• Diego Araujo

Resenha: "Velórios Mortais" organizada por Ana Macena

Contos podem contar eventos inusitados de inúmeros temas, entre esses o de velório, aproveitado em várias perspectivas na antologia Velório Mortais.


Sinopse:


A morte sempre foi uma palavra temida, mas é uma certeza e uma sentença, que a maioria ignora. De fato, quem está preparado para tal desfecho?

Por isso, é com muito pesar que informamos as mortes de alguns personagens nessa antologia. Suas vidas foram ceifadas repentinamente e, nesse momento de dor e compaixão, pedimos que toda solidariedade seja prestada em forma de leitura. Cada sala contém histórias de tirar o fôlego. Portanto, mantenham-se acordados, tragam suas flores, acendam suas velas e se preparem para os Velórios Mortais.




Velório: a situação de prestar o último respeito ao falecido antes de o corpo descansar pela eternidade. Faz parte de muitas culturas, embora cada pessoa tenha reações diferentes ao longo da ocasião. Uns reservados, outros em prantos sobre o caixão, solícitos a qualquer prece sugerida, ou restritos apenas a acompanhar o último momento junto da pessoa. Há ainda as palavras jamais ditas em um funeral, com as segundas intenções mascaradas; e também existe o medo a imaginar terrores verdadeiros numa mente transtornada pela ocasião. Essas e outras situações foram aproveitadas em Velórios Mortais. Lançado em 2019 por Ana Macena, a antologia reúne dezessete contos diversos sob o tema de velório. A seguir temos a análise dos contos de destaque na antologia, depois alguns comentários sobre a antologia em si.


1 - "Posthuman" de Igor Paiva


Ficha Técnica:


Nome: Posthuman Avaliação:

Autor: Igor Paiva



Eusébio trabalha no IML (Instituto Médico Legal). Mantém a rotina aterrorizante de examinar os mortos, manipular o corpo e observar os ferimentos até concluir a causa da morte. Seria tudo dentro da rotina, exceto encontrar o morto encarando-o de volta, berrando e perseguindo-o... Depois disso enfrenta uma situação, esta sendo ambígua quanto a clareza de ele a considerar desconhecida ou inaceitável.


"A verdade é que o mistério não está na morte, mas na vida."

O conto demonstra segurança em abordar procedimentos de um médico legista, descreve a ação do profissional e vai além, explorando as percepções técnicas do cadáver, descrevendo aspectos comuns vistos na rotina de trabalho antes de provocar o incomum. E por isso impacta, ao deixar o leitor confortável com a operação do profissional, perturbando-o com o cadáver reagindo, através da descrição do imprevisto, sem falar da surpresa reservada no final, responsável por revelar muito sobre o protagonista do conto.


O texto poderia ser melhorado de forma a aprimorar a experiência de leitura. Ao empregar alguns termos formais desnecessários, bem como conectivos entre frases em vez de deixá-las fluidas. A pontuação de vírgula fica irregular, em posições a moldar o ritmo do texto conforme a vontade do autor, mas tal imposição atrapalha o ritmo natural da leitura.


2 - "Honra ao Mérito" de Flávio Karras


Ficha Técnica:


Nome: Honra ao Mérito Avaliação:

Autor: Flávio Karras



Humberto é o único irmão vivo entre os três batizados com "Berto" ao fim do nome. O Berto desta história trabalha como coveiro. Orgulhoso da profissão, se diverte com as histórias conhecidas sobre o falecido até entregar o cadáver ao repouso subterrâneo. Porém o orgulho exclusivo dos irmãos o incomoda. Entre médico e servidor público, ninguém dá atenção ao Berto coveiro, mesmo depois dos irmãos estarem mortos, e ele buscará o prestígio igual os dois, não importa a maneira.

"Deve ser impressão sua. Todo mundo morre toda hora."

Nada de sobrenatural e de pouco terror, o protagonista é alguém ordinário com ambição, o conflito é imposto para motivar as ações mais inusitadas. Berto é um personagem ambientado com pessoas como ele, brasileiros dispostos a fazer de tudo para satisfazer o ego. Pouco importa seu empenho, honesto ou trapaceiro, há quem tem melhores condições de ir além, trazendo a ironia dramática ao desfecho de Humberto.


