• Paulo Vinicius

As 10 Melhores Histórias de Fantasia e Ficção Científica Africanas de 2016

Por Wole Talabi. Original em: https://wtalabi.wordpress.com/2016/12/10/my-favorite-african-science-fiction-and-fantasy-afrosff-short-fiction-of-2016/ Traduzido por Paulo Vinicius F. dos Santos.

Wole Talabi selecionou os dez trabalhos mais marcantes de fantasia e de ficção científica africanos. São livros que dificilmente verão o mercado norte-americano. Mas por que não conhecê-los? Segure a mão de Talabi e deixe-o apresentar a estes fantásticos títulos.

Masai Cyborg (Image Credit: Rodrigo Galdino – https://www.artstation.com/artist/rodrigogaldino)

Acredito que 2016 foi outro bom ano para a ficção especulativa africana, explorando a existência em formas estranhas, interessantes e maravilhosas.

Este ano, a Sociedade de Ficção Especulativa Africana (ASFS) foi criada, o prêmio Nommos para ficção especulativa foi anunciada, Nnedi Okorafor (Nigéria/EUA0 ganhou tanto o prêmio Nebula quanto o Hugo por melhor Novella, Acan Innocent Immaculate (Uganda) ganhou o o prêmio Writivism por História Curta com uma história de ficção científica fantástica, o romance de ficção especulativa escrito por Lesly Nneka Arimah (Nigéria) foi indicado para o Prêmio Caine, Walter Dinjos (Nigéria) ficou em segundo lugar no concurso L.Ron Hubbard para Escritores do Futuro, as novelas de Unathi Maguben e Andrew Miller (ambos da África do Sul) que eram ambos trabalhos especulativos foram indicados para o prêmio Etisalat de literatura, a revista Omenana está agora em sua oitava edição, AfroSFv2 (editada por Ivor Hartmann) e African Monsters (editado por Margaret Helgadottir e Jo Thomas) ambos publicados em dezembro de 2015 continuaram a fazer as honras e ganhar boas resenhas, existem novas novelas excelentes escritas por Sofia Samatar (Somália/EUA), Tade Thompson (Nigéria/Grã-Bretanha) e Nick Wood (África do Sul), uma nova coletânea organizada por Lauren Beukes (África do Sul) assim como um grupo de africanos em destaque em grandes revistas de ficção de gênero e antologias como a Clarkesworld, Strange Horizons, Apex, Lightspeed... e a lista continua. O ano também viu a publicação mundial da antologia Imagine Africa 500 editada por Billy Kahora (Quênia) e publicada por Shadreck Chikoti (Malawi).

Tudo isto significa que existe muito material a ser considerado para o recém-criado prêmio Nommo este ano. O que é excelente.

Pessoalmente, sou um grande fã de ficção curta. Leio muito mais histórias curtas do que romances. Também escrevo ficção curta. E como eu mencionei no ano passado, eu realmente gosto de listas e recomendações de Melhores Histórias de Fantasia e Ficção Científica. Encontrei em listas como estas algumas de minhas histórias favoritas.

Então, por conta de todas estas novidades e com o intuito de gerar discussões e análises de histórias de ficção especulativa africanas em geral, aqui estão as melhores histórias curtas de ficção especulativa africanas de 2016, em nenhuma ordem específica.

***“Ndakusawa” de Blaize Kaye (South Africa), Fantastic Stories of the Imagination  Esta história de amor, perda e maternidade belamente criada é como um tiro no coração. Com menos de duas mil palavras, é a menor história desta lista é de longe uma das minhas favoritas. Esta é a história universal de uma pequena família sul-africana - um homem e sua filha brilhante e curiosa cuja inteligência lhe abre oportunidades que continuam a manter distância entre eles tanto fisicamente quanto emocionalmente. No final, a distância física se torna incrível, e apenas a sua mente científica brilhante que pode fazer com que eles fiquem juntos novamente. Altamente recomendada e estará na minha lista de indicações para os Nommos, talvez até mesmo para o Hugo.

Preciso dizer, Blaize Kaye parece ser um expert em criar histórias curtas que dão um soco no estômago - você deveria também olhar o seu “Revision Theory” in Nature, e“Return to the Source” in Zetetic.

2 - Transit” de Derek Lubangakene (Uganda), Imagine Africa 500  

Um dos meus favoritos nesta antologia. Passado em Kampala, quinhentos anos no futuro, este é um thriller repleto de ação, com uma escrita dinâmica e um conceito claramente retirado das histórias pulps com um mundo muito bem construído servindo como contexto para a história. Não existem "infodumps" ou "como-você-deveria-saber" que algumas das outras histórias sofrem de mas existe o suficiente para o leitor descobrir o que está acontecendo e curtir a jornada. Neste mundo, todos os homens do continente se tornaram impotentes, e A Hegemonia, governada por mulheres, controla tudo. Mas quando um homem descobre que tem um filho, ele pede a ajuda de sua mãe que costumava trabalhar para a Hegemonia para levar a criança a um lugar seguro. Temos dróides, armas de fótons, aparelhos de teleporte através do deslocamento molecular e muito, muito mais. A história é tão divertida com ação em cada página e também uma virada muito legal no final. Também gostei do mundo no qual a história se passa como uma distopia totalmente invertida e embora exista um protagonista, ninguém é apresentado como bonzinho ou malvado. Muito recomendado.

