• Paulo Vinicius

Resenha: "Valerian Integral vol. 1" de Pierre Christin e Jean-Claude Mezières

Em aventuras que ultrapassam o tempo e o espaço, Valerian e sua companheira Laureline exploram lugares estranhos e paisagens exóticas enquanto lutam para manter a paz e a liberdade dos indivíduos. Nesse primeiro volume, eles enfrentarão o maligno Xombul e passarão pelo Império dos Mil Planetas.


Sinopse:


Fruto da imaginação transbordante de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, os personagens de Valerian e Laureline surgiram pela primeira vez nas páginas de PILOTE, em 1967. Por sua inventividade e audácia, a série rapidamente se tornou referência absoluta para os leitores de histórias em quadrinhos de ficção científica.






Se podemos falar em clássicos de quadrinhos de ficção científica, Valerian é um título obrigatório em qualquer lista. Criado pelas mentes de Pierre Christin e Jean-Claude Mezières é uma narrativa que foi inovadora quando foi publicada e influenciou inúmeros projetos como até mesmo Star Wars que possui várias cenas inspiradas nas aventuras do casal Valerian e Laureline. A Sesi-SP traz uma edição integral que conta com as quatro primeiras histórias neste primeiro volume onde vemos como a ideia surgiu e foi pouco a pouco evoluindo até chegar ao material clássico que tanto conhecemos. Vale destacar ainda os extras bem interessantes no final que contam com a primeira parte de uma entrevista com Luc Besson, Pierre Christin e Jean-Claude Mezières quando do lançamento da adaptação para o cinema de O Império dos Mil Planetas. Conta também com um artigo de Stan Barrets que fala da importância de Valerian para a sua época e como ele reverberou em outras obras.


Bem, vou falar um pouco sobre cada uma das histórias e os temas gerais desse álbum. Fica um aviso básico aos amantes de quadrinhos que esse álbum específico não prima pela bela arte e pelos roteiros mais precisos. Isso porque tanto o roteirista quanto o artista estão em busca de uma voz e uma identidade para os seus personagens. O roteiro das três primeiras histórias é bastante ingênuo e indicativo do período em que foi lançado. O mesmo pode ser dito em relação à arte que é bem complicada de curtirmos inicialmente, mas Mezières vai aprimorando o seu traço com os álbuns seguintes. Ou seja, salvo a última história, a clássica O Império dos Mil Planetas, as outras três histórias são bem dispensáveis e duras de se ler. Mas, tenham fé e avancem porque a última história vai entregar aos leitores tudo e mais um pouco.


A primeira história é Os Maus Sonhos e é a origem dos dois protagonistas. Vemos quem é Valerian e como ele se situa no universo criado por Christin. Na história o tecnocrata Xombul se torna um homem foragido e segue para a Idade Média para encontrar uma forma de criar criaturas terríveis que possam assombrar os sonhos das pessoas do século XXVIII. Xombul era um manipulador de sonhos, fornecendo às pessoas recreações que pudessem tirar suas mentes das mazelas do mundo real. Mas, ele agora quer dominar o mundo. Então ele foi buscar na criativa mente das pessoas da Idade Média a inspiração para criar monstros terríveis. Valerian é enviado para impedi-lo e ao chegar lá, terá de enfrentar inúmeros obstáculos para chegar até Xombul que está escondido no castelo de um homem chamado Alberico. No meio do caminho, Valerian irá conhecer uma camponesa chamada Laureline, uma mulher forte e ousada que auxiliará em sua missão.


Aproveitando esse primeiro álbum para falar de Valerian, o protagonista, ele tenta ser um humanista o tempo todo, buscando soluções pacíficas para os problemas que surgem até ele. É óbvio que nem sempre isso será possível e ele enfrentará inúmeros combates. Mas, vemos o quanto Christin coloca em Valerian uma mentalidade equilibrada, às vezes até em detrimento de sua própria missão. Para conseguir uma solução que possa agradar a todas as partes, Valerian vai se colocar em situações perigosas como quando ele queria retornar ao pântano nessa primeira história para resgatar Xombul e levá-lo à justiça. Mesmo isso colocando tanto ele como Laureline em perigo. Isto é, este não é um personagem daqueles que atiram primeiro e perguntam depois. Ele procura entender todos os lados de um problema e tentar pensar em uma solução onde todos possam encontrar um meio-termo. Mas, como veremos no quarto álbum, isso nem sempre é possível.


A segunda e a terceira histórias, A Cidade das Águas Movediças e Terra em Chamas, são uma narrativa só. Nela, Xombul consegue fugir de sua prisão e segue até 1986, um ano em que os membros da agência de defesa não possuem informações porque algo atrapalha suas medições. Esse é um período de formação do que viria a ser a tecnologia de viagem no tempo mais tarde. Valerian e Laureline seguem até lá, mas se deparam com um planeta Terra muito diferente da utopia futurista onde vivem: um lugar que passou por um terrível cataclisma que provocou mudanças climáticas, deixando várias cidades embaixo da água. Terremotos causam medo às pessoas que possuem um modo de vida difícil devido à tudo o que acontece. Precisando enfrentar um grupo de saqueadores que atacam Nova York, Valerian precisa descobrir rápido o paradeiro de Xombul antes que ele consiga os seus objetivos.


