• Paulo Vinicius

Resenha: "Sankofia - Breves Histórias sobre Afrofuturismo" de Lu Ain Zaila

Atualizado: Jun 4

Uma coletânea de histórias afrofuturistas onde vamos debruçar sobre diversos temas como identidade, desigualdade social, ancestralidade. Tudo dentro do gênero da ficção científica escrito por uma das vozes mais atuais do afrofuturismo no Brasil.


Uma imagem de uma máscara tribal negra no meio da imagem com dois rostos negros situados de perfil nos cantos esquerdo e direito da imagem. A máscara possui diversos elementos tecnológicos ao seu redor e o fundo é preto.

Sinopse:


Sankofia é uma viagem por 12 contos de inspiração afrofuturista que passeiam por várias possibilidades literárias, mesclando, por exemplo, empregadas domésticas e terror social, Maracatu e Sword & Soul, patrimônio histórico e mistério; fantasia, poderes e representatividade, ficção científica e o que nos faz humanos; cultura e mitologia africana.


Enfim... é presente, passado e futuro alinhados sobre palavras nos fazendo viajar por incontáveis mundos.






Como um todo eu gostei da coletânea. A Lu é uma voz bastante diferente do que temos por aí no mercado. Ou seja, ela tem muito a falar sobre assuntos que a gente apenas acha que já foram esgotados. Na atualidade, entendo que ela, o Fábio Kabral e o Waldson de Souza são as melhores vozes do afrofuturismo no Brasil. A escrita dela está sempre on point, ou seja, é precisa, tem poucos erros, a ponto de não incomodar mesmo. Sinal de uma ótima revisão e cuidado com o preparo do material. As histórias vão variar bastante entre a ficção científica, a fantasia e até algumas narrativas de lendas. Me incomodou um pouco o tom um pouco didático em alguns contos, principalmente nos primeiros. Acho que a Lu se preocupou demais em explicar certos pontos ou em ratificar algumas ideias. Compreendo a necessidade como parte do movimento negro, mas como ficção isso me incomodou porque quebrou o ritmo da história. Isso é algo que eu não vou ver em Isegún, a obra mais recente da autora, por exemplo. Uma narrativa já mais madura e que trabalha estas ideias sem a necessidade de se prender a um didatismo.


A coletânea começa com Era Afrofuturista e eu entendo como algumas pessoas possam não ter curtido o trabalho de cara. Trocando uma ideia com conhecidos eles acabaram ficando nos primeiros contos e não deram continuidade à obra como um todo. Tenho em mente que a Lu quis usar essa primeira história nem como uma história em si, mas como um manifesto ficcional. É aqui que ela coloca as bases do que ela entende como sendo o afrofuturismo e nos mostra um pouco de como a cultura negra está entranhada na história mundial. E não é possível silenciá-la como foi projeto político-social por séculos de um eurocentrismo tacanho que acabou sendo importado para o Brasil. Ao mesmo tempo a história se passa em um futuro próximo porque ao mesmo tempo em que é uma retomada da cultura negra e do movimento negro ao longo dos séculos, representa os sonhos e anseios da própria autora. Quando cheguei nesses trechos mais especulativos me peguei dando aquele sorriso de leve porque percebi o quanto ela é otimista em relação ao futuro.


Já o segundo conto, Existência, é um pouco mais difícil de lidar. Temos uma nave pilotada por uma tripulação humana que se vê atacada por uma estranha raça alienígena que tenta assimilá-los. Para esta raça, a mente confusa e estranha do ser humano é um bom alimento e eles desejam incorporar os homens em sua coletividade. Para isso eles manipulam as memórias dos tripulantes para aceitarem a assimilação, mas Adimu resiste a esta conexão. Achei que o conto não funcionou para mim. Já vi outros contos usarem essa temática de diferentes formas, e para eles funcionarem de forma efetiva é preciso espaço. A autora precisava trabalhar melhor as características de cada personagem ou pelo menos mais profundamente os anseios e sentimentos de Adimu. Da forma como ficou, pareceu estranho. Entendi aonde ela quis chegar e foi na ideia de que somos únicos em nossa individualidade. Homogeneizar o pensamento é esquecer o que nos torna distintos.