3 - "The Mama Mmiri” de Walter Dinjos (Nigeria), Beneath Ceaseless Skies

Walter Dinjos, segundo lugar na Competição Escritores do Futuro, apresenta esta história de um gêmeo buscanco vingança contra um homem que sacrificou o seu irmão gêmeo para o espírito de um rio onde uma ponte está sendo construída por estrangeiros da Inglaterra. Dinjos faz um grande trabalho ao criar suspense e mostrando como as pessoas da vila estão sendo traídas por um dos seus para o benefício de estrangeiros, algo que ecoa a experiência colonial. Embora a história seja linear e o vilão parece muito caricato, a qualidade da escrita e dos elementos espirituais, emocionais, do horror, da fantasia, do colonialismo e da vingança criam uma história poderosa. Recomendado.

4 - "Dream-Hunter” de Nick Wood (South Africa)Omenana Issue 6

Podemos sempre contar com um doutor de psicologia clínica e escritor profissional como Nick Wood para nos entregar uma história complexa, socialmente consciente e intensa com uma simbologia poderosa e perturbadora e ainda fazer dela uma leitura excitante e divertida. Nesta história, o protagonista é um caçador de sonhos mestiço (pai inglês, mãe zulu) com um passado complicado, que trabalha para o Departamento de Justiça na Inglaterra, usando a tecnologia para entrar no subconsciente das pessoas para encontrar evidências de que eles cometeram ou não um crime. Entretanto, nesta missão em particular quando ele entra nos sonhos de um assassino brutal "Marreta Jones", que é acusado de matar sua esposa, nosso protagonista precisa lidar com partes obscuras dele mesmo.

Nos sonhos perturbadores deste homem, seu passado, seus próprios conceitos de certo ou errado, violência, vingança, culpa e até mesmo a justiça são colocados em xeque. É uma história brilhante e quando a li imediatamente na revista Omenana, eu sabia que ela estaria na minha lista de favoritos no final do ano. Muito recomendada e possivelmente estará na minha lista de indicações para os Nommos.

5 - "Virtual Snapshots” de Tlotlo Tsamaase (Botswana),Terraform 

Nesta história metafórica que se passa em uma Botswana no futuro, problemas ambientais extremos tornaram a vida muito difícil no mundo real e então muitas pessoas colocaram seus corpos em um tipo de stasis e são transportados para uma existência virtual chamado digimundo. Isto mantém o custo de sua existência muito baixo. Para voltarem a andar pela Terra, alguém precisa pagar por tudo... água limpa, água, proteção contra os raios ultravioleta, tudo.

A protagonista é uma mulher jovem que não é amada de fato por sua família e mal consegue sustentar sua vida no digimundo, mas é convocada para fora do digimundo em direção ao mundo real onde sua mãe fica doente. Nós a seguimos em sua jornada e sua relações com sua família que não são o que esperamos. A história é terrivelmente triste e sombria, mas bonita e cheia de simbolismos maravilhosos. Pode não ter um enredo certinho ou um conceito central bem formado, mas como uma metáfora para a vida moderna, a exploração social, as relações familiares e a luta de um indivíduo para trilhar seu próprio caminho neste mundo e encontrar um lugar em sua família e na sociedade, ele funciona brilhantemente, muito pelo fato de a escrita ser tão poética e honesta. Recomendado.

6 - "One Wit’ This Place” de Muthi Nhlema (Malawi), Imagine Africa 500  

Depois de algum tipo de guerra que durou quinhentos anos, no futuro onde geo-engenheiros não conseguem salvar o mundo de uma mudança climática devastadora, um soldado volta para casa com a sua mulher. Ele está traumatizado, ela esconde um segredo e a Terra está mudando de formas terríveis que afeta as suas vidas para o pior. O começo é emocionante, a caracterização é perfeita e os temas - guerra, amor, morte, casa, mudança climática e infidelidade - são explorados através das relações entre o casal de maneira brilhante. Uma das coisas que eu mais gostei nesta história foi o uso de uma linguagem evoluída - parte pidgin, parte palavras truncadas (por exemplo Oce significa Oceano, e Sah é deserto). É claro que a linguagem daqui a quinhentos anos será diferente da maneira como é agora e ela é criada muito bem, então o leitor nunca fica perdido. O final é trágico, mas merecido e cada aspecto da história possui uma beleza infeliz. Altamente recomendado. 7 - "SunDown” de Acan Innocent Immaculate (Uganda), Munyori Literary Journal 

