• Paulo Vinicius

O Ficções Humanas no ano da pandemia e os planos para 2021

Hora de fazermos aquela auto-análise e pensarmos em como lidar com o ano que está chegando. Vamos colocar alguns dos nossos planos e refletirmos sobre o que passou.





De uma coisa podemos estar certos: 2020 foi o ano que nunca existiu. Todos tínhamos grandes expectativas para o ano e traçávamos planos para o que se aproximava. Eu mesmo tinha me programado para ir em 3 a 4 eventos fora do eixo RJ-SP ao longo do ano. Já tinha comprado minhas passagens para Porto Alegre para participar da Odisseia de Literatura Fantástica pelo segundo ano. Mas, veio a pandemia e muita coisa precisou mudar. Nessa postagem eu queria refletir sobre o que se passou e colocar alguns planos para 2021, que [spoilers] eu não tenho muita expectativa também.


Algo que posso me orgulhar de ter feito no ano passado foi manter a programação do blog. Aos trancos e barrancos conseguimos manter uma boa estrutura com postagens frequentes e conteúdos de qualidade. Mesmo que a equipe não estivesse tão bem devido à pandemia que afetou a nós de maneiras distintas. Eu, Amanda e Diego tivemos nossos próprios problemas e dilemas, mas nosso ritmo de leituras esteve acima da média. Estivemos até um pouco acima da quantidade de postagens feitas em 2019, sinal da dedicação e do carinho que temos pelos nossos leitores. Adicionamos Ana Lúcia Merege e Janayna Bianchi ao time de colunistas, que produziram seus conteúdos entre os seus respectivos projetos. No momento não temos conteúdos delas porque ambas se envolveram em atividades que exigem bastante foco e concentração: Ana Lúcia está com um projeto no Catarse para a produção de 2 livros (e um extra por conta das metas estendidas) e a Jana tem se dedicado à Mafagafo e ao Relampeio. Mas, não se preocupem que em breve teremos novidades.


Como vocês sabem, eu sou professor do Ensino Fundamental II e Médio pelo Estado do Rio de Janeiro. E tenho um projeto de formação de leitores em comunidade e ajudo na curadoria de livros para o PNLD Literário da escola. Quando chegou o ensino remoto, achávamos que seria algo transitório e que logo estaríamos retornando ao convívio social. Ledo engano. Acredito que assim como eu, muitas pessoas subestimaram o isolamento social e como isso poderia nos afetar psicologicamente. Quem me conhece mais proximamente sabe o quanto eu gosto de conversar com as pessoas. Pior: sou uma pessoa tátil, que se comunica através de toques e gestos. Não preciso dizer o quanto o isolamento social se abateu sobre mim. Perdi o clube do livro que me era tão querido já que os alunos perderam o entusiasmo com o projeto. Minhas aulas se tornaram uma repetição idiótica de conteúdos que não tem nexo com a realidade. E por volta do final de maio e junho entrei em um processo de depressão. Não via graça em nada, não sentia entusiasmo nem de sair da cama. As coisas perderam o sentido. Adquiri hipertensão; meus índices de coisas não-saudáveis dispararam rumo às estrelas e precisei me cuidar (ainda preciso porque sou negligente comigo mesmo). Discuti com vários colegas de trabalho pela simples falta de compreensão e empatia e decidi me calar. Provavelmente minha participação nas redes sociais seja menor hoje em decorrência disso.


Hoje não é que eu esteja 100%. Só não encaro mais a minha profissão com a mesma seriedade e apego ao que eu tinha dois anos antes. Entendo que estou no magistério para ganhar dinheiro e ponto final. É triste ter essa posição, mas a gente precisa ser cínico diante do quadro atual da educação no Brasil se quiser manter a sanidade. Meu trabalho hoje está aqui no blog. Estou estudando e buscando aperfeiçoar o que eu faço.