3 - "Sorte Grande" de Flávia Souza


Ficha Técnica:


Nome: Sorte Grande Avaliação:

Autora: Flávia Souza



O velório deste conto tem ritmo de festa. Jamile comemora o falecimento do esposo Fernando junto ao amante Cadu no cemitério onde ocorre o velório. Sofrendo abusos do marido a vida toda, Jamile fica viúva logo quando Fernando teve a sorte de encontrar um bilhete premiado. A empolgação enaltece o tesão do casal em segredo, embora a ambição revele a verdadeira intenção dos dois.


"Mas a felicidade do casal em chamas não dava para ser velada."

Os contos da coletânea compartilham do tema velório, e mesmo assim há histórias destacadas por fugir do gênero esperado desta ambientação. Este aborda passagens sensuais do casal amante enquanto explora as ambições ocultas de cada um enquanto incita o conflito do conto. Há frases em excesso no texto, tirá-las não ia prejudicar sua fluidez e inclusive melhoraria o ritmo da leitura. Faltou pontuar algumas vírgulas durante os diálogos na provável intenção de demonstrar que os personagens diziam a frase de uma vez, porém faz falta ao ler a transcrição do diálogo.



4 - "Um Dia, Um Adeus" de Bárbara Queiroz


Ficha Técnica:


Nome: Um Dia, Um Adeus Avaliação:

Autora: Bárbara Queiroz



May está no funeral de sua irmã. Local cheio, com a presença inclusive do motorista responsável pelo acidente fatal, acompanhado da mãe ingênua a tentar pedir perdão pelos erros do filho. Uma senhora de vestes negras ao estilo vitoriano anda pelo velório, Maya observa, curiosa por este primeiro detalhe de muitos a anteceder a tragédia ainda a ser descoberta por ela.

"Mas ninguém acredita que isso possa acontecer com si próprio."

Narrado pela própria May, ela consegue transmitir a tristeza do ambiente através das palavras enquanto avança na narrativa. Descreve os gestos e demonstra as palavras ditas, ambos limitados sob a força do luto e o constrangimento de ainda ver o responsável pela morte também presente. E isso é ainda o começo, a angústia avança com os acontecimentos estranhos aos olhos de May, inconsciente da verdadeira situação. A narradora nos leva à realidade dela até o desfecho nos revelar a história real daquela personagem. O fim surpreende de novo por entregar algo diferente da tristeza onipresente desde o começo. Faltou escolher melhor certas palavras para as frases causarem impacto, e a cena em flashback poderia ser reduzida sem prejudicar a eficiência do objetivo à trama.


5 - "Culpado" de Soraya Abuchaim


Ficha Técnica:


Nome: Culpado Avaliação:

Autora: Soraya Abuchaim



Este outro velório tem caixão pequeno, tamanho ideal a adequar Pedro, o garoto de cinco anos, de cabeça estourada por rifle. A mãe Cláudia acusa o pai George pela morte, por ele deixar o garoto poucos minutos sozinho, o suficiente para acontecer a catástrofe. O luto ressoa na atmosfera e contamina sentimentos ruins entre os presentes. Além de tristeza, existem ideias acobertadas pela hipocrisia ou ingratidão, de pessoas agradecendo não estar no lugar dessa família. Passando a introdução, vem o evento causado pela maior hipocrisia de toda aquela tragédia, pronta a ser confessada.


"Ouvia-se aqui e ali as frases clichês de tragédias inexplicáveis."

A narrativa começa na ambientação envolta de Pedro, encaminhando o foco até alcançar George, descrevendo o restante do conto a partir da concepção dele. A autora explora o ambiente a partir dos pensamentos dos presentes, desmascarando as mentes incapazes de esconder as verdadeiras intenções de quem faz o mesmo jogo, o de manter os bons costumes.

O terror aparece semelhante a muitos outros contos desta antologia, e ainda merece destaque pela qualidade visceral das descrições de Soraya. A narrativa pinta o sangue escorrendo em cena, nítido em cada parte do corpo ou cômodo por onde passa; sem falar dos movimentos abruptos, feitos ao dilacerar os personagens. Os parágrafos são breves, algo difícil de conduzir com um bom ritmo de leitura, e a autora consegue, refletindo a cena dilacerante na composição dos parágrafos. Ainda oferece mais, trazendo a cena do passado já contado no início do conto, com poucas informações inéditas relevantes. Tudo proposital, para gerar o suspense à cena que o leitor está fadado a ler por estar preso a ótima narrativa.


