• Paulo Vinicius

A guerra justa em Ataque dos Titãs

Nessa matéria vamos falar sobre a última temporada e os debates morais sobre a guerra. Ela é justa para quem? E aqueles que não estão no campo de batalha, como se sentem?

Atenção: Tem spoilers para cacete!!!



Atenção: Vou repetir - tem spoiler para cacete aqui! É mais um espaço para discutirmos algumas das temáticas dessa última temporada sem me segurar muito. Se você já assistiu ou não se importa, continue.









Apesar de muito criticada, essa última temporada do anime foi bastante honesta com os seus espectadores e nos recompensou com várias revelações. Tem elementos de enredo que podem ser datados do primeiro episódio lá atrás. De uma coisa podemos ter certeza: sairemos ao final sabendo todos os planos do autor, salvo talvez um ou outro furo aqui ou ali de enredo.


Na temporada passada, o grupo de Eren finalmente conseguiu retornar à Shiganshina e chegar ao porão do pai dele. E com isso veio a terrível realidade: a ilha Paraíso nada mais é do que uma prisão. Todos os habitantes da ilha são descendentes de um povo chamado eldianos que no passado foram dominantes no continente principal. Sim, existe um grande espaço de terra. Quilômetros após a primeira muralha existe um imenso espaço marítimo. Do outro lado existem diversas nações, mas a que vai nos importar no momento é Marley. Um país altamente desenvolvido que entrou em guerra contra Eldia, um império controlado pelos descendentes do Titã primordial, uma garotinha chamada Ymir Fritz. Ela era capaz de transformar pessoas comuns em titãs puros. Mas, assim como os titãs atuais, ela só foi capaz de reter seus poderes por treze anos até que morreu de causas misteriosas. Todos os seus poderes foram divididos entre nove titãs sendo que um deles é o titã fundador, que possuía os poderes transformadores de Ymir além da capacidade de apagar as memórias daqueles que tivessem o sangue direto de Ymir.


A guerra entre Eldia e Marley durou vários anos e dentro de Eldia, os súditos de Ymir começaram a brigar entre si. Isso abriu oportunidades para que os marleyanos obtivessem vantagens no conflito. Até que eles conseguiram pôr as mãos em sete dos nove titãs eldianos. A Grande Guerra dos Titãs terminou então por causa de rixas internas entre os eldianos, com um golpe civil dado pelos marleyanos que haviam sido incorporados a Eldia e por conta do rei Karl Fritz estar cansado dos conflitos e da violência imposta pela guerra. Ele decidiu se auto-exilar na ilha Paraíso, pondo um fim a toda a confusão. Os eldianos mais próximos de Karl o acompanharam, fartos de tudo, e ameaçaram usar os poderes explosivos do Titã Colossal para destruir o mundo caso Marley viesse atrás deles. É aí que começam algumas atitudes controversas de Karl: ele levanta muralhas para proteger as novas cidades e apaga a memória de todos os eldianos para que eles acreditassem que a ilha Paraíso era o único lugar no mundo e não haveria nada além dela. Karl mudou o sobrenome de sua família de Fritz para Reiss e se tornou a família real vigente, do qual Historia é a descendente direta.


Mas, e aqueles que ficaram? Beeeeeeem... digamos que a vingança dos marleyanos foi levada ao pé da letra. Os sete titãs mantidos por Marley foram empregados a contento contra os eldianos restantes que foram massacrados e colocados em campos de concentração. Todo o terror e a culpa pela guerra foi jogado nas costas dos eldianos que passaram a ser encarados como párias dentro da sociedade marleyana. Um ódio profundo nasceu na população. Gerações e gerações de eldianos eram violentados e humilhados nas mãos de Marley. Os dissidentes, que se colocavam contra o domínio de seus opressores, eram presos e enviados para a ilha Paraíso, onde eram transformados em titãs desprovidos de inteligência (sim, aqueles titãs comuns). Ou seja, todos os que não se submetiam ao domínio e às violências eram atirados em outro continente. Marley então fabricou uma história sobre o quanto Eldia era formada por seres demoníacos que precisavam ser extintos a todo custo. Isso fez o ódio dos marleyanos pelos eldianos crescer ainda mais. Daria para falar da história da família do Eren, mas acredito que essas informações aqui sejam o suficiente para começar a nossa discussão.



Quando começamos esta temporada, se passaram alguns anos e Eren havia se infiltrado em Marley. Seus planos começam a se desenrolar um por um após o contato que ele teve com Zeke, seu meio-irmão e o Titã Bestial. Na cabeça de Eren era preciso fazer alguma coisa. Quando os membros da alta cúpula da ilha Paraíso entraram em contato com um grupo de dissidentes de Eldia que estavam dispostos a recuperar o orgulho dos súditos de Ymir, a vontade deles era o de estabelecer relações de paz e de comércio. Mas, quando somos levados até Marley, vemos o quanto os eldianos sofrem nas mãos de seus opressores. É óbvio que a associação básica é entre os alemães e os judeus, mas sem a violência mortal dos campos de concentração. Os eldianos ainda eram úteis para Marley seja para serem usados como armas biológicas contra outras nações ou para trabalhos inferiores. Aos eldianos era vedada a ascensão social. Fora isso, era comum vermos marleyanos comuns cometendo atos de violência contra eldianos, sendo que isso nem era considerado um crime. Como eu disse, eles eram párias da sociedade.


