• Paulo Vinicius

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Um filme fascinante sobre uma família que precisa encarar a revolta de uma IA que controla máquinas por todo o país e deseja livrar o mundo dos humanos. Mas, antes disso eles precisam se entender e resolver seus problemas.


Toda família passa por seus problemas. Mesmo uma que realmente se ama. Quando nossas crianças se tornam adolescentes, nos tornamos caretas, ultrapassados. Nem sempre somos capazes de entender o que eles desejam. Não se trata do que queremos para eles, mas do que eles querem para si. É com esse sentimento que A Família Mitchell consegue ser uma animação surpreendente, com uma linguagem contemporânea e ágil. Talvez se eu pudesse dizer que houve alguma injustiça no Oscar, já que quase todas as premiações eram muito previsíveis, foi Encanto ter ganho o Oscar de animação com concorrentes de peso como Raya, Luca e esta animação aqui. Ela foge daquela linguagem típica da Disney a qual estamos tão familiarizados e nos entrega algo novo e refrescante. Falando de temas como família e amadurecimento, certamente é daqueles filmes para assistirmos todos juntos no sofá e darmos boas risadas.


A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma animação norte-americana de 2021 das produtoras Lord Films Productions e da One Cool Films e que teve distribuição pela Sony Pictures. A direção é de Mike Rionda (da animação Gravity Falls) e a co-direção é de Jeff Rowe. Os dois também são responsáveis pelo roteiro. Os produtores foram Phil Lord (de Lego O Filme), Christopher Miller (também do filme do Lego) e Kurt Albrecht. A Sony Pictures Animations é a responsável pela animação ao lado das duas produtoras acima que cuidaram de detalhes de pós-produção e auxiliaram no processo. A trilha sonora foi organizada e composta por Mark Mothersbaugh, famoso por ser o responsável pela direção musical da série Rugrats (Os Anjinhos, por aqui). Ou seja, um nome bastante conhecido na indústria de animação. A Netflix adquiriu os direitos de exibição do filme e está em seu catálogo desde o final do ano passado. Aliás, um baita negócio para o serviço de streaming que conseguiu bons números de exibição. A duração do filme é de 114 minutos, o que considero ser um bom tamanho.


A animação tem uma qualidade razoável, mas o que faz com que ela se destaque é a presença de inserções e intertextos no meio da tela. Sejam emojis, momentos em que a cena congela para dar uma explicação e os personagens fazem alguma piada ou comentário. É um tipo de linguagem extremamente dinâmica e irreverente. As cenas mais velozes são bastante fluidas, mas de uma forma diferente de como a Disney ou a Pixar trabalham. Tudo é muito colorido e chama a atenção. Sejam com cores mais foscas ou momentos mais brilhantes principalmente para o final. O alto astral do filme se revela no emprego de cores quentes como o vermelho e o amarelo enquanto que no confronto com o inimigo, que representa um lado sombrio e obscuro, tem o emprego do roxo e do azul-escuro, mas fosforescente. Há muita coisa acontecendo em tela, o que faz com que nosso olhar se dirija a uma série de direções diferentes. Sejam explosões ou inimigos vindos de todas as direções ou simplesmente coisas acontecendo no fundo que se interligam com a trama.


A jovem Katie Mitchell é uma menina bastante criativa e que tem o sonho de se tornar uma grande cineasta. Seu passatempo é criar vídeos curtos para as redes sociais onde ela experimenta diversas técnicas de cinema. Só que seus vídeos são peculiares e apenas os seus fãs curtem; Katie se ressente da falta de apoio de sua família. Ela se inscreve para prestar uma faculdade em uma cidade grande e consegue finalmente sua vaga. Sua formatura representa um momento de despedida de sua fase de adolescente e uma direção para a vida adulta. Ao mesmo tempo significa sair da casa dos pais e tentar alguma coisa diferente. Toda a conectividade de Katie se choca com a tecnofobia de seu pai, Rick, alguém que gosta do contato com a natureza, com uma vida mais pacata e com a capacidade de usar ferramentas simples para superar os obstáculos. O seu símbolo é um canivete suíço. Linda, a sua mãe, tenta mediar o confronto entre eles, sendo a apaziguadora. Ela tenta manter a família unida, apesar das diferenças, mas sonha em ser uma família descolada como os seus vizinhos que praticamente fazem de tudo. A família é composta ainda por Aaron, um garotinho viciado em dinossauros, e o cachorrinho Monchi, que é mais zarolho do que qualquer coisa. No meio disso tudo, temos a apresentação de um novo aplicativo de automação que vai revolucionar a maneira como vivemos. O PAL é voltado para facilitar a vida das pessoas e tem agido como tal nos últimos anos. Mas, chegou a hora do PAL 2.0, uma inovação que vai permitir o controle automático de diversos aparelhos eletrônicos. Durante a apresentação do novo aplicativo, algo estranho acontece e todos os aparelhos eletrônicos se voltam contra seus donos, capturando-os e os levando a uma estranha estrutura.


