• Paulo Vinicius

Os caminhos e descaminhos das adaptações literárias

As adaptações literárias estão por toda a parte. Seja no cinema ou nos serviços de streaming elas tem ganhado cada vez mais os nossos corações. Mas, as críticas também tem aparecido sobre adaptações estranhas, que fogem o original ou que simplesmente foram fieis demais. Vamos conversar.



Segundo a Wikipedia:


Adaptação fílmica (nomenclatura portuguesa e brasileira)[1] ou adaptação cinematográfica (nomenclatura brasileira e portuguesa)[2][3] é o uso, para a realização de um filme, de conteúdo de ficção ou não-ficção que tenha sido previamente publicado como texto escrito, seja na forma de romance, conto, biografia, reportagem, peça teatral, quadrinhos entre outros formatos textuais. Desde as primeiras fases do cinema, na Europa do século XIX, a adaptação de obras tão diversas tem sido uma prática omnipresente de cinema.


Nesse sentido, uma adaptação consiste em uma leitura de uma obra original que é transportada para outro veículo seja um filme, uma série, uma novela, um audiodrama, uma peça de teatro. Há séculos as adaptações são feitas nos mais variados graus. O teatro tradicionalmente é um dos primeiros locais onde obras literárias eram adaptadas. Era uma maneira de atrair o público e fazê-lo conhecer/ter contato com um autor específico. Claro que estou falando de apenas um entre vários dos objetivos do teatro e sua relação com o espectador. Há quem diga que uma missa na Igreja Católica Apostólica Romana é uma grande encenação onde se busca adaptar a Bíblia para que o público leigo pudesse compreender suas mensagens. Os vitrais da Idade Média eram chamados de a Bíblia dos analfabetos.


Para o cinema, até meados do início do século XXI, os chamados roteiros adaptados não eram tão comuns. Os originais tomavam conta das telinhas a partir da mente de gênios como Martin Scorcese, Tim Burton, Quentin Tarantino e tantos outros. Sempre haviam as adaptações no meio que ganhavam o seu devido destaque como O Poderoso Chefão, Tubarão ou Jurassic Park. Mas, já no final da década de 1990 a indústria de Hollywood caía em um profundo processo de falta de criatividade e os roteiros originais passaram a se tornar bastante escassos. Isso não impede que tenhamos visto coisas sensacionais como Matrix ou A Origem. Só que se tornou mais cômodo adaptar roteiros já existentes. É mais fácil para um diretor pegar um material que já existe e já tem um sucesso comprovado e transformá-lo em uma outra mídia. Dessa maneira, a adaptação não só atrai os fãs do original como também novos fãs. Não vou mencionar a indústria de animação japonesa porque as adaptações são parte intrínseca do processo criativo. Mangás e animes tem uma relação próxima, sendo quase indissociáveis.


As adaptações começaram a entrar na boca do povo de uns dez anos para cá. Elas deixaram de ser exclusivas dos cinemas e passaram a entrar no circuito da TV e dos serviços de streaming. A própria estrutura dos streamings hoje envolve uma luta constante por encontrar novos conteúdos que possam gerar hype. Tanto no meio dos quadrinhos como no literário, as obras são pensadas hoje em como podem ser transportadas para outras mídias. Não digo que todos os autores façam isso, mas uma grande maioria pensa dessa forma. Existem até obras que já tem seus direitos adquiridos para serem adaptados antes de chegarem às prateleiras. Então é uma indústria que se retroalimenta cada vez mais a cada ano que passa. Com a passagem da TV para um mundo onde os streamings serão os guiões condutores de tendências, essa guerra por adaptações tende a se acirrar cada vez mais.



