• Paulo Vinicius

Ascensão e queda dos Heike

Durante as Guerras Genpei, no século XI, no Japão, dois clãs (os Taira ou Heike e os Minamoto) disputam o controle do trono do imperador. No meio de tudo isso, temos a jovem Biwa, uma menina com um olho que tem o poder de ver o futuro.


A ambição por tornar a sua linha reconhecida além dos limites do tempo e do espaço pode ser um ótimo objetivo para viver. Isso quando feito corretamente. Quando os objetivos passam do tom e os sonhos se transformam em violência e inveja sem sentido, o universo tem o dom de nos fazer pagar pelos nossos pecados. Mas, e se você fosse apenas um espectador e estivesse próxima de pessoas que lhes são queridas, soubesse o que iria acontecer a seguir e nada pudesse fazer para impedir? Ter a capacidade de prever o futuro pode ser uma benção e uma maldição a partir do momento em que os deuses não lhe permitem agir em favor dos seus. Esta não é apenas a história da ascensão e queda do clã dos Taira, mas de uma menina cuja inocência e dom para música serão sobrepujados por uma narrativa que vê um clã antes impressionante ser devorado de dentro para fora por conta de objetivos mesquinhos.


Heike Monogatari é uma animação baseado em um pergaminho antigo que conta a história dos Heike (o clã Taira) que governou o Japão na era Heian. O estúdio que o produziu é o incrível Studio SARU que vem se destacado com produções fora da caixa como Devilman Crybaby, Eizouken e Ping Pong. Só isso já deixaria o anime em um patamar e com um hype mais elevado do que os demais, mas a equipe de produção também é bastante competente. A diretora é a experiente Naoko Yamada (que esteve nas produções de Clannad, Free, K-On e um episódio de Violet Evergarden) e dá para perceber alguns traços típicos de suas produções. Só achei curioso porque a diretora não tinha experiência com animes com essa temática histórica e ela foi surpreendentemente bem. A roteirista é outro "monstro" na montagem de scripts tendo sido responsável, por exemplo, por Bakuman (sim... das três temporadas), Aria the Animation (um anime que eu particularmente adoro), Blood + e... Dragon Ball Z (é uma das roteiristas principais). Ou seja, tecnicamente o anime estava muito bem servido e conseguiu entregar algo bem acima de qualquer expectativa. A estratégia de começar os episódios antes do final da temporada anterior foi favorável ao anime que já estava no embalo enquanto outros animes começavam sua exibição. A animação teve onze episódios.


Essa é uma narrativa baseada em acontecimentos históricos que se sucederam no século XI quando os Taira adquiriram poder demais e acabaram sendo suplantados pelos Minamoto. A estratégia dos Taira até ali era colocar o máximo possível de parentes e familiares em cargos próximos ao imperador para adquirir o controle da corte. Até o ponto em que o próprio imperador havia se tornado uma marionete nas mãos do chefe do clã. Nesse momento algumas famílias dissidentes, incomodadas com os abusos de poder dos Taira se organizam para poderem tomar a capital. A situação se agrava quando os Taira se tornam inimigos dos monges budistas que tinham bastante autoridade na época. O incêndio na cidade de Nara que levou à destruição da grande estátua de Buda é o estopim para uma revolta maior. Nossa protagonista é Biwa, uma menina que teve seu pai morto pelos Taira enquanto tocavam seus instrumentos de cidade em cidade. A menina possui uma heterocromia (olhos de cores diferentes) sendo que um deles dá a ela a capacidade de ver o futuro. Isso acaba levando-a até a casa central daqueles que assassinaram seu pai. Lorde Shigemori, o chefe militar do clã acaba por adotá-la e a trata como uma filha e ela passa a viver junto de Koremori, Kiyotsune, Munemori e Tokuko enquanto observa os dias finais de um grande clã.


Temos que falar dos detalhes técnicos porque o studio SARU fez um trabalho de animação bem fora do padrão do que estamos acostumados. A animação é extremamente fluida a ponto de ser quase um borrão em alguns momentos, dando um aspecto estilizado e suave às cenas. Gosto bastante do design dos personagens que segue aquele tom mais histórico com os chapéus, as roupas, a tintura. Biwa é representada com roupas meio masculinas para protegê-la de outros homens interessados nela. Então as roupas que ela usa são meio neutras, mas não deixa de ter a sua graça. Toda a palheta de cor é em cores pastéis o que contribui ao lado do enredo para dar uma suavizada a um romance que é claramente decadentista e trágico. Há um uso e abuso do rosa, do azul-claro, do branco o que chama a atenção do espectador. Os cenários amplos são magníficos e aliados a essa explosão de cores faz com que nos percamos curtindo o visual desse Japão medieval. Só um adendo que é o fato de o período abordado é um pouco anterior à famosa era Nobunaga e até o período pré e pós-Revolução Meiji com o qual somos mais familiarizados. Então temos um Japão bastante ligado a costumes tradicionais e à religião que possui bastante importância. Isso é representado de forma fiel nas cidades, nas vestimentas e na maneira como as várias classes sociais se diferenciavam.


