• Paulo Vinicius

Houve uma retração na fantasia? Na opinião dos influenciadores de conteúdo

Na parte final de nossa pesquisa sobre o estado da fantasia no mercado editorial brasileiro pedimos a opinião de blogueiros e booktubers além de nos posicionarmos a respeito desse espinhoso assunto.



Desde o mês passado temos feito uma série de matérias buscando respostas às alegações da editora Leya de que o mercado de fantasia no Brasil teria encolhido e por essa razão não havia público-alvo suficiente que justificasse um investimento de peso no gênero. Deixo a matéria publicada no Publishnews no mês passado para quem quiser conferir. Então questionei editores e autores sobre o assunto. Hoje é a vez das opiniões dos influenciadores de conteúdo. Inclusive da minha opinião. Os links para as matérias anteriores se encontram a seguir:


Houve retração na fantasia? Na opinião dos editores

Houve retração na fantasia? Na opinião dos autores



A pergunta foi a mesma e não houve nenhum corte ou edição na resposta deles.


Você concorda que o gênero de fantasia teve uma retração no Brasil? Que os fãs não justificam um investimento das editoras?


Paulo Vinicius F. dos Santos, editor do Ficções Humanas:


Discordo frontalmente. O gênero de fantasia é um gênero de nicho desde sempre. O Brasil nunca teve uma tradição de publicação de livros de fantasia como nos mercados europeu e americano. Tivemos momentos de boom quando houve o lançamento de Harry Potter e depois o de Game of Thrones. Mas, nunca passou disso. O que aconteceu com a Leya é um mal que assola outras editoras: a falta de preparo e de entendimento ao lidar com literatura de gênero. Nosso mercado editorial está acostumado com uma prática que não é saudável: o de aguardar o livro vender por si só. Pegar um best seller e esperar que ele se auto promova. Isso é feito desde sempre. Somente nos últimos anos é que surgiram excelentes profissionais editoriais que perceberam a necessidade de trabalhar as mídias sociais. Mas, ainda estamos a anos-luz de distância de um trabalho de excelência. Para vender qualquer produto é preciso fazer boa propaganda. Para mim, o modelo de trabalho de divulgação de literatura fantástica é o site da Tor. Eles produzem uma enorme variedade de materiais, desde leituras conjuntas até análises específicas de aspectos de um livro.


Okay... comparar o modelo da Tor com o brasileiro é quase chutar o saco do modelo de divulgação no Brasil, certo? Errado. Tem gente no Brasil que vende até picolé para esquimó. O Pipoca e Nanquim, que começou como um canal de Youtube voltado para quadrinhos e se tornou editora, faz um trabalho primoroso de divulgação. Detalhe: eles não se esquecem do catálogo deles. A todo o momento eles fazem links com materiais antigos deles, ou seja, o tempo todo todos os materiais deles estão vendendo. E são quadrinhos caros, voltados para o nicho do colecionador de quadrinhos. Querem números? Vamos citar números. Saiu uma matéria no Bom Dia Brasil citando que romances e quadrinhos foram os gêneros mais vendidos no Brasil durante a pandemia. Quadrinhos também são um gênero bastante nichado por aqui. E é um dos que mais sofreram reajuste de preços. Porém, números como os do Pipoca e Nanquim e do Comix Zone impressionam. A HQ do Máskara vendeu mais de 3400 em sua pré-venda. A HQ Grama está se aproximando de 4000. Na Comix Zone, Boca do Diabo tinha passado de 1000 na pré-venda e Paracuellos, 1200. Para mudarmos o mercado, precisamos saber trabalhar melhor o material que queremos vender. Saber vender o peixe. Não é fazer uma tiragem de 10000 e esperar que uma luz divina faça esses 10000 exemplares se venderem sozinhos.


Alexander Meireles da Silva, do canal Fantasticursos:


Essas declarações sempre precisam ser entendidas dentro de um contexto específico porque, caso contrário, mais prejudicam a compreensão do quadro geral da literatura fantástica no Brasil do que ajudam a entendê-lo.


Qual é o período considerado para se dizer isso? Os últimos cincos anos? A década passada? O primeiro semestre de 2020?


De qual fantasia conversamos aqui? Os livros de fantasia publicados pelas grandes editoras ou pelas pequenas e independentes? Essa fantasia que estaria em crise, é a de obras estrangeiras ou a de escritores e escritoras nacionais?


Começo com essas perguntas porque se estamos falando da publicação no Brasil de obras estrangeiras dessa vertente do fantástico por parte de grandes editoras. Então, sim, estamos em retração. Da mesma forma vemos retração com romances históricos, policiais, ficção científica, horror e de qualquer outro gênero.


Por que?


Por diferentes razões que demandariam outro texto, mas se ligam ao alto valor do preço de obras estrangeiras no Brasil por conta de tradução, direitos autorais, marketing e outras questões. Isso leva o leitor e leitora brasileira, que se apresentam como fãs e apreciadores dessas obras de fantasia, a esperarem que esses títulos entrem em promoção, levando prejuízo as editoras. Não há escala industrial que resista a isso.


