• Paulo Vinicius

O livre-arbítrio em Lovestar

Andri Snaer Magnason nos apresentou uma narrativa onde as pessoas tem tudo o que desejam: basta permitir que os cálculos da felicidade sejam feitos por elas. Tudo segue um padrão científico e racional. Mas, isto será a felicidade real?

Todos nós já nos deparamos com a busca pela felicidade. Onde ela está? Onde se encontra o meu amor verdadeiro? Minha morte será tranquila? Em Lovestar, escrito pelo autor Andri Snaer Magnason, somos colocados em um mundo onde a felicidade é calculada e adequada a cada um de nós. Não há a necessidade de buscar a felicidade, porque o cientista Lovestar descobriu um padrão de ondas que todos os seres humanos produzem e quando este padrão se encontra com outro semelhante, significa que estas pessoas foram feitas uma para a outra.

Claro que Lovestar é muito mais do que isso. Imagine a possibilidade de usar à distância processos mentais dos seres humanos como a fala, a visão e outras funções corporais. Imagine um marketing direcionado especificamente para o padrão de ondas de uma pessoa. É o sonho de qualquer pessoa envolvida nesta área conseguir criar grupos específicos pelos quais manipular gostos e tendências de uma pessoa. No livro, os homens são agora sem fio. Não há a necessidade de ter aparelhos específicos em suas casas porque boa parte do entretenimento pode ser realizado em um piscar de olhos. Compras são feitas através de créditos em suas lentes. O mundo parece perfeito.


Mas, ainda existem aquelas pessoas que são desfavorecidas. Estas são obrigadas a se tornarem pregoeiras. Ou seja, possuem seus centros de voz alugados para fazer propaganda dinâmica de um produto no meio da rua. Ou pior: podem ser vítimas de armadilhas, realizando alguma ação constrangedora. Estas pessoas desfavorecidas tem sua vida virada de ponta a cabeça, sendo obrigados a viverem momentos complicados. Isso sem falar na morte que também acabou nas mãos dos marketeiros de plantão. Eles querem fazer o possível para fazer com que o enterro na terra seja algo do passado. A moda agora é enviar os corpos em foguetes para o espaço.

Lovestar tem uma narrativa assustadora e coloca em foco os limites de até onde o marketing é capaz de chegar. Há alguns anos atrás eu li um livro chamado Reconhecimento de Padrões, onde o escritor William Gibson nos apresentava aos estudiosos de padrões e tendências. Eu achava que isso era algo fictício, mas na verdade não é. Esses analistas estão espalhados por aí e fornecem dados de pesquisas empíricas a empresas que utilizam-nos para criar novas estratégias de vendas de produtos. Há alguns anos atrás, a ideia básica era fazer uma pessoa comprar algo. Para isso tornávamos o produto mais atrativo ao consumidor. Hoje a estratégia é fazer com que a pessoa compre um produto. Seja através de um marketing agressivo ou tornando o produto algo rotineiro na vida de uma pessoa.


Vocês já perceberam o quanto o Google se adapta a cada usuário? Os algoritmos que baseiam o Google estudam os perfis de pesquisa e de entrada em sites de cada um de nós e personaliza a pesquisa para atender aos critérios desejados. Claro que nesse meio tempo, temos propagandas e outros produtos sendo oferecidos para nós seja através de ads ou de pequenas e incômodas janelas. No pequeno intervalo de tempo que leva para fecharmos a janela, o produto observado já foi assimilado pelo nosso cérebro e passa a fazer parte de nossas lembranças. Quando observamos o produto pela segunda vez, já vamos associar a alguma coisa. Isso repetidamente cria um padrão. A gente pode até não querer comprar, mas inconscientemente vamos ser estimulados a cogitar a compra do produto.


Mas, onde entra o amor? Bem, vivemos entrando em aplicativos de afinidade. E eles existem por toda a parte. Desejamos encontrar o amor verdadeiro. Mas, não queremos ter o trabalho de errar. Muitos de nós se desapontam e se deprimem com as falhas. Então, nós passamos a desejar alguma coisa que nos dê a certeza absoluta de que vamos acertar na pessoa certa. Aquela que compartilhará de todos os meus gostos e será capaz de preencher todas as lacunas do coração. O amor sendo analisado de forma científica e racional. É a ciência te dando a resposta certa para uma das perguntas mais fundamentais do homem: quem é a minha cara metade?

