• Paulo Vinicius

Misturando Gêneros Literários

É possível realmente criar algo novo no mundo literário? Ultimamente os autores tem inovado ao pegar elementos de um gênero literário e inseri-los em outro distinto. Como? Saibam nesta matéria.



Todas as semanas são lançados dezenas de novos livros de fantasia e de ficção científica. Autores inventam enredos os mais mirabolantes e maravilhosos em um ritmo quase diário. Se formos analisar detidamente, quase todo tipo de enredo já foi tentado ou repetido um sem número de vezes. Por isso é muito difícil algum autor surgir com algo completamente original ou totalmente novo.

Uma das soluções encontradas foi misturar gêneros literários. Isso fez com que surgissem subgêneros dentro da fantasia e da ficção científica. Um exemplo disso é a fantasia urbana. Um autor pega elementos mágicos e os insere em uma história de detetive ou de aventura centrada nos dias atuais. É possível citar alguns exemplos. Jim Butcher criou um mundo interessante ao centrar as aventuras do detetive sobrenatural Harry Dresden em Chicago. Ao mesmo tempo em que o personagem precisa lidar com vampiros, demônios e magos das trevas, Dresden se relaciona eventualmente com Murphy, seu contato na força policial de Chicago. Para manter um pouco da fidelidade ao estilo de um mago, Butcher encontrou uma solução inteligente: por ser um mago, Dresden não é capaz de usar nenhum tipo de tecnologia (todos os aparelhos tecnológicos quebram por causa de sua aura de feiticeiro). Susanna Clarke criou um mundo interessante usando a atmosfera do século XIX e inserindo seu feiticeiro Mr. Norell em uma Inglaterra vitoriana. Apesar de conter diversos elementos retirados de Senhor dos Anéis, Jonathan Strange & Mr. Norell sai muito mais como um romance de costumes como os de Jane Austen. Quem pensaria em mesclar um romance de costumes com uma fantasia épica?

Ao falarmos de fantasia urbana como esquecer Cassandra Clare e sua Cidade dos Ossos? Ou de Colleen Houck e sua Maldição do Tigre? Pior, esquecermos Neil Gaiman e seus maravilhosos livros Deuses Americanos e Filhos de Anansi? Diga-se de passagem, Shadow é um personagem muito real, na minha opinião. Sou capaz de enxergar um Shadow em uma praça ou em uma fila de banco.

Ao tentar misturar estes gêneros, o autor precisa buscar o equilíbrio, algo que eu cheguei a comentar em discussões anteriores. Que efeitos um universo pré-histórico vai ter em um romance? Bizarro? Perguntem então como Jean Marie Auel criou o universo de Ayla, A Filha das Cavernas. Ou como ela foi capaz de capitalizar uma longa pesquisa histórica em uma série extremamente interessante de oito livros. Ou será que um romance de aventura poderia ser misturado com ficção científica? Ah, esse é mais fácil, né? Será mesmo? Bem, Edgar Rice Burroughs criou uma saga interessantíssima chamada Barsoom em que seu protagonista, John Carter vivia mil aventuras em Marte. Se bem que eu posso dizer que a saga de John Carter parece mais uma mistura de ficção científica com velho oeste. Uma mistura literária precisa harmonizar com a construção do universo ficcional. Caso contrário torna-se um construto falho causando incômodo a quem está lendo.

Na minha opinião, o autor não deveria pensar na mistura antes de criar o mundo. Não se trata de uma aposta se eu sou capaz ou não de misturar gêneros literários, mas de escrever uma boa história com uma proposta interessante. Nenhum autor pensa em criar uma história de steampunk: ele pensa em um mundo parecido com a Inglaterra do século XIX em que os personagens precisam lidar com o sobrenatural. Eu acredito que Kim Newman ao escrever Anno Dracula não participou de um concurso de quem escreve o melhor steampunk. Ele fez uma longa pesquisa e inseriu seus personagens em um universo ligeiramente diferente do nosso.




Alguns autores conseguem criar misturas bem estranhas e serem bem sucedidos. Scott Lynch, para mim, é um verdadeiro Victor Frankenstein. Em As Mentiras de Locke Lamora, o autor criou um cenário semelhante ao dos condottieri da Itália no século XV (vai me dizer que a cidade onde vive Locke não parece uma Veneza ou uma Florença no século XV?) ao  mesmo tempo em que apresentava um universo de fantasia. Apesar de bem construída, a história sofre de um pouco de lentidão para que o enredo central de desenrole. Mas, no geral, a mistura de gêneros ficou excelente. Em Mares de Sangue, mais uma vez Scott Lynch experimentou. No segundo volume da série de Locke Lamora, ele insere dessa vez um estilo de piratas (ou em inglês, swashbuckling) que eu achei fenomenal.

Querem mais um exemplo de loucura? Brian McClellan criou um universo muito interessante em sua série Powder Mage. Já tentaram tudo com magos  né? Pois é... nosso autor aqui insere o mago da pólvora. Diferente do mago elemental, os magos da pólvora são capazes de manipular balas podendo disparar em distâncias assustadoras ou guiar uma bala usando o poder mágico. Ou quem sabe, cheirar um pouquinho de pólvora para ampliar a  força e a defesa. Já que estamos no universo de fantasia tradicional, o que dizer de Terry Brooks? Shannara apesar de ter todos os traços da Terra-Média tem ruínas de uma civilização altamente avançada cujos artefatos começam pouco a pouco a serem integrados ao mundo. Terry Brooks abriu esse precedente lá na década de 70 ao misturar o estático universo de alta fantasia de Tolkien para algo diferente. Se existe um Brandon Sanderson ou um Dan Simmons hoje, eles devem muito à criatividade de um Terry Brooks.

Acredito que um dos contras à mistura é quando o estilo acaba se saindo confuso. Algo que muitos críticos chamam de harmonia. Por exemplo, AI - Inteligência Artificial é uma ficção científica em que, em alguns momentos, Brian Aldiss pega emprestado elementos de contos de fadas para mostrar a jornada do protagonista. Apesar de parecer estranho, no filme assume uma conotação orgânica com o personagem. Já em Dragões do Éter, a inserção de personagens do mundo dos videogames acaba soando estranho e forçado. O leitor se sente incomodado, não por conhecer o personagem, mas por este ter um contexto estranho dentro da história. Enfim, cabe ao autor decidir de que maneira ele vai pegar aqueles ingredientes e fazer uma boa mistura.


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