O tema do contato com povos alienígenas aparece em Conexão, o terceiro conto da coletânea. Nele, a doutora Adimu desperta sendo convocada para uma reunião geral. Lá ela descobre que uma das sondas enviadas ao espaço, justamente a sonda enviada pelos povos cientistas africanos, retornou com uma mensagem. Só que ela agora precisa decifrar que mensagem é essa. O dilema da personagem vai ser ter de abandonar sua lógica científica para aceitar aquilo que transcende o que podemos explicar. Somente quando sua mente se expandir e buscar respostas no imaterial é que ela vai solucionar o mistério. Gostei bastante deste conto, principalmente porque ele vai direto ao ponto e nos coloca o mistério de uma maneira que vamos acompanhando ao lado da personagem. Cada etapa é vivenciada também pelo leitor. Aqui eu percebo que a autora está finalmente encontrando a sua voz e como alternar o didatismo de apresentar a cultura africana com um conto scifi que instigue os leitores.


A cabeça de um homem negro mesclada a uma rosa, a um disco voador e um corvo em uma imagem surrealista. O fundo é na cor laranja. Ao redor da cabeça do homem negro tem um círculo formado por vários caleidoscópios e pontos negros.

Em Ternodes - O Segredo de Kanzi vemos a autora mais uma vez entrando na seara dos mistérios que transcendem a explicação humana. Porém, este conto tem uma pegada mais de fantasia do que de scifi. Nele dois guardiões Sela e Jailu protegem o mundo da ascensão do lado inverso da deusa Kanzi. Os personagens abordam o poder de formas opostas: enquanto Sela deseja o equilíbrio para conter o todo, Jailu deseja libertá-lo para possuí-lo. Ou seja, as vozes que habitam a escuridão foram capazes de afetar o personagem. Isso acaba levando a um desenlace inevitável. Apesar de ser uma trama cuja temática é de fácil compreensão achei que a história novamente sofre do problema de espaço. Não dá tempo de criarmos vínculos com os personagens. Por essa razão, o dilema de Sela não ressoa comigo. Conhecemos Jailu de uma forma brusca e até antagonística; só tem um momento na história em que eu o entendo como companheiro da protagonista.


Ainda na pegada de histórias mais voltadas para o sagrado e religioso, A Invenção das Tranças conta sobre Iori e Akilah, filhos de Lisimba e Zene que eram adorados Sol-Oran e Lua-Osunpala. Na narrativa vemos como os gêmeos Iori e Akilah, que seriam os sucessores de Lisimba e Zene precisavam escolher qual dos dois deuses eles iriam oferecer sua adoração. E sua indecisão acaba deixando-os impacientes que querem fazer de tudo para obter sua escolha. Essa é uma narrativa carregada daquele estilo mais escatológico. Ou seja, ela se passa em um tempo anterior a tudo onde o homem ainda estava nos primórdios de sua criação. A autora deixou o texto bem tranquilo de ser lido e a lição por trás da história é fácil de ser compreendida. Algumas histórias religiosas possuem uma forma complicada de narrativa, com um palavrório rebuscado, o que não é o caso. Gostei bastante.


Admissão é um conto tão pequeno que eu quase posso considerar uma flash fiction, mas eu acredito que ele passe um pouquinho da quantidade de palavras deste gênero. Trata-se da história de um rapaz que está se preparando para um teste de admissão para um programa espacial da Frota dos Países Africanos. A história é bem descritiva e mostra o dia anterior ao exame com todo o nervosismo e a ansiedade no coração do protagonista. A história não me pegou direito porque eu acho que a Lu poderia ter investido mais em uma narrativa íntima do protagonista. Algo que focasse mais nele. Algumas descrições do que ele comia ou do que ele vestia, eu entendo que faziam parte do projeto como todo, mas acabaram soando forçados e fora de tom para o conto. Havia maneiras melhores de ter feito essas inserções sem afetar a harmonia da história.