Ao se deparar com isso, Eren perde a cabeça. Não entende como seus líderes seriam capazes de estabelecer negociações com esse povo. E a fúria de Eren é mortal. Seu momento de explosão vem em um plano meticuloso que arrasou toda uma cidade e centenas de pessoas que estavam ali para ouvir sobre a verdade de Eldia e os planos para atacar a ilha Paraíso e exterminar os titãs de uma vez por todas. Mas, o Titã de Ataque varreu as pessoas do mapa. Só que tem um pequeno problema aí: o ataque de Eren e de Armin foi brutal, no entanto muitos inocentes acabaram pagando o preço. Sim, foi um ataque cirúrgico que destruiu as defesas de Marley dentro da cidade, algo para o qual eles não estavam preparados. Podemos argumentar que existe uma justiça poética no meio de tudo isso, mas será mesmo? Havia mesmo a necessidade de uma justa retaliação no meio de todo esse conflito secular entre os dois países?


Um filósofo do final da Antiguidade chamado Agostinho de Hipona coloca que a guerra só é justa a partir de dois princípios: a justa causa e a justa retaliação. No primeiro caso, a guerra possui motivos justos e aquele que a inicia está buscando equilibrar a justiça de Deus. O segundo envolve o princípio da vendetta, algo muito comum na Roma antiga e que chega até os dias de hoje. É o famoso olho por olho, dente por dente. As teorias de Agostinho são parte até hoje do código que julga os crimes de guerra na ONU. Mas, os dois casos são sempre bem complexos de serem analisados porque envolvem uma interpretação subjetiva dos fatos. Sempre quando se coloca uma afirmação dessas, é preciso refletir "é justo para quem?". No caso de Ataque dos Titãs tanto do lado de Marley como dos moradores da ilha Paraíso temos milhares de inocentes envolvidos em uma guerra da qual eles não sabem o motivo. Em Marley, os cidadãos são educados desde pequenos que devem odiar os eldianos. Que eles são demônios e precisam morrer. Os eldianos incorporaram esse preconceito e fazem de tudo para se encaixar dentro de uma sociedade que jamais irá tratá-los como iguais. Podemos ver essa forma de pensar na figura da Gabi, que se desespera com o ataque de Eren e deseja matar os eldianos a todo custo. Mesmo ela própria sendo uma eldiana. Para ela, importa ser uma cidadã exemplar e herdar um dos titãs originais, talvez a única forma de ser reconhecida com justiça dentro daquele contexto. Aliás, os eldianos da ilha Paraíso são entendidos por ela como a encarnação do próprio demônio. Os demônios reais entre os seus companheiros. Em sua cabeça, não encaixa que essas pessoas são capazes de amar, de sofrer, de sorrir, de ter filhos, de fazer amizades.



Toda essa manipulação da verdade causou danos irreversíveis em ambos os povos. Fica a sensação de que não há negociação. Se imaginarmos Marley como vítima e Eren como destruidor, basta compreendermos que os comandantes de Marley já estavam planejando atacar a ilha Paraíso. Aliás, o desastre de Shiganshina foi causado por uma dessas incursões que teve Annie, Bertholt e Reiner tendo sido enviados para destruir os descendentes de Fritz. Do outro lado, vemos que o comandante Pixis quer acordos com Marley, mas com certos benefícios e pequenas armadilhas no meio. Não à toa eles envolveram outros povos no meio do processo todo e roubaram determinadas tecnologias. Além disso eles se prepararam com uma produção em massa de armamentos contra seres humanos.


Percebendo a inépcia dos dirigentes e tendo se tornado mais poderoso ao devorar o titã primordial e o titã martelo, Eren agora quer incorporar os poderes do Bestial ao seu arsenal. Seu objetivo final parece ser o de recuperar os poderes de Ymir e transformar o mundo. Em sua mente, já não importam mais os meios para alcançar seus objetivos. Mesmo que para isso ele precise matar seus amigos. Fico pensando em o quanto o choque de ter as memórias do primordial liberadas completamente em seu cérebro afetaram o emocional do personagem. O encontro que ele tem com Mikasa e Armin mais tarde revelam o quanto ele estava resoluto em sua maneira de pensar. A ponto de dar um golpe no próprio comando do exército da ilha Paraíso. Resta saber o que irá sobrar de todos ao final da guerra. E o quanto os sentimentos negativos terão realmente sido varridos. Mas, essa é uma discussão para outro dia. E vocês, o que acham da relação hostil entre Marley e Eldia? Postem aí nos comentários.





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