momentos o autor critica determinadas decisões tomadas pelo personagem, mas isso é natural vide o absurdo que foi a vida de Mojica.

O texto é muito bom e salvo as primeiras cinquenta páginas que são um pouco arrastadas, o resto do livro foi muito fácil de ser lido. A gente não consegue ver um excesso de eruditismo, ou seja, não tem palavras difíceis emboladas no texto. Tudo é apresentado de forma clara e objetiva. A apresentação e o capítulo final são assinadas por Ivan Finotti. Na apresentação, ele destaca a importância de José Mojica Marins para o cenário nacional. Vou tocar nesse assunto mais abaixo. Queria destacar o capítulo final onde Finotti conta o seu encontro com a pessoa durante uma feira de horror nos EUA. Este tipo de relato é sempre muito interessante porque a gente acaba conhecendo minúcias do personagem que não são tão óbvias para aqueles que não tenham conversado com ele.

Gostei muito também do trabalho contextual feito por Barcinski. Isso dá um pouco de gordura ao texto, mas nos ajuda a entender, por exemplo, a relação dos cineastas da Boca do Lixo com a Embrafilmes. Eu já estudei sobre cinema neste período, e este livro me ajudou com novos dados de época. Para aqueles que pesquisam sobre o tema, a obra tem muito valor histórico.

A edição da DarkSide também contribui muito para o dinamismo da obra. Muitas imagens recheiam a edição de Maldito. Estas imagens são uma forma de atiçar nossa atenção e fazer com que queiramos ver outras imagens e assim o texto flui muito bem. Os capítulos não são muito grandes e tudo é muito orgânico. A biografia acaba sendo composta por texto e imagem; ambas são complementares para o entendimento do todo.


3 - O Personagem


Aqui eu vou comentar um pouco sobre José Mojica Marins. Após ler a biografia fiquei com aquela vontade de comentar um pouco sobre o cinema nacional. Nós temos várias figuras extremamente criativas aqui no Brasil e Mojica é uma delas. Me entristece muito saber que nós, brasileiros, acabamos não dando o devido valor a eles. Mojica foi muito prejudicado pela ditadura no Brasil e depois pela Embrafilmes assim como muitos outros diretores. Mas, mesmo que assim não o fosse, poucos de nós conhecemos a figura de Mojica como cineasta de vanguarda. Apenas conhecemos Zé do Caixão como um canastrão, um mambembe. Alguém que não pode ser capaz de produzir algo inovador. Quem for capaz de ver as obras-primas de Zé do Caixão como À Meia-Noite Encarnarei no Teu Cadáver verão como um cineasta, mesmo com poucas recursos, é capaz de produzir um produto que vale a pena ser assistido.

Em um contexto de filmes como O Exorcista e O Iluminado, Mojica poderia ter sido uma lenda no Brasil. Mas, como todo o gênio, Mojica era muito excêntrico. É decepcionante pensar que damos mais valor ao que vem de fora do que o que é produzido em território nacional. O brasileiro tende a ver o cinema nacional como algo estranho e tolo. Muitos tem preconceito e evitam ir ao cinema assistir um. Filmes como Cabra Cega e Bicho de Sete Cabeças recebem vários elogios fora do Brasil e aqui são considerados como um produto de segunda linha. Para aqueles que se aventurarem pelas páginas de Maldito verão que o mesmo aconteceu com Mojica: ele foi descoberto pelos fãs de filmes underground nos EUA e é reverenciado como um artista do cinema trash.

Falemos o que quiser do homem José Mojica, mas seu talento como cineasta é inegável. Em Maldito veremos muito de como ele precisou pegar atalhos para conseguir um modicum de sucesso. Imaginar que ele sequer fez um curso de cinema é perceber a genialidade do homem. Claro que os filmes do Cinema Novo de Glauber Rocha foram importantes para a composição da história do cinema nacional, mas a filmografia de José Mojica também contribuiu para formar toda uma geração de diretores. E, através de sua escola de cinema, sabe-se lá quantos outros ele influenciam.

Vamos reverenciar em vida a obra de Zé do Caixão. Dar a ele nosso respeito e o valor devido. Porque elogiar após a morte é triste. É apenas se lembrar daqueles que já foram. Mojica vai completar 80 anos e que melhor maneira de comemorar este aniversário do que em uma leitura envolvente sobre a vida e obra deste personagem.

E, se vocês não lerem, que suas almas sejam perseguidas pelos cães do inferno quando o relógio badalar à meia-noite.



Ficha Técnica:


Nome: Zé do Caixão - Maldito: A Biografia

Autores: André Barcinski e Ivan Finotti

Editora: DarkSide Books

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 666

Ano de Publicação: 2015


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