Quatro homens negros de terno em um fundo formado por peças de xadrez gigantes douradas. Toda a pintura possui uma textura amadeirada

O melhor conto da coletânea é, sem dúvida, Ode à Laudelina. Aqui a autora conseguiu imprimir tensão, crítica social e tecnologia em um caldeirão que te mantém preso até o final. A narrativa começa com Pami e seu filho Henrique colocando um anúncio para contratar uma empregada para o seu duplex em um condomínio fechado. A contratada é Amma, uma mulher negra que tem problemas auditivos (mas ela não conta isso em seu currículo porque algumas patroas não gostam de saber desse detalhe). Quando ela começa a trabalhar lá tudo parece perfeito. Perfeito e maravilhoso. Só que aos poucos a vida perfeita vai revelando alguns detalhes um pouco estranhos, provocando a desconfiança de Amma. Lapsos de tempo, estranhos hematomas, memórias confusas. Eu adorei a maneira como a Lu nos envolve com a narrativa. Porque ela vai entregando as informações muito aos poucos. E aqui é que eu digo o quanto o espaço foi importante para ela contar a sua história. Há um crescendo de tensão onde o leitor começa a ficar desconfiado ao lado da protagonista. A autora também faz um ótimo uso da estratégia da arma de Tchéckov. Ou seja, itens ou informações que ela coloca na narrativa são essenciais para a mesma. Nada está ali por acaso.


Os dois últimos contos passam uma sensação bem curiosa. São curtinhos, mas parece que a autora fez um experimento com ambos para depois quem sabe criar uma história maior com ambos. Porque foi essa a impressão que passou. O Artefato é um thriller de conspiração em que uma estudiosa de arqueologia recebe uma ligação apressada de seu professor. Quando eles se encontram, ele revela um terrível segredo para ela antes de morrer. Só que agora o alvo é ela. Inicia-se uma perseguição furiosa e a protagonista precisa encontrar alguma maneira de chegar a um local seguro. A narrativa é rápida e intensa. Gostei de como a Lu foi objetiva nas descrições aqui. Esse é o tipo de história que precisava que o autor não perdesse muito tempo com elementos desnecessários. E nesse sentido, o ritmo da história não é quebrado em nenhum segundo. É como se fosse uma batida só. Outra coisa legal nessa história é em como ela toca no tema do roubo de artefatos e em como o colonialismo europeu não retornou os objetos que foram espoliados da África. Muito do que foi levado principalmente durante o imperialismo do século XIX é reclamado pelas nações africanas que são as verdadeiras detentoras destes tesouros históricos. Alguns deles reveladores do passado e podem até questionar algumas "certezas" históricas.


Crianças Vermelhas é quase uma flash fiction que mostra um acontecimento dramático com a chegada de um cometa vindo do espaço. Sua chegada é entrecortada com uma lenda dos povos Dogon, do Mali. Não vou contar mais do que isso porque aí seria entregar a história toda. Essa é uma narrativa de empoderamento. De o quanto podemos e devemos nos levantar contra as forças que no oprimem.


Antes de fechar esta resenha queria recomendar que vocês lessem as flash fictions que se encontram no finalzinho do livro. Balfac Cke é uma excelente experiência metalinguística e vai exigir que você leia pelo menos duas vezes. O legal é que a segunda leitura quando você pegar os significados vai ser completamente diferente da primeira. E Vazia Eternidade é um daqueles contos que falam sobre a efemeridade da vida e o quanto a vida eterna tira de nós uma das características que tornam o homem um ser tão interessante: seu dinamismo.








Capa de Sankofia

Ficha Técnica:


Nome; Sankofia - Breves Histórias sobre Afrofuturismo

Autora: Lu Ain Zaila

Editora: Autopublicado

Número de Páginas: 176

Ano de Publicação: 2019


Avaliação:

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Assinatura Paulo Vinicius - Frase: "Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o começo de outra."