• Paulo Vinicius

Hortensia Saga: clichê, e daí?

Nesta temporada de início de 2021, uma humilde série passou longe dos holofotes dos espectadores. Hortensia Saga é uma animação sobre um cavaleiro e uma princesa em perigo. Mas, mesmo com todos os clichês, é uma história com densidade e profundidade. Conheçam-na nesta matéria.



Adaptações em anime de games sempre são uma roleta russa. Ou é alguma coisa legal ou um desastre absoluto. Temos ótimos exemplos dos dois lados. Seja uma série Tales of que são esquisitas na forma da adaptação, ou Granblue Saga que não tem final ou até a bem-sucedida série Fate e suas dezenas de spin-offs. Hortensia Saga original é um game free-to-play produzido pela Sega e pela f4Samurai. Um game de 2015 que foi adaptado para uma animação na temporada de janeiro de 2021 pelo estúdio Liden. A direção da série é de Yasuto Nishikata com design de personagens feito por Takayuki Onoda. A série teve doze episódios.


A história tem como protagonistas a princesa Marielle e o jovem Alfred, senhor de Albert. Em uma terrível noite chuvosa seres malignos atacam o castelo do reino de Hortensia levando o caos por todo o reino. O rei acaba morrendo nas mãos de um misterioso ser lupino que rasga todos os soldados de elite com suas garras. O pai de Alfred, Fernando e o cavaleiro Leon também caem nas mãos dos atacantes. Apenas o cavaleiro Maurice consegue tirar Marielle do castelo e levá-la para as terras de Albert onde eles encontram o casario onde vive o pequeno Alfred. Maurice disfarça Marielle de menino e o emprega como escudeiro de Alfred. Marielle, agora Marius, cresce com essa mácula no coração, tendo deixado o irmão para trás, este caindo nas mãos do ganancioso papa Alexi Valdebron e do cavaleiro negro Didier. Vários anos se passam e Alfred agora é o cavaleiro protetor de suas terras. O surgimento de uma praga petrificante coloca Alfred na mira do reino de Camelia, outrora aliado de Hortensia e agora inimigo. Por trás de tudo isso, monstros lendários vindos da misteriosa terra de Magonia tem assolado o reino.


Falando da animação, ela é bem feita, sendo que o estúdio Liden tem um bom número de bons materiais em seu catálogo. Os cenários remetem a jogos de RPG mesmo, como Dragon Quest e Final Fantasy. Castelos enormes, florestas verdejantes, descampados. Tem uma boa variedade de cenários espalhados pelos episódios. Apesar de ser uma série de fantasia, curiosamente esta aparece de forma esparsa. Quando aparece meio que rouba a cena como um imenso dragão vermelho (e que não foi feito em computação gráfica, por incrível que pareça). O design de personagens é bem comum, sem grandes detalhes. Gostei de como a produção incorporou armaduras pesadas e fez com que elas parecessem ser bem leves e capazes de bons movimentos. Temos algumas boas cenas de exércitos sem enfrentando e isso acontece sem confusões de cena. A ação é bem frenética com diferentes tipos de soldados entrando em rota de colisão.



O principal ponto de ligação da série é a relação entre Marius/Marielle e Alfred. Depois da perda de seu pai, Alfred precisou amadurecer rápido demais. Colocando a responsabilidade dos camponeses sob seu governo, nem sempre Alfred pode fazer aquilo que ele imagina ser justo. Um líder precisa tomar decisões difíceis e ele descobre rápido o quanto estas podem ser dolorosas. Em habilidade ele ainda tem muito a aprender como ele descobre logo no primeiro episódio quando encara o arqueiro Roy. Marius é uma pessoa que aprendeu a respeitar Alfred como alguém muito próximo a ela. Ambos passaram por uma enorme perda juntos e aprenderam a conviver como companheiros. Alfred tem um certo envolvimento com os cavaleiros eclesiásticos, cujo líder é Didier que possui estranhas maquinações. Aliás, a Igreja se revela uma instituição repleta de mistérios sombrios que vão se empilhando uma após a outra e envolvendo o território de Albert em uma situação bastante perigosa.