Só que isso tem gerado um problema. Com tantas adaptações sendo lançadas todas as semanas para o público, este tende a ser mais exigente com o produto que lhe é entregue. Então as adaptações entraram na lupa dos espectadores. O que temos visto são obras que ora acertam, ora erram no seu impacto. Como temos um número maior de adaptações, é óbvio que esse percentual é bastante dividido. E tradicionalmente as críticas costumam ser mais histriônicas do que os elogios, logo temos mais contato com o que é ruim do que o que é elogiado. Os elogios somem no meio do barulho. Fato é que este ano tivemos um pouco de tudo: produções bagunçadas, orçamentos milionários, séries encantadoras e reveses extraordinários. Para os próximos meses teremos uma quantidade enorme de novas adaptações e isso porque teoricamente ainda estamos em um ano abalado pela pandemia. Mesmo assim, temos estreias programadas e fãs ávidos por novos conteúdos.


Queria dar um exemplo de uma boa adaptação e uma ruim. Começando por uma boa. Os Bridgertons é uma série que procura adaptar os livros de Julia Quinn. Se passa em um cenário vitoriano onde meninas jovens vivem seus amores e dramas em uma sociedade repleta de cortes, costumes e traições. A série é narrada por uma personagem enigmática chamada Lady Whistleblower que conta todos os detalhes tórridos dos casais enamorados. Os livros são um sucesso total e levaram a autora ao patamar de best-seller. A adaptação entrou este ano para o catálogo da Netflix e foi um sucesso total. Com uma boa direção, um elenco competente e cenários encantadores, a atmosfera romântica do livro conseguiu ser muito bem transportada para o streaming. Isso tanto é verdade que pouco tempo depois a série não apenas foi renovada para uma temporada, mas para mais três. E Quinn tem um vasto material a ser adaptado o que pode garantir muito tempo ainda neste incrível universo.


Outro bom exemplo é a série The Boys, uma adaptação de uma HQ com roteiros de Garth Ennis e arte de Darick Robertson (entre outros artistas convidados). A série foi adaptada como produção exclusiva do Prime Vídeo, serviço oferecido pela Amazon. As duas temporadas apresentadas até o momento são sucesso total de público. A série apresenta um grupo disfuncional de heróis que são violentos e autoritários. Após a morte de sua namorada, Hughie tenta tirar satisfações com o herói envolvido no "acidente". Mas, tudo é colocado para debaixo do tapete e ele se sente injustiçado com o ocorrido. Até que ele conhece um homem chamado Billie Butcher que oferece uma oportunidade a ele de dar o troco nos heróis. The Boys tem um roteiro típico do Garth Ennis: irônico, violento e bastante crítico. A adaptação não foi tímida em deixar todo o toque de Ennis ao mesmo tempo em que transportava a trama para outra mídia. O resultado é uma série que chega à sua terceira temporada no auge da popularidade e como exemplo de uma adaptação que potencializa o material original.


Por outro lado, temos O Expresso do Amanhã, uma série que adapta o mundo da HQ O PerfuraNeve de Jacques Lob e Benjamin Legrand. Uma série que se passa em um futuro próximo onde um desastre ambiental devastou o planeta transformando-o em um deserto de gelo. Os sobreviventes se abrigaram em um trem que percorre um mesmo trajeto. E esse enorme trem formado por enormes vagões, leva essa população que foi capaz de criar toda uma sociedade desigual internamente. Já que apenas os privilegiados podem ter acesso aos vagões de luxo e viverem do bom e do melhor. Os personagens envolvidos na trama habitam os vagões do fundo onde a fome e a violência convivem uma ao lado da outra. E todos são administrados com punho de ferro pelo Maquinista. Incluí esta série aqui não porque ela é mal adaptada, mas justamente o contrário. Só que ela acabou não ganhando os corações do público, o que acaba não garantindo a ela uma certeza de futuras renovações.