Destaca-se aqui que as editoras grandes têm em comum a incompetência, sem eufemismos aqui, quanto a estratégias de divulgação do seu catálogo estrangeiro e na qualidade das edições. Sobre o primeiro ponto, eu nunca vi um trabalho de preparação do público leitor para o lançamento de uma obra estrangeira por parte de editoras tradicionais, com a exceção mais recente de uma editora mais nichada como a Darkside. No segundo caso, as edições não trazem atrativos para quem lê além do próprio texto. Nenhum texto sobre a importância da obra ou do autor, nada que agregue valor ao livro.


Faltam criatividade e cuidado em agradar o leitor e a leitora. E onde faltam criatividade e cuidado, sobra retração.


Neste sentido, quando se olha mais de perto, vemos que a fantasia e a literatura fantástica no geral estão, de fato, em plena expansão e não apenas em obras estrangeiras, mas principalmente nacionais.


E por que afirmo isso?


Fiz um vídeo no canal Fantasticursos no dia 26 de junho de 2020 de título “Literatura Fantástica vende ou não vende” onde listei 24 editoras independentes que vem mostrando o espaço real da literatura fantástica no Brasil.


Estas editoras pequenas vêm atuando em nichos específicos para um público que busca obras diferenciadas. São publicações diversas marcadas pelo cuidado editorial e textos de suporte para agradar tanto o leitor casual quanto quem pesquisa ou quer usar essas obras em sala de aula, divulgando sua importância para novas pessoas. É desta forma que o sistema se renova e cresce.


Neste universo, onde falta grana sobra a gana de fazer o melhor possível gerando um engajamento do público com as diferentes etapas da publicação, apontando também a razão daquela obra ser publicada. Enquanto as editoras grandes vendem livros, as editoras pequenas vendem histórias.


Por essa razão, a Fantasia, ao lado do Horror, do Gótico e da Ficção Científica no Brasil e do Brasil não apenas cresce, mas se diversifica, mostrando que a grandeza do Fantástico no Brasil está nas pequenas editoras.


Rodrigo Basso, do site Leitor Cabuloso e dos podcasts Covil de Livros e Perdidos na Estante:


Eu não saberia afirmar se houve um retração do gênero na questão de vendas e procura por fantasia, seria necessário verificar junto às livrarias e editoras. Agora, mesmo que isso tenha ocorrido, me parece muito simplório afirmar que é por falta de demanda dos leitores.


O que eu veja a minha volta não condiz com essa afirmação da Editora Leya. Trabalhando no site do Leitor Cabuloso eu vejo que as resenhas de livros fantásticos e de ficção científica são os que possuem maior número de adeptos. Nos podcasts vejo o mesmo fenômeno: uma adesão fiel ais títulos de fantasia, com um bom público ouvinte, se comparado aos outros gêneros literários.


Observando os produtores de conteúdo ao meu redor, sejam blogs, podcasts, canais de YT etc, a produção de material sobre esses gêneros também não diminuiu. Claro que há uma onda crescente pelos YA, mas não vejo isso afetando o público já existente que consume F&FC.


O que eu percebo (e muito) é que não há um empenho das editoras em anunciar os livros e gerar interesse/engajamento do público. Há todo um apelo que essas obras trazem com suas tramas épicas que geram enormes comunidades para discutir teorias, principalmente em torno dos produtores de conteúdo. Vide The Song Of Ice and Fire (com os fãs rezando para que o Martin não morra antes de escrever o sétimo livro), A Crônica do Matador do Rei (com o Rothfuss sendo incessantemente cobrado para terminar a trilogia) ou a própria A Roda do Tempo, que encomendou que os últimos livros fossem escritos pelo Brandon Sanderson após a morte do Robert Jordan, tamanho era o furor do público pela saga.


O que falta é investimento das editoras em criar esse público e manter uma relação com a comunidade de leitores, seja através de ações da própria editora, seja com as parcerias com produtores de conteúdo. Achar que possuir os direitos de publicação dos livros é garantia de venda, me parece um erro muito juvenil. Livro é produto e nenhum produto se vende sozinho.


AJ Oliveira, autor e podcaster de Os 12 Trabalhos do Escritor:


Retração? Beleza, vamos iniciar a resposta acreditando que esta informação seja verdadeira. Então, ficam aqui alguns questionamentos.


1- Quando foi que a fantasia esteve em alta no Brasil?

2- Por quanto tempo?

3- Dava pra perceber isso pela venda de mais de um livro?

Se a resposta das duas primeiras tem a ver com Harry Potter, ela acaba de morrer aqui.


Quanto o assunto surge — e tem surgido com bastante frequência —, gosto de fazer estas perguntas exatamente por pensar que nunca tivemos, de fato, esse SUPER BUM lendário de literatura fantástica. E está tudo bem nunca ter havido, pois tanto a academia quanto o nosso minúsculo mercado nunca mexeram sequer uma palha para que algo assim pudesse acontecer.


“Ah não, mas na época do Harry Potter...”