Esta é uma boa e velha narrativa de família e de amadurecimento, mas repaginada para abraçar os problemas contemporâneos. Katie é a típica adolescente de 15 ou 16 ano, que está em busca de uma identidade própria, de se descolar de seu núcleo familiar e realizar novas descobertas por si mesma. Algo que quase todos nós já passamos um dia. Aquele momento em que o lar junto de nossa família não é mais um lar para nós, e desejamos explorar algo mais. Só que a família Mitchell sempre foi muito unida e desfazer esse laço é mais traumático do que parece. Isso se revela no confronto entre Katie e Rick, Toda a discussão entre os dois acontece porque Rick tem medo de perder sua filha para sempre, de que eles não sejam mais capazes de fazer coisas juntos. Essa conexão deliciosa que sempre os uniu e de repente corre risco por conta da distância. Esse medo de Rick é o que vai fazer ampliar as diferenças entre os dois personagens. Talvez Rick estivesse mais aberto para aceitar novas tecnologias se ele não entendesse que é por causa dela que sua filha vai partir.


Chegamos então em um novo tema da história que é o confronto entre os meios artesanais/tradicionais e a tecnologia que visa facilitar nossa vida. Não há uma resposta certa para essa dicotomia e parabenizo os produtores por não criarem um maniqueísmo bobo entre algo ruim e algo bom. O que existe, no fim das contas, é uma convivência entre as duas formas de vida. Não é possível automatizarmos demais nossas vidas porque isso acaba reduzindo nossa capacidade de inovação. Ao mesmo tempo a tecnologia é capaz de realizar ou acelerar coisas que levariam tempo demais se usássemos métodos convencionais. Há de se ter uma harmonia entre as duas formas de viver. Isso é bem perceptível quando comparamos Rick e Mark Bowman, o dono da companhia PAL. Ele desejava o 2.0 como uma forma de criar um empregado automatizado e diminuir suas tarefas do dia-a-dia. A maneira como a animação mostra o comportamento preguiçoso e descolado dele já nos revela na hora qual caminho o filme pretende seguir.



Outra dicotomia interessante é a capacidade de planejar versus a possibilidade de improvisar. Nem tudo pode ser planejado nos mínimos detalhes já que inúmeras variáveis podem acontecer no meio do caminho. Isso é ilustrado por todo o modus operandi da Katie, que tinha planejado nos mínimos detalhes como seria a sua chegada no campus universitário. E, no entanto, seus planos foram por água abaixo quando seu pai decide levá-la até lá. Ou Mark que tentou se planejar para todas as contingências para que seu produto fosse apresentado com sucesso. Não há planejamento para o imponderável. Uma postura como a de Rick que sempre tenta improvisar pode ser bastante adequada para resolver problemas inesperados. Ser capaz de pensar com rapidez, de ter alguma coisa no ambiente que possa ajudá-lo a solucionar uma crise. Ele erra bastante durante o filme, mas sua postura receptiva e pró-ativa é o que falta muitas vezes à Katie, que só se desespera. Ela toma a situação para si mais pelo terço final do filme onde ela incorpora as característica de seu pai às suas habilidades inatas. Novamente é o tema do equilíbrio.


A Família Mitchell é um grande road trip, um gênero de histórias onde uma família ou um grupo de pessoas decide viajar pelo país através de estradas e vivem mil aventuras que irão contribuir para uma mudança posterior. Em vários momentos a animação me lembrou o saudoso filme Férias Frustradas. Um pai de família trapalhão, uma mãe que tenta ser a mediadora e os filhos que aprontam todas. A diferença é que o foco se concentra na relação entre pai e filha. Esse é aquele tipo de filme de cinema pipoca para assistirmos com toda a família em uma tarde de domingo. O tema é descomplicado, a animação é agradável e passa uma mensagem positiva a qualquer família. Fica novamente a minha crítica de o porquê desse filme não ter recebido um Oscar, até para dar uma banana para a Disney de vez em quando, já que ela sempre entrega aquela animação formulaica típica de premiações. Aqui temos algo que foge completamente dessas convenções e que você, espectador, deveria conhecer.















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