Marius tem a sua situação de exilada como algo que vai martelar em seu coração pela série. Apesar de ela confiar em Alfred, ela não deseja colocá-lo e as suas terras em risco por conta da perseguição feita pelo papa. O seu irmão se tornou uma marionete nas mãos dele e é governante apenas no nome. A situação vai se apertando cada vez mais e ela percebe que não vai conseguir esconder sua identidade por muito mais tempo. Principalmente quando surgem boatos de que existe uma princesa Marielle reunindo soldados e seguidores para defender uma pequena ilha de invasores. A princesa vai precisa reunir forças para decidir o que fazer a seguir: lutar pelo seu reino ou permanecer incógnita.


No fundo disso tudo, Alfred e Marius conhecem Adelheid, filha do cavaleiro Leon, um dos que morreram durante o fatídico ataque ao castelo. Ela é a princesa guardiã do domínio de Olivier, um dos feudos que, assim como Albert, servem a Hortensia. Mas, Olivier é conhecida pelo seu exército profissional e algumas diferenças entre Adelheid e Didier a colocarão em perigo. A personagem ainda não se sente a altura para honrar o legado de seu pai, um dos melhores cavaleiros do reino. Ao conhecer Marius e Alfred, ela percebe que existe mais pelo que lutar. O poder dos cavaleiros eclesiásticos tem se colocado mais e mais em proeminência e ameaçado invadir aqueles que não respeitarem sua autoridade. Quando um desentendimento faz com que Didier vá prendê-la somente a astúcia de Alfred poderá salvar o domínio de Olivier.


O anime não tem um roteiro espetacular. É a boa e velha história do bem versus o mal. De um cavaleiro que precisa atravessar a jornada do herói para conseguir cumprir suas missões. Ele passa por algumas dúvidas onde ele precisará crescer e amadurecer como personagem e salvar o reino de forças malignas. Marielle é a futura rainha de Hortensia e começa como uma escudeira aprendendo sobre as dificuldades vividas pelo reino de Albert. Ter passado por um terrível trauma e deixado o irmão para trás coloca um peso em sua consciência e uma missão que ela precisa cumprir em algum momento. A narrativa é conhecida, mas como o autor e o diretor conseguem fazer isso funcionar em uma trama coerente é que é o segredo. Junto disso, apresentar os personagens como interessantes e fazendo os espectadores se importarem com seus problemas. Despertar a empatia é o grande tchan de um anime de sucesso. Se os personagens fossem chatos, ninguém daria a mínima. Por exemplo, Alfred tem tudo para ser um personagem chato: o típico nobre cavaleiro virtuoso. Mas, a maneira como ele sabe agir como um líder e tomar decisões difíceis ao mesmo tempo em que mantém a sua visão de justiça o torna uma pessoa repleta de camadas.



O enredo de traição e conspiração também é bem conduzido. As coisas não são apresentadas para nós de uma só vez. Pouco a pouco os problemas vão se empilhando e a percepção de perigo vai ficando cada vez maior. Os vilões não são "vilanescos"; só vamos conhecer suas motivações em episódios mais avançados da série. E mesmo assim o objetivo deles é sutil até que a bomba estoura de vez. Só sabemos que algo estranho acontece com o papa e Didier. Os seres magonianos também são inseridos na trama através de experiências e de ataques a pequenas cidades. Muitos mistérios rondam a trama e isso é o que nos mantém presos à narrativa.


Para mim, esta é uma animação que merece cinco minutos da atenção de vocês. O mangá ainda é recente, mas o anime tem sido adaptado a partir do roteiro do jogo de celular. Ou seja, boa parte é material original e tem tido uma boa aceitação do público. O ritmo da narrativa é constante e sempre tem algum detalhe sendo inserido em todos os episódios. Começa sendo uma história simples e vai ganhando camadas rapidamente até se tornar algo que envolve um elenco até grande. Confiram o anime! Vai valer o seu investimento.





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