• Paulo Vinicius

Resenha: "Ritos de Passagem - Quando Éramos Irmãos" de Lucas Marques

Ítalo e Erika fazem uma promessa de quando eles entrarem na escola, eles seriam irmãos desde o primeiro dia de aula. Mas, a vida na escola pode não ser tão fácil e vários desafios colocarão a amizade dos dois em xeque. Esta é uma linda história sobre amizade e amadurecimento.



Sinopse:


Ítalo e Érika fizeram uma promessa: eles seriam irmãos a partir do primeiro dia de aula. Apesar de ser fácil convencer seus colegas, a distância entre os dois aumenta a cada dia e as lacunas nessa relação dão lugar a sentimentos perigosos...





Imagine sendo um jovem desenhista, fã de mangás japoneses. Você tenta copiar os traços dos seus autores favoritos enquanto trabalha na sua própria arte. Lê as histórias de Son Goku, Luffy, Seiya e tantos outros e imagina outras histórias próprias com estes personagens. Seu sonho de criança é se tornar um mangaká, mesmo sabendo que você mora no Brasil e não no Japão. Daí você começa a criar uma história baseada nas suas próprias experiências de vida. Esboça seus personagens... cria os cenários... e os diálogos fluem. Será que isso vai gerar uma boa história? Bem, Lucas Marques tentou e conseguiu criar algo lindo.


Essa é uma história sobre Ítalo e Erika duas crianças ansiosas para irem para a escola. Eles fazem uma promessa de serem irmãos desde o primeiro dia em que entrarem na escola. As aulas começam, tudo é novo. No começo tudo corre conforme combinado. Mas, pouco a pouco eles se pegam tendo interesses diferentes. Enquanto Ítalo é um menino que tem dificuldades para fazer amizades, Erika é mais extrovertida. Logo começa aquela fase de "coisa de menino" e "coisa de menina". E essas diferenças criam um distanciamento entre eles que faz com que Ítalo se entristeça. Sentimentos conflitantes habitam o seu coração: ciúmes, inveja, egoísmo. É então que ele se envolve com Douglas, um garoto malvado que gosta de destruir as coisas. E ele coloca Ítalo contra Erika. Será que a amizade deles pode resistir a essa provação?


O roteiro é de uma beleza e ingenuidade lindas. Não digo ingênuo por ser um enredo bobo, muito pelo contrário. O autor consegue abordar temáticas difíceis nesse quadrinho. Por exemplo, não é qualquer um que sabe encarar de frente questões como a maldade infantil. Esse é um daqueles assuntos que são bem incomuns hoje. Mostrar que uma criança mesmo em sua ingenuidade é capaz de fazer o mal ao seu semelhante. Basta apertar os botões certos