Se mencionei Valerian, não posso deixar de falar de Laureline, nossa heroína. E que personagem inspiradora! Numa época em que mulheres eram entendidas mais como adereços ou pares românticos para os heróis, surge uma mulher que é independente, impulsiva e ativa. Embora algumas cenas nas primeiras histórias ainda possuem aquele ar de "ajudante", Laureline vai ganhando seu espaço cada vez mais na história. Se Valerian é mais equilibrado, Laureline é pró-ativa buscando encontrar soluções à medida em que as situações vão acontecendo. Sua habilidade de improviso é essencial em diversos momentos, sendo que ela salva Valerian em duas ou três oportunidades. A personagem tem opinião própria e nem sempre concorda com o seu par, levando a bons confrontos de ideias. Gosto demais da dinâmica entre os dois personagens. Fica aqui o easter egg de que Laureline chega até 1986 usando um portal diferente do empregado por Valerian o que a deixa em Brasília. Sim, Brasília. Ela convence o presidente do Brasil a criar um gabinete de sábios para resolver os problemas desse novo mundo enquanto pega um transporte aéreo que a leva até Nova York.



A melhor história desse álbum é a clássica O Império dos Mil Planetas. Nessa história, a dupla segue até o planeta Syrte, uma espécie de império espacial isolado que se tornou um lugar de entroncamento de vários planetas. Valerian quer entrar em Syrte sem alarde e conseguir entrar em contato com as autoridades locais para tentar encontrar alguma forma diplomática de contato entre Syrte e a Terra. Só que eles rapidamente são identificados como seres humanos e passam a ser perseguidos pelos Sábios, homens da religião e que possuem poderes de repressão a qualquer opositor. O desconhecimento da cultura local vai provocar uma série de situações engraçadas e mal entendidos e obrigarão os dois a usar de toda a sua sagacidade para se libertar do jugo de seus perseguidores.


Agora sim posso falar da arte de Mezières. É nessa quarta história que tanto roteiro como arte finalmente se encontram. E aí sim conseguimos perceber o talento do artista, que tem uma capacidade criativa incrível. Os cenários espaciais que ele cria são ricos em detalhes. E quando digo cenário espacial é algo realmente fora de série. Não é algo que siga padrões conhecidos. É alienígena no seu sentido mais estrito. Apesar de Syrte ser a capital de um império espacial, eles não possuem uma tecnologia muito avançada. Ou seja, temos uma mescla de uma arte mais tecnológica, com um maquinário sofisticado que fornece energia para as cidades e castelos convivendo com um aspecto mais sujo e decadente, fruto de uma tragédia radioativa que se abateu sobre o planeta. Mezières conseguiu dar volume às ideias de Christin, o que contribuiu muito com o álbum.


O design de personagens e as cenas de ação estão mais maduras. Se Valerian tinha traços mais simples nos primeiros álbuns, aqui ele está mais sofisticado e expressivo. Laureline é uma aventureira ao mesmo tempo em que mantém sua feminilidade, sem ser vulgar. Sem falar nas várias raças alienígenas presentes em Syrte, o que obrigou o artista a criar diversos modelos diferentes para cada um. Achei sensacional a variedade de pessoas presentes em uma feira central próximo de onde Valerian e Laureline desembarcaram. Tudo é muito vivaz e cada personagem nas cenas está realizando alguma ação. As cenas de ação são muito boas com o destaque para a batalha espacial que acontece lá no momento mais climático dessa história. Mezières conseguiu criar cenas emocionantes e deixar a gente em um suspense terrível sobre o que iria acontecer com os personagens. A gente consegue entender a lógica por trás das cenas.


O roteiro começa a fazer diversas críticas sociais o que aumenta a qualidade e a profundidade daquilo que está sendo entregue pelo roteirista. Escolhi dois temas para comentar especificamente. Um deles é o controle da cultura como uma forma de alijar o resto das classes sociais da possibilidade de um status de igualdade entre todos. Os Sábios manipulam o conhecimento através de um pano de fundo religioso, criado para intimidar as pessoas e legitimar o seu controle. Enquanto a população geral vive com poucos recursos, passando fome e lidando com os problemas advindos da radioatividade ainda presente no planeta, a elite vive em festividades, luxo e excessos. Tudo isso é feito escondendo da população algumas verdades que poderiam se tornar a fagulha em uma revolução. A desinformação é usada como arma para a perpetuação de poucos.


Temos também a busca de um pequeno grupo de rebeldes que tenta criar as condições para que eles possam tomar o poder. Os Sábios, quando tem seus segredos descobertos, buscam destruir todos aqueles que sabem de seu segredo. Torna-se necessário ainda descobrir quem são esses sábios e por que esconderam por tanto tempo detalhes sobre Syrte. A luta social que surge disso não é bonita e vai causar momentos bem complicados. Momentos que Valerian parece que se arrependeu de ter inspirado os acontecimentos. Aqui tem uma crítica clara aos governos impositivos e ditatoriais que não conseguem manter o controle por muito tempo da população. E que a revolução social é algo que não pode ser visto como algo utópico: existem sacrifícios, dor e sangue que precisam ser derramados para que mudanças possam acontecer. Somente quando a população decidiu enfim se mover é que eles foram capazes de derrotar seus opressores.


Embora seja um primeiro volume meio complicado de ler, Valerian volume 1 começa a nos mostrar o brilho que vai influenciar tantos outros projetos. Só que se preparem porque, ao ser um quadrinho mais antigo, ele possui bastante texto e uma arte que ainda está se encontrando até alcançar seu verdadeiro potencial. Vão com calma, tenham paciência e se divirtam com aventuras no espaço. Christin bebeu muito de autores como Jack Vance em sua busca por criar histórias que ao mesmo tempo fossem divertidas e trouxessem algum conteúdo ou crítica social. Tem de tudo nessa HQ.










Ficha Técnica:


Nome: Valerian Integral vol. 1

Autor: Pierre Christin

Artista: Jean-Claude Mezières

Editora: SESI-SP

Tradutor: Fernando Paz

Número de Páginas: 160

Data de Publicação: 2017


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