6 - "A Última Sonata" de Lenmarck Andrade


Ficha Técnica:


Nome: A Última Sonata Avaliação:

Autor: Lenmarck Andrade



Trata do enterro do músico aclamado e chamado apenas de O Pianista, falecido antes de concluir a obra-prima em sonata. Todos estão vestidos a caráter, ou seja, de preto; exceto o amigo Téo com o traje vermelho. Isolado, Téo observa o funeral do amigo, com os demais presentes dispostos a oferecer a última companhia ao Pianista antes do eterno descanso. Mas, o som surge, as batidas na madeira assustam Téo até ele descobrir de onde o som vinha, e depois só piora.


O ninho da loucura se forma pelo trançado de deturpados gravetos.”

O conto começa com um narrador debochado, descrevendo um comportamento ambiental a princípio alheio da história, com a promessa de fazer sentido em algum momento, por fazer parte da história sobre O Pianista morto depois de dar a última nota, um som que o narrador mal se recorda. Desse ponto em diante a narrativa segue confiante, mostrando o funeral na perspectiva do amigo Téo, a princípio passivo no cenário, até tocar o piano do falecido e ganhar a atenção de todos. O sobrenatural acontece sob mistério, deixando livre ao leitor deduzir a resposta enquanto a história prossegue rumo a um desfecho honesto com a proposta do narrador desde o princípio.



Da antologia em si


Antes de comentar a respeito de toda a antologia, melhor explicar o motivo de dedicar análises a determinados contos. É porque esses tiveram qualidades positivas a comentar, com bons motivos para dar a oportunidade de conferir os textos. Difícil afirmar o mesmo sobre os demais, onde os pontos positivos falham em superar os incômodos percebidos ao longo da leitura. Sem diminuir o esforço desses autores, pois alguns ainda poderiam impressionar caso o trabalho de edição desse o devido cuidado e entregasse o melhor de cada conto na versão final.


Alguns textos passam longe de exercer a escrita criativa, soam mais como relatórios sobre as pessoas das histórias. Nenhum escritor é obrigado a seguir a narrativa show, don’t tell, mesmo assim precisa entregar algo relevante ao leitor por meio do envolvimento com os personagens. Na prática alguns contos pareceram noticiários limitados a narrar fatos.


A falta de capricho na edição remete a muitas questões que deixaram de ser polidas nos contos publicados. Desde os erros de ortografia e pontuação, sem limitar-se a isso. Muitos adjetivos, frequentes em quase todos os parágrafos em determinados contos, são descartáveis; nada dizem a respeito daquela cena e ainda diminui a qualidade do texto, o objetivo do escritor é entregar a história em vez de enchê-la de atributos. Falta confiança em deixar o leitor assimilar a informação por si, e com isso a repete por vários parágrafos, a torna redundante ao descrever o que o personagem já deixou claro na fala do diálogo. E há frases desnecessárias. O conto precisa ser conciso, cada fragmento do texto deve conduzir o leitor ao objetivo do autor com aquela história, e cada frase que o desvia do impacto planejado prejudica a obra quanto a característica do gênero conto.


Tem ainda a questão de eleger o texto adequado a fazer parte do livro. Trabalhar com critérios mais rigorosos na seleção dos participantes ajudaria a dar reconhecimento positivo aos autores, pois os previne de lançarem textos abaixo do nível esperado pelos leitores. Faz parte da carreira de todo escritor reconhecer fracassos ao tentar publicar numa seleção e assim ter mais experiência na próxima, e também evita prejudicar autores experientes e competentes em antologias cujo nível de qualidade oscila muito entre os textos.


Velórios Mortais possui alguns contos ótimos de conferir, criativos na ambientação proposta na antologia. A edição deixa a desejar ao dispor de boa quantidade em autores, esses oscilando em qualidade sob a falta do devido preparo entre os envolvidos na elaboração do livro.









Ficha Técnica:


Nome: Velórios Mortais

Organizado por Ana Macena

Autores: Igor Paiva, Márcio Cardoso Pacheco, Flávio Karras, Rafael Santos, Vitor Silos, Flávia Souza, Jaques Rodrigo Valadares, Babi Lacerda, Priscila T. Therese, Soraya Abuchaim, Nathália Scotuzzi, Hedjan C.S., Wellington Budim, Lenmarck Andrade, Mauro A. Souza, Landerson Rodrigues, Patrícia D’Oliveira, Tito Prates (prefácio)

Editora: Autopublicado

Número de Páginas: 173

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

https://amzn.to/2Ubj8ie


Tags: #veloriosmortais #anamacena #sorayaabuchaim #jrvaladares #flaviokarras #morte #sobrenatural #assassinato #vinganca #fantasmas #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.