Muitas vezes não paramos para pensar o quanto somos afortunados. Afortunados por sermos capazes de viver em um momento histórico e um lugar onde ir e vir pode ser feito por todos. Podemos nos expressar livremente ou professar qualquer religião. Temos a liberdade para fazermos o que queremos, dentro dos limites que nos foi estabelecidos pelas normas sociais. O que pega é que a liberdade exige responsabilidade. Falar de liberdade é fácil, mas ela demanda de nós uma postura madura capaz de tomar decisões e posturas. Vai parecer clichê isso, mas a minha geração (nascida na década de 1980) cresceu com algumas dificuldades e teve que aprender determinadas lições. Passamos por inflação, por impeachment, por desemprego. Não tínhamos as facilidades que os millenials possuem nos dias de hoje. Se queríamos algo, precisávamos nos arriscar. Tomar decisões que nem sempre eram as corretas.


Vejo hoje a atual geração desejando uma vida mais calculada e correta. Sem arriscar. Quero que alguém me aponte o caminho para a felicidade. Ou não ser capaz de errar nas minhas escolhas. E isso não existe. O ser humano é um ser imperfeito e falho. O livre arbítrio é maravilhoso. Isso porque a vida é calcada por pequenas experiências transformadoras que vão moldando o nosso ser. Somos formados de tijolos que um dia se tornarão uma casa. Uma pessoa sem bases é como um prédio sem fundações. Qualquer abalo coloca tudo abaixo. Todos os anos, mais ou menos uns duzentos adolescentes passam pela minha mão. E eu percebo o quanto essa juventude tem muitas fragilidades. E os motivos disso são diversos: falta de apoio (ou estrutura) familiar, uma criação que nem sempre está a contento com o que ele precisa para crescer, uma escola que hoje não fornece o necessário para ele entrar no mercado de trabalho. Óbvio que eu não quero generalizar, mas me preocupa muito as atuais gerações e como elas encaram as próprias liberdades.


O que esse livro esfrega na nossa coração é o quanto não gostamos de nos frustrar. Magnason pensou então em uma sociedade onde você não pode ser frustrado. Claro que, à medida em que vamos lendo Lovestar, vamos percebendo os furos que existem naquela suposta utopia. Isso porque a vida, a existência humana não pode ser calculada. Não existe um parâmetro que define almas gêmeas. Muitas vezes pessoas incompatíveis podem dar um casal maravilhoso. As diferenças servem para fortalecer o casal. Uso a mim e minha esposa como exemplos: eu sou um pragmatista, um racionalista; ela é uma criativa, imaginativa. Minha esposa não gosta de leituras; eu vivo para isso. Isso nunca serviu para nos separar, embora tenhamos nossos conflitos de opiniões. No entanto, eu a considero minha alma gêmea. Será que foi isso o que o universo preparou para mim em minha pequena vida? Não sei, mas sei que o meu livre arbítrio me ajudou a escolher uma pessoa que me faz bem. Para mim, ela é a minha alma gêmea. Não foi nenhum programa de computador que me disse isso.


Por essa razão, Lovestar é um livro tão impactante. Por ele ser capaz de balançar algumas de nossas certezas e nos fazer refletir sobre como temos vivido nossas existências. Afinal, você, leitor, está aqui porque escolheu através de sua liberdade de escolha. Nenhum programa escolheu por você (apesar de que o Google pode ter dado uma forcinha). Então vamos tentar perceber melhor o quanto nossa liberdade tem sido calcada, talvez, por uma ausência de escolhas. E quem sabe nos tornarmos pessoas melhores.



Livro mencionado:

Ficha Técnica:


Nome: Lovestar

Autor: Andri Snaer Magnason

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Fábio Fernandes

Número de Páginas: 336

Ano de Publicação: 2018


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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