SunDown é um conto fascinante de ficção científica fantástica que conta a história de Sol Vermelho, um jovem garoto albino esperando a morte do sol em Nakasongola, uma região remota de Uganda. A história acontece no ano 2050 e parte da humanidade já fugiu da Terra que certamente será destruída junto com o sol mas apenas o "tipo certo" de pessoas, "gênios com genes perfeitos" foram autorizados nas naves espaciais para buscarem uma nova casa. Sol Vermelho e outros deixados para trás possuem características que aparentemente não são "corretas". A partir disso a história explora a perda, a ciência, a religião, o abandono, a mortalidade e o que significa ser humano, através das memórias de Sol Vermelho e de suas interações com os outros que foram deixados para trás. É uma história muito reflexiva que se destaca pelo seu clima e sua sensibilidade (nenhuma razão é dada para o motivo do sol estar morrendo cinco bilhões de anos antes do que imaginávamos ou por que a Terra sobreviveu à evaporação dos oceanos durante o início da fase vermelha do sol ou por que ele entra em colapso em um buraco negro quando nosso sol não possui massa suficiente para sequer se tornar um buraco negro etc, etc, etc). Mas quem se importa? Sol Vermelho, Nyambura, Askari, O Anão, estes são todos grandes personagens, a escrita possui uma confiança inerente, bonita, agradável e o tema ressoa para o leitor. Desta forma, é um pouco como o romance de Lesly Nneka Arimah "What It Means When A Man Falls From The Sky". SunDown venceu o Prêmio Writivism de Histórias Curtas. Recomendado.

8 - "The Wild Dogs de Mandisi Nkomo (South Africa), Lights Out: Resurrection 

Nesta história, uma mulher sueca deixa o seu país e sua família e se voluntaria para ir para a África do Sul para ajudar na luta contra um tipo estranho de doença nova que está consumindo a Cidade do Cabo e transformando suas vítimas em algo aterrador. Ela chega e descobre que o lugar, a doença e as pessoas não são o que elas pensaram que seriam e é forçada a encarar uma monstruosidade inumana e sua própria relação com ela como alguém de fora. Eu editei esta história para a coletânea “Lights Out: Resurrection” e eu realmente gostei do ritmo e de seus temas acerca da polícia, da política, de raça, pobreza e do sistema de saúde. Conheço um editor de coletâneas que não deveria ter favoritos, mas... perdoem-me. Das histórias originais da coletânea, eu realmente gostei mais desta. Recomendado.

9 - "Rusties” de Nnedi Okorafor (Nigeria/USA) and Wanuri Kahiu (Kenya), Clarkesworld Magazine

Passada em Nairobi depois de robôs mecânicos responsáveis pelo tráfego de veículos terem sido criados, a história segue uma mulher que considera um Rusty (um desses robôs) em particular, seu amigo. Esta amizade, junto com as ações de seu namorado traidor, dispara sem querer uma revolta quando a emergência natural de um tipo de senciência entre os robôs em rede, uma explosão solar e a desconfiança humana acerca da inteligência de máquinas entram em rota de colisão. A história possui um alto conceito, um grande alcance e um mundo com um foco pequeno e íntimo na relação de uma mulher com Rusty. Enquanto que isto signica que a história possui um pouco de infodump para explicar toda a situação, também significa que a história nunca fica chata ou segue para uma outra tangente e continua mantendo o foco no narrador acima de tudo. Para ser honesto, até os infodumps são interessantes. O tema da emergência de uma inteligência/senciência é um que eu realmente gosto e é o tema da história que acabei de escrever então realmente amei ler a exploração deste conceito por duas das melhores mentes criativas na África. Acredito que vocês também irão gostar. Recomendado.

Fato curioso: Esta história é inspirada por uma história real em Kinshasa quando o governo instalou robôs gigantes que funcionavam por energia solar cujo design foi criado por Thérèse Izay Kirongozi para controlar o tráfego e acabar com um planejamento urbano mal feito.

10 - "Screamers” by Tochi Onyebuchi (Nigeria/USA) in Omenana Issue 8

Li esta história primeiro quando os fantásticos editores da revista Omenana, por algum feliz acidente, me enviaram esta história ao invés da minha própria história edita "The Last Lagosian" que foi publicada na mesma edição. Eu abri o arquivo, percebi que não era a minha história mas continuei a ler do mesmo jeito. Eu literalmente li a história inteira enquanto estava em pé na minha cozinha, fitando o meu telefone, incapaz de parar. Esta é uma história incrível que explora a fiscalização, a família, a raiva, a arte, a injustiça geracional e social, a migração, a dessensibilização, a frustração, o terrorismo e a emoção como uma arma.

Não vou nem me dar ao trabalho de dar uma sinopse porque em seu íntimo a história não é muito a respeito do que está acontecendo, mas sobre a maneira como ela faz o leitor se sentir. Acredito que a história é uma grande metáfora. O autor até mesmo parece aludir a isto no início da história.

"Quando Papai falou sobre os Gritadores, pensei que talvez ele pudesse ser um escritor. Éramos diferentes desta maneira. Nunca foi muito bom em criar metáforas".

Tochi, diferente do seu narrador, é muito bom em metáforas e se pensarmos desta forma, este é um acerto total. Adorei esta história e recomendo-a fortemente.

***

Então é isto. Quais foram as suas histórias de ficção especulativa africanas favoritas de 2016?


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