Só que também temos o outro lado. O Legado de Júpiter era uma série que todos estavam bastante animados para assistir. A série é baseada em uma HQ com roteiros de Mark Millar e arte de Frank Quitely e nos colocava diante de um conflito de gerações. Um grupo de super heróis tenta levar adiante o legado de seus pais que foram os maiores heróis de seu tempo. Mas, uma vida desregrada e atitudes pouco construtivas os transformam em alvo de críticas de seus antecessores. A série teve um orçamento de mais de duzentos milhões, considerado milionário e digno de um filme de Hollywood. Infelizmente o que se viu foi uma série problemática, com um roteiro pessimamente adaptado, decisões questionáveis e um elenco que bateu cabeça com os seus personagens. Uma das séries mais aguardadas do ano se transformou em um trem desgovernado que ocasionou o cancelamento prematuro da iniciativa.


Esta matéria surgiu, além do fracasso de O Legado de Júpiter, por causa de uma discussão acerca do elenco de Sandman, uma série baseada no sucesso de Neil Gaiman sobre o mestre dos sonhos. Houve uma intensa reclamação acerca da escolha do elenco para a série. Então me questionei sobre o que constitui uma boa adaptação. Quando tudo é seguida à risca ou quando o diretor entende a diferença dos meios de transmissão? Acho que antes de mais nada precisamos entender que uma adaptação é subjetiva. Por mais que eu diga que uma adaptação está sendo fiel ao roteiro original, isso não é verdade. Em sua essência, o diretor adapta o que ele leu. É essa leitura que fiar aquilo que vai ser adaptado. Isso passa pelo seu entendimento do cenário, por como são os personagens e até o andamento do enredo. Por exemplo, na composição de uma temporada, um leitor pode achar um determinado acontecimento fútil enquanto outro pode pensar que aquela passagem ingênua pode ajudar no desenvolvimento de um personagem. São leituras possíveis.


Uma visão bem interessante disso é como Tim Burton adaptou Alice no País das Maravilhas. Estamos acostumados com os cenários floridos e campestres do livro de L. Frank Baum. Ou mesmo as insanidades divertidas do mundo embaixo da toca do coelho. Sempre imagens alegres e brilhantes. Mas, Burton enxergava isso com outro olhar. Um mundo distorcido e estranho em que os personagens tinham várias camadas de ambiguidade. Alguns espectadores torceram o nariz diante do que era o material original. Mas, ninguém parou para pensar que aquela era a leitura que Burton tinha feito do romance. Em sua mente ele imaginava aqueles cenários e personagens. Quando ele transportou para o cinema, o fez com naturalidade. Isto é, o que é estranho para nós, é normal para ele.


Não existe uma resposta adequada para a questão de se existe uma fórmula certa para uma adaptação. A verdade é que ninguém concorda. Temos bons argumentos para aqueles que defendem a fidelidade enquanto outros se colocam do lado da originalidade. E acho que temos bons exemplos dos dois lados. No fim tudo é uma escolha de quem está adaptando. E não cabe a nós decidir como um diretor vai realizar esse processo. Podemos torcer para que uma adaptação seja boa e confiar/desconfiar do trabalho de um diretor. Mas, vou deixar os meus 5 centavos de opinião. Acredito na originalidade. Precisamos pensar que livros/quadrinhos e mídia audiovisual são dois meios diferentes. E que necessariamente podem não conversar entre si. É impossível adaptar com 100% de precisão uma obra. As ferramentas que um escritor usa para escrever o seu livro não são as mesmas que um diretor vai empregar para criar cenas de um filme ou uma série. Existem vários casos em que uma adaptação precisa foi uma péssima escolha para uma mídia audiovisual. Tornou tudo truncado, situações forçadas e um resultado aquém do esperado.



Então o que eu penso sobre o elenco de Sandman? Não penso nada, minha gente. Penso que Neil Gaiman está lá ajudando a dirigir o projeto e que vou estar, assim como vocês, ansioso para ver o resultado final. Não importa se Morte ou Desejo vão ser interpretadas por uma mulher branca, negra, coreana, das ilhas Seychelles, da lua Titã ou de Marte. O que eu quero é apreciar mais uma boa adaptação e ver que leitura o diretor teve ao passar uma obra tão sensacional para uma série.