• Paulo Vinicius

Koikimo: Entre o amor e a obsessão

Um mulherengo que consegue seduzir todas as mulheres que deseja com sua beleza e lábia, se vê diante de uma mulher que o rejeita. E essa mulher é uma colegial. Uma garota direta, honesta e sincera que acaba conquistando seu coração. Agora, tudo o que ele quer é conquistar essa garota.



Possivelmente esse é um dos animes mais complicados de se analisar da temporada de abril de 2021 no Japão. Isso acontece porque ele mexe com uma série de assuntos polêmicos e mesmo sendo algo bem ameno, não deixa de estar ali. Por mais que os produtores da série tenham dado mais profundidade à premissa inicial e um dos protagonistas tenha passado por diversas transformações, o assunto precisa ser abordado. É como um grande elefante na sala que precisamos colocar para fora depois de ter tomado um chá. E o cuidado precisa ser grande para que a gente não normalize determinadas situações. Falar de relações entre homens mais velhos e mulheres mais jovens ou até o ato de seguir aquela que ama são problemas sociais que precisam ser abordados. Até onde isso é uma forma de carinho e até onde isso é um assédio? Aonde se encontra o limite? Estou colocando todas essas coisas sendo que eu gosto da animação e acho até que o susto inicial com os temas foi bastante amainado com o que acontece durante a série. Mesmo assim, sinto que o assunto precisa ser abordado.


Koikimo, ou Koi to Yobu ni wa Kimochi Warui, tem a tradução de It's too Sick to Call this Love. É baseado em um web mangá escrito por Mogusu que se encontra ainda em publicação desde 2015. Contém 8 volumes até o momento em que esta matéria foi escrita e é publicada na revista Comic Pool da editora Ichijinsha. Segundo o My Anime List, a demografia é josei, apesar de que ele tem muito de shoujo. Ele fica naquele limite extremo entre as duas demografias. Por exemplo, eu não colocaria Koikimo na mesma prateleira que Wotakoi. Por uma série de pequenos clichês que vemos no anime. A animação conta com a direção de Naomi Nakayama (de Carole & Tuesday e da terceira temporada de My Hero Academia), a produção de Shunsuke Saitou (de Magi, Working e Zetsuen no Tempest) e com roteiros de Yuuko Kakihara (de Asobi Asobase e Chihayafuru). O estúdio de animação é o studio Nomad. Falando da animação ela cumpre o que promete para um anime dessa demografia. Gosto de algumas tomadas de cena que são bem escolhidas e a direção gosta de trabalhar as expressões dos personagens. O design de personagens segue à risca o mangá, apesar de que eu gostei mais de como a Ichika ficou no anime e a Rio ganhou um aspecto mais maduro. A trilha sonora é bem gostosinha e a canção de abertura está no top 5 das minhas músicas favoritas da temporada.


Mas, bem, sobre o que é a história? Amakusa Ryo é um homem de 27 anos que trabalha em uma empresa de administração. É chefe em seu setor. Ou seja, é bem sucedido, bonito, inteligente. E consegue todas as mulheres que deseja, mas sempre as abandona quando se cansa delas. Ele curte a arte da conquista, mas como ele tem todas essas qualidades, considera suas parceiras como pessoas fúteis. Até o dia em que ele vai para casa de sua irmã Rio e, ao entrar na estação de metrô, ele quase cai de uma escadaria enquanto estava distraído. Uma jovem o salva de cair da escadaria e, vendo que ela destruiu o seu almoço, dá a ele o seu bentô. Quando Ryo vai agradecê-la, ela desaparece no meio da multidão. Qual não é a sua surpresa quando ele encontra essa mesma jovem na casa de sua irmã e descobre que ela é sua colega de escola, Ichika. Como uma "recompensa" por ter salvo sua vida, ele oferece a ela a oportunidade de passar uma noite de amor intenso com ele. Segundo ele, "uma oportunidade única para uma colegial". Ichika o surpreende rejeitando os seus avanços, chamando-o de nojento e desagradável e saindo de perto. Essa sinceridade crua de Ichika ao lado de seu jeito doce e gentil, faz com que Ryo se apaixone à primeira vista por ela. Agora, Ryo está empenhado em fazer qualquer coisa para conquistar o coração de Ichika, que enxerga isso como extremo desagrado. E assim começa a dança entre os dois protagonistas que vão se envolvendo mais e mais.