Certo, pensei que já havíamos falado disso, mas vamos lá. Será que é certo colocar na conta do nosso cenário de literatura BR as vendas de uma obra pontual, que explodiu no mundo inteiro por causa do cinema? Digo, obviamente Harry Potter já era um sucesso antes de ir para o cinema, mas quando uma obra transmidiática repercute, independentemente do gênero, as pessoas são movidas pela curiosidade e vão atrás dos locais de origem. Isso aconteceu com o Camaro Amarelo, com o Cachorro Caramelo e com os óculos bregas de Matrix, então não foi um desafio também rolar com um bruxo e uma escola de magia nas mãos. Logo, os filmes alavancaram as vendas.


E até aí tudo bem, só que para dizermos que ali foi a era de ouro da fantasia no Brasil, precisamos acreditar que outras obras também conseguiram vender pelo menos metade do que Harry Potter vendeu, e sabemos que isso não rolou. Para ilustrar meu argumento, não são raras as conversas com autores de fantasia daquela época que, até hoje, relatam sobre como era difícil vender seus próprio livros para o leitor que entrava nas livrarias com o chapéu seletor na cabeça. Era uma verdadeira febre bruxa. As pessoas iam para comprar Harry Potter, pois o personagem era o amigo pessoal delas. Elas decoravam feitiços e mal viam a hora de irem a eventos bruxos para dizê-los em voz alta. Esse público não queria comprar o Tolkien, mesmo com o filme saindo naquele mesmo ano, elas queriam ler sobre a sua casa bruxa favorita.


E embora tudo isso seja mágico, e obras como Harry Potter, Game of Thrones, Jogos Vozares ou Crepúsculo pertençam ao insólito, não é por que obras pontuais vendem que a fantasia em geral também o faz. Para que essa migração ocorra, é necessário um trabalho de marketing que convença o leitor de que há outros mundos a serem explorados. E é este o grande problema da coisa em si.


Sei lá, do pouco que entendo de marketing, acho estranho o conceito de editora cujo maior esforço para vender seu mega-best-seller se resuma ao tamanho do nome do autor na capa (isso quando o plano não é criar uma edição de colecionador quando sai um filme ou uma temporada da série). E sim, editora Leya, estou falando da senhora, que criou um selo de literatura fantástica na época do suposto “BUM DA FANTASIA” e geriu a coisa bem a ponto do coitado surgir natimorto. E é aí que a coisa fica um pouco mais difícil, dando a entender que é mais simples viver das migalhas do Marketing de Hollywood do que investir na criação de leitores interessados no que está além dos cartazes do Cinemark. Qual a diferença entre esse modo de ver o mercado e o senhor texano da década de 60 sonhando com um poço de petróleo no quintal? E melhor, se você não investe em novos leitores e novas obras, como vai fazer quando o George Martin ou o Brandon Sanderson já tiverem sido consumidos pelo público? A resposta já nos foi dada, e a culpa é da própria editora.


Diogo Ramos, editor do site e da revista digital A Taverna:


Mergulhei de cabeça no mercado editorial em 2019, com o lançamento da primeira edição da revista A Taverna. Antes disso, tinha apenas colocado a ponta do pé com uma publicação independente em 2017.


Se eu concordo que o gênero de fantasia sofreu uma retração no Brasil? Gostaria muito de poder responder com propriedade no que diz respeito ao panorama geral, mas me falta bagagem. Mesmo que não fosse o caso, sei que dependendo de para onde eu decidisse olhar, a resposta iria variar.


Sendo assim, decidindo olhar para o mercado de ficção curta, fatia de suma importância para fomentar o surgimento de novos leitores, escritores e editores, posso dizer que o gênero está passando por um bom momento. Digo isso tendo como base as iniciativas que vi surgir nos últimos anos, sejam elas revistas ou outros modelos de publicação.


Falando em revistas, um olhar focado apenas na revista A Taverna me permite afirmar que o futuro é promissor. Desde o lançamento da segunda edição, já somos capazes de remunerar os autores e ilustradores apenas com os valores recebidos por meio das vendas da revista na Amazon. Entretanto, é preciso ressaltar que ainda há muito a ser feito. Pretendemos, em breve, aumentar de maneira gradual a remuneração de todos os envolvidos e remunerar os membros da equipe.


Após quatro temporadas de submissões, já contabilizamos mais de mil e trezentas obras recebidas (metade delas de fantasia). Como nosso modelo atual permite apenas a publicação de, no máximo, dez contos ao ano, fica evidente a necessidade do surgimento de outras publicações. Ou seja, mesmo com a existência d'A Taverna, da Mafagafo, da Trasgo (todas revistas que publicam fantasia e remuneram os autores publicados), e outras que também fazem um trabalho incrível, ainda há espaço para mais.


Torço para que, dentro dos próximos anos, tenhamos um mercado de ficção curta diverso e amadurecido que sirva como um dos caminhos para fortalecer a produção nacional.


Por fim, não saberia dizer se o gênero sofreu retração dentro da perspectiva das grandes editoras. Agora, quando se trata de ficção curta, retração está longe de ser uma realidade no momento.


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