Mesmo durante a pandemia participamos de vários eventos legais como o Relampeio Festival e o Future Fiction. Tive a oportunidade não só de ouvir autores nacionais que eu acompanho o trabalho, mas de conhecer autores internacionais que curto muito como a Malka Older, o Ian McDonald, o Kim Stanley Robinson. Também pude ouvir pessoas ligadas ao mercado editorial internacional como o Francisco Verso, o Neil Clarke e a Ann Vandermeer e entender como selecionar histórias, como abrir espaço para novas influências e como o mercado pode agir contra esse grupo incrível de autores. Por falar em mercado editorial, estou em uma fase profunda de estudo e aprendizado e tive a oportunidade de fazer o curso ministrado pelo Daniel Lameira em meados de novembro. Se eu já o achava uma pessoa incrível dentro de um mercado editorial viciado, hoje tenho mais motivos para admirá-lo. É uma pessoa com muito conhecimento e uma visão de mercado única. Para quem acha que conhece tudo sobre editoras, direitos de publicação e literatura, sugiro repensar e reformular suas ideias. Escutar alguém que está do outro lado. Não à toa a Antofágica, uma editora que tem o Lameira como uma de suas principais figuras, foi um dos destaques em 2020. Como nem tudo são flores, uma das minhas frustrações no início de 2021 foi não ter conseguido fazer o workshop de edição de quadrinhos com o Sidney Gusman, alguém que eu adoro ouvir e sempre tem alguma coisa relevante a falar. Infelizmente, a grana não deu. Espero poder fazer no futuro.


Tivemos um ano muito positivo em relação a seleção de parcerias. Isso até março quando a pandemia estourou e tudo foi pelos ares. Me fez pensar em o quanto as parcerias realmente são relevantes para o blog. Sou extremamente crítico em relação a elas, e para mim hoje não basta mais só receber livros em casa. Acho legal, bacaninha, mas não é isso o que eu busco. Como parceiro, quero contribuir para a editora. E não só fazer mais uma entre duzentas outras resenhas do livro do mês. Quero projetos legais e desafiadores, e, principalmente: quero ser divulgado pelas editoras. No ano passado, percebi que poucas editoras realmente divulgam o que fazemos. Posso contar nos dedos de uma mão quais são e são aquelas com quem tenho um contato mais próximo. Isso é frustrante. Como produtor de conteúdo, fazer uma leitura crítica e resenhar um livro dá trabalho. Usamos tempo de nossas vidas naquelas linhas colocadas em nosso site para simplesmente não ter sequer um compartilhamento ou uma menção. Como disse, conto nos dedos de uma mão as editoras que fazem e estas são aquelas que moram no meu coração. Para 2021, quem me acompanha já percebeu que não tenho dado muita atenção às seleções de parceria ativas. Estou bem mais seletivo esse ano e pretendo mais manter o que já tenho (apesar de que já perdi uma) do que encarar novas. Talvez isso tenha despertado comentários entre os que nos acompanham de por que eu não me inscrevi na seleção da editora nova x ou y. Fácil, gente: não quero comprometer o projeto do blog me afogando em leituras que não serei capaz de cumprir. Se alguma editora nova de fantasia, terror ou ficção científica quiser entrar em contato comigo, estou à disposição no ficcoeshumanas@gmail.com. Mandei seu email e tentamos organizar alguma coisa.


O mesmo não posso dizer sobre parcerias com autores. Sei que já tive uma política de portas abertas há alguns anos atrás, mas hoje não tenho mais. Novamente: não posso afetar o andamento dos meus projetos porque tenho cinco, oito, dez livros na pilha com o autor no ouvido me cobrando uma divulgação. Agradeço a confiança e todos os meses recebo um ou dois emails de autores me pedindo resenha crítica, leitura beta ou simplesmente uma divulgação. Peço desculpas a todos, mas preciso ser profissional com aquilo que eu faço (ou pelo menos minimamente profissional). Não sou nenhum colunista da Folha de SP, mas hoje temos um público fiel que nos segue e curte o que fazemos. Quer uma resenha publicada no Ficções? Me mande um email e eu envio o nosso midia kit com os valores cobrados. Garanto a você, autor, que não vai se arrepender. Tivemos algumas pessoas que até hoje elogiam o que fazemos. E olhe que somos mão-de-obra bem barata mesmo comparados a outros espaços.



O final do ano foi de muitas emoções. Depois de me recuperar desses momentos mais chatos, comecei a traçar planos em setembro. O primeiro deles foi o de me aperfeiçoar. Se tem alguém que é extremamente perfeccionista e auto-crítico, esse alguém sou eu. Ainda acredito que não entrego o que eu poderia fazer e busco sempre estudar, ouvir outras pessoas, fazer cursos. E foi nessa vibe que eu fiz um curso com o Daniel Lameira sobre o mercado do livro. Ao longo de quatro aulas ele abordou inúmeros assuntos como obtenção de direitos, escolha de títulos, projeto gráfico, marketing, tiragem. Sério, recomendo demais. Me inscrevi porque nos últimos tempos eu tenho me embrenhado bastante nesse tema e não quero postar opiniões no site que não condizem com a vida real. Muito do que vocês vão ver nos próximos meses nas colunas de Previsões de Lançamento e na própria avaliação do mercado em 2020 é fruto desses estudos e leituras. Como produtores de conteúdo precisamos ter responsabilidade com as nossas falas. Dependendo do alcance, uma fala mal direcionada pode afetar o emprego de dezenas de pessoas; ou simplesmente colocar uma opinião descolada do que acontece de fato.