Temos dois temas extremamente complicados para tratar: pedofilia e stalking. Vou começar pelo segundo, procurando seguir a ordem cronológica do anime. Quando Ryo é recusado por Ichika, ele inicia um sistema de aproximação que beira o obsessivo. Ele envia flores todos os dias para a garota. Mesmo ela não querendo receber. Quando ela reclama das flores, ele passa a enviar ursinhos de pelúcia e todo o tipo de outros mimos. Mesmo ela não querendo receber. Ele consulta a irmã para conhecer todos os hábitos e peculiaridades de sua amada. Por exemplo, ele passa a assistir animes apenas para ter conversa com ela. Conhece todos os tipos de comida que ela gosta, para sempre saber o que oferecer a ela. Investiga seus hábitos de passeio para saber onde encontra-se "casualmente" com ela. Os dois primeiros episódios da série são bem complicados de assistir. Pode parecer bonitinho um parceiro querer conhecer os seus gostos e costumes, mas somente quando a relação já acontece de fato. Quando nos encontramos no universo da paquera e o outro lado ainda não quer nada com o parceiro, esse tipo de abordagem é pura perseguição. Não é algo saudável. Recorrendo ao são Google, stalkear é:


"é uma gíria do idioma português, baseada na palavra inglesa stalker, que significa literalmente "perseguidor". Assim, esse "verbo" costuma ser usado para se referir ao ato de "espionar" ou "perseguir" as atividades de determinada pessoa nas redes sociais."


O dicionário se refere às redes sociais puramente, mas hoje existe uma interpretação mais ampla que sugere esse ato ao cotidiano comum. No Brasil, o ato físico de stalkear não é tão comum, mas em outros países já se estuda transformar isso em um crime de assédio moral. No anime, isso é um susto inicial, porque Ichika deixa bem claro que não gosta dessa abordagem da parte do personagem. Apesar de que Ryo alega que curte contrariar Ichika, o que novamente configura um assédio moral. Mesmo no tom de brincadeira, a personagem vai impondo a sua visão antes os avanços de Ryo e consegue que o personagem reduza a sua perseguição. Mas, algumas coisas pequenas permanecem, o que dá a impressão de ser bonitinho, só que passa uma imagem controladora dele. Ryo não consegue ficar um dia sem telefonar para Ichika, ou seja, ele quer ter a noção exata de onde ela se encontra. E em segundo lugar, Ryo fica enfurecido quando algum possível concorrente masculino se aproxima dela. São duas questões que não foram resolvidas e passam um ar estranho quanto ao comportamento do personagem.


Não vou dizer que o anime continua estranho. Pelo contrário, acho que Ryo tomou várias bofetadas morais que o fizeram repensar a sua abordagem. Chegou ao ponto de Ichika pedir à amiga que mantivesse seu irmão na linha, podendo afetar a própria amizade das duas. Só que para completar o problemão, Rio (a amiga) quer que Ichika namore seu irmão. Segundo ela, a presença de Ichika fez com que os dois irmãos se reaproximassem mais já que existem problemas familiares graves entre Ryo e seu pai. Mas, novamente, acho que o anime conseguiu contornar em parte o problema ao humanizar mais o protagonista. As sucessivas puxadas de orelha fizeram com que Ryo precisasse refletir sobre como ele pensa as mulheres. Um amadurecimento tardio para um personagem que só objetificava suas parceiras.