Outro ponto alto da série é a trilha sonora. Aí eu preciso entrar um pouco na história já que música e narrativa se mesclam nesse ponto. A protagonista tem o nome de Biwa por causa do instrumento musical em si e seu pai nunca havia dado um nome a ela. Biwa e seu pai andavam de cidade em cidade como músicos itinerantes, lembrando que, assim como acontecia com os tocadores de shamisen, normalmente pessoas cegas é que adotavam essa profissão para ter o que comer. Heike Monogatari emprega bastante o som da biwa, os versos musicais e até mesmo o haiku para conduzir a narrativa. Temos uma figura mítica que representa um narrador celestial que conta alguns acontecimentos trágicos e importantes nas cordas da biwa. As composições empregam acordes orientais típicos e não foge em nenhum momento disso, tirando a canção de encerramento que tem um mix de sons tradicionais e contemporâneos. Nos aspectos técnicos, a série dá um show e a música de abertura da série é a minha favorita da temporada, disparada.


Somos conduzidos à vida dessa perigosa família através dos olhos de Biwa que passa a habitar a moradia daqueles que fizeram mal a ela. Shigemori se compadece do destino que ele indiretamente impôs em sua vida e a trata com carinho e respeito. Aos leitores, não pensem que o aspecto colorido e alegre da animação fazem da narrativa leve e divertida. Muito pelo contrário, ela começa seguindo um ritmo lento e nos colocando no cotidiano dos Taira até que vemos pequenas coisas acontecendo que nos dão um indicativo de que coisas piores estão por vir. Os poderes de Biwa permitem a ela entender um pouco o que pode vir a acontecer com cada um dos membros da família, mas as visões são tão horríveis e trágicas que ela decide não usar sua habilidade o máximo que ela puder. Já que ela não tem como modificar o destino daqueles que a cercam, de nada adianta sofrer por isso. Biwa procura aconselhar sempre que pode, mas ela se dá conta de que o que vai acontecer a eles é um mandato dos deuses. Não cabe a ela questionar ou interferir. Então temos uma protagonista que funciona mais como uma observadora. Sem falar que ela ainda guarda na memória a morte injusta de seu pai, por mais que ela desenvolva afeto pelos membros da família.


Shigemori funciona como o compasso moral dos Taira. Um homem justo, equilibrado e que procura o bem de todos, para aqueles que o cercam e para aqueles que ele administra. Mesmo que isso o coloque eventualmente em rota de colisão com o chefe da família, o ambicioso e divertido Kiyomori. A revolta dos monges também se torna algo mais complicado de se resolver, principalmente a partir do momento em que Kiyomori deseja mudar a capital para a cidade de Fukuhara onde ele pretende construir um enorme porto. As decisões de Kiyomori vão ficando cada vez mais difíceis de serem levadas a cabo e os jogos de corte vão se tornando agressivos a ponto de Shigemori não mais conseguir evitar as transgressões de seu líder. Temos duas facções lutando entre si que deveriam estar unidas na corte: o imperador Go-Hirakawa que está para indicar o príncipe Norihito como seu sucessor e Kiyomori que arranjou o casamento de sua filha Tokuko com Norihito de forma a conseguir controlar o trono do Japão após o nascimento de uma filho nascido dessa união. Mas, Shigemori percebe rapidamente que isso não vai dar certo.


Biwa faz amizade rapidamente com Koremori, o primogênito de Shigemori e a jovem Tokuko que teve seu destino decidido por ela. É triste ver o quanto Tokuko precisa sacrificar pelo bem da família. Mesmo com sua beleza e seus talentos, Tokuko não cai nas graças de Norihito que mantém um casamento apenas de aparências. Sua traição é sabida por ela que apenas se submete e torce para não haver um conflito entre clãs poderosos. Só que pouco a pouco as relações entre a corte principal e os Taira vão ficando mais difíceis e isso leva a uma personagem que se situa no meio do furacão. Quando nasce o seu filho, o pobre menino está em uma encruzilhada rodeada por uma guerra que estoura por toda a parte. A pequena Biwa sabe o que irá acontecer a Tokuko e seu filho e se entristece ao perceber que ela não tem nada a fazer por duas pessoas que ela tem um carinho tão grande.


O mesmo pode ser dito de Koremori, um jovem garoto delicado que sendo o primogênito tem enormes responsabilidades com o seu clã. Um jovem que gosta de apreciar a natureza, estar com sua família, meditar. E que se vê sendo arrastado para a guerra. Uma das cenas mais bizarras quando conhecemos mais os membros da família de Shigemori, é ver Koremori usando uma armadura de guerreiro. Sabe quando algo não combina com uma pessoa? É basicamente isso e por ser um indivíduo tão doce e delicado, que se assustava com mariposas no jardim de seu pai, entendemos como vai ser a sua carreira militar. Embora tenha todas essas coisas contra ele, Koremori procura ser fiel ao seu clã, tentando ir contra seus princípios pelo bem da família. Ele se obriga a se transformar em uma pessoa violenta, a ser um comandante de homens e isso provoca uma tristeza profunda em seu coração.


Nessa temporada de outono do Japão, posso dizer com segurança que Heike Monogatari se não for o melhor novo anime, está entre os três melhores. Com um nível de produção bem acima da média, uma história tradicional para o povo japonês, o studio SARU consegue nos surpreender positivamente. Uma pena que a história tenha apenas onze episódios, mas consigo entender o motivo, e até considero ser de bom tamanho no fim das contas. Melhor ser direto e objetivo do que enrolar em tramas que não levam a lugar algum. Recomendadíssimo a todos os fãs de animes japoneses até para conhecer um pouco mais sobre a cultura e a história do Japão.



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