Em dezembro, eu já estava encerrando minhas atividades e tinha acabado de programar as postagens de final de ano que antecedem as férias coletivas do blog. Mas, fui surpreendido pelo convite de uma editora para um trabalho freelance. Aquilo decididamente mexeu comigo. Veio em um momento em que eu precisava de grana; muita grana. E levantou o meu astral com o que eu faço. Foi um convite para criar um material para o PNLD Literário 2020 que a editora em questão (não vou divulgar o nome porque não acho que não é o importante aqui) precisava entregar em um curto espaço de tempo. Eu já havia sido sondado no passado pela mesma editora, mas na época expus o fato de que não tinha experiência com isso, fora que eu sou professor de História/Sociologia. Muitas editoras preferem um profissional da área de Letras (Literatura) para esse trabalho. No passado não rolou, mas dessa vez aconteceu. Não vou ficar especulando se eu era a primeira, segunda ou última opção até porque para quem deseja uma oportunidade, tudo o que precisamos é mostrar o que sabemos fazer. Agarrar a oportunidade com unhas e dentes. Fiquei trabalhando nesse material por mais de 45 dias e aprendi bastante com essa experiência. Foi uma loucura... pensando melhor, eu teria pedido mais tempo hoje. Para os próximos trabalhos, descobri que a minha esposa conhece o assunto tão bem quanto eu e tirou algumas dúvidas minhas no meio do processo. Então foi uma experiência em que pude conhecer um outro lado da minha companheira e em um próximo trabalho nesse estilo, vou propor ao contratante que trabalhemos juntos. Seria bem legal ter nossos nomes creditados juntos.


Mas, e 2021? Bem, este é um ano importante para a manutenção do blog. Estou renovando nosso servidor por mais dois anos, ou seja, teremos mais FH por algum tempo. Enquanto eu puder manter, estamos na área. Conseguimos crescer bastante e hoje posso dizer a vocês que temos pelo menos 500 visualizações de página por dia entre antigos e novos leitores. Isso foi um crescimento de mais de 50% em relação ao ano de 2019. É um sinal positivo que vocês me deram de que nosso conteúdo é relevante. E isso se pensarmos que somos um blog puramente de texto, um estilo de conteúdo que não tem tantos fãs assim. A maioria hoje prefere conteúdos em áudio ou através do Twitch, Youtube ou Instagram.


Ao lado da Bruna Otomura, nossa designer fofa e maravilhosa, pensamos em colocar um tema em especial para 2021. Quebramos nossas cabeças (a Bruna fez vários modelos) de ícones e logos que não desvirtuassem muito da nossa logo original que ainda está em fase de aceitação e reconhecimento. Mas, penso que este ano devemos buscar o renascimento, o plantio, a renovação. Em um ano tão ruim como o ano da pandemia, precisamos ter esperança de que as coisas poderão ser melhores no futuro. E foi com este pensamento que a Bruna criou esta logo incrível em que plantamos esperanças através da leitura. Não só lendo livros propriamente ditos, mas estimulando outras pessoas a embarcarem nesse mundo incrível. Formar novos leitores, trazer outras pessoas para que possamos escapar por alguns minutos de nossa existência, discutir assuntos relevantes, nos emocionar e repensar temas.


Outra novidade é que eu tenho estudado bastante sobre quadrinhos. Lido materiais clássicos do Will Eisner e do Scott McCloud, ao mesmo tempo em que leio livros do pessoal da USP. Isso tem feito eu prestar mais atenção no que estou lendo. Ou seja, teremos uma ampliação do que estamos fazendo em quadrinhos. Pretendo me dedicar mais a isso ao longo de 2021. Ainda deve demorar um pouco porque faço questão de ler tudo o que tenho em mãos e me preparar bem. Também pretendo retomar as postagens de animações. Matérias e críticas. Não pretendo me aventurar a dar notas, acho que não é o caso de fazer isso. Mas, apresentar coisas legais que estão disponíveis nos diversos sistemas de streaming. Sem falar nos bastidores de algumas dessas animações. Esperem novidades.


É isso, gente. Na próxima matéria iremos já dar início às nossas postagens sobre mercado editorial. Fiquem ligados!




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