Só que existe um segundo problema. No Japão, as mulheres só são consideradas adultas e independentes após os 21 anos. E Ichika tem 17 anos no anime, uma diferença de dez anos em relação a Ryo. Ou seja, ela é considerada uma colegial ainda, e se encontra no segundo ano do ensino médio japonês. Isso provoca uma flagrante diferença de idade, mentalidade e perspectiva. Primeiro porque é complicado, em uma sociedade conservadora e tradicional como a japonesa, uma relação com essa diferença de idade. Por si só ela já é polêmica. Apesar de que nessa temporada de abril temos um segundo anime que trata do mesmo tema, mas de uma forma mais profunda e cuidadosa do que Koikimo. Sim, eu entendo que o problema é abordado, mas meio descuidado. Ryo não se priva de aceitar o que sente por Ichika, mas até mais da metade do anime o assunto não é abordado e acaba ficando mais no ambiente entre Rio, Ryo e Ichika. Salvo o pobre do Tamaru, um colega de escola da Ichika que é apaixonado por ela e se vê frente a frente com um rival impossível de ser derrotado.


Relações com uma grande diferença de idade se tornaram comuns no ocidente. Mesmo com todos os problemas que elas oferecem. A gente acompanha diversos realities na televisão que nos mostram um pouco mais desse tipo de relacionamento. E salvo raros casos, a maioria não dá certo. Isso acontece porque idade não é uma coisa apenas física, é também psicológica e social. Hoje eu tenho quarenta anos e não tenho a mesma mentalidade de quando tinha vinte. Meus dilemas e angústias são diferentes. Até mesmo o que eu valorizo ou simbolizo são aspectos diferentes da minha realidade. Por exemplo, eu tinha uma visão mais romântica do amor quando era mais jovem. Entendia uma mulher como um ideal a ser alcançado, e conseguir beijar ou ter relações com ela era o ápice da coisa. O que vinha depois não importava. À medida em que vamos ficando mais velhos, surgem outras preocupações como casa, estabilidade, filhos. O amor romântico é substituído por algo mais material e palpável. Lógico, não perdi o meu romantismo e acho fofo quando vejo duas pessoas predestinadas uma a outra se encontrarem ao som de uma música bonita no fundo. Mas, entendo que isso não é a vida real. Quando mudamos o gênero de uma pessoa, e passamos a enxergar o dilema que duas pessoas de gêneros diferentes precisando encontrar um ponto comum em sua relação, isso fica ainda mais complexo do que parece.


Voltando a conversar sobre o anime, vejam quantas diferenças Ichika e Ryo tem. Existe bastante deus ex machina (a famosa forçação de barra) na abordagem do autor. Basicamente, o que ele tenta nos dizer é que Ichika é vencida pelo cansaço e passa a enxergar Ryo de outra forma. Posso decorar essa relação com a cereja que for, que ele foi conquistando o coração dela aos poucos, que ele foi entendendo a necessidade de respeitar o espaço dela, mas no fim das contas, ela foi vencida pelo cansaço. A melhor ilustração do grau do problema é quando ela precisa lidar com o que ela sente pelo Tamaru. Ichika entende que Tamaru é alguém com quem ela pode conversar, que convive com ela diariamente, que faz parte do seu meio propriamente dito. E que Ryo é alguém estranho a esse meio e sequer tem os mesmos gostos que ela. Quando Matsumoto, uma colega de Ryo que é apaixonada por ele e se parece em parte com Ichika, entra na história, essa discrepância fica ainda mais grave. Porque isso só significa que Ryo precisa mudar a sua cabeça quanto às mulheres que o cercavam. Parar de entendê-las como objetos, prontas a satisfazê-lo. Quando sua mente muda, Matsumoto passa a brilhar ainda mais e provocar dúvidas em seu coração.



No fundo a questão para Ryo resolver para si mesmo é: estou atrás de Ichika porque a amo ou porque ela me rejeitou? É orgulho ferido ou amor sincero? Vou deixar essa para o pessoal que ainda não viu a série inteira curtir. E apesar de eu ter contado em parte algumas tramas da história, não contei nem 10% do que realmente acontece. Existe muito mais que Koikimo deixa para apreciarmos em sua narrativa. E digo mais: foi um dos meus animes favoritos dessa temporada. Sempre me divertia com suas confusões. Podem assistir tranquilos, mas não deixem de refletir sobre essas questões, caso contrário acabamos normalizando algo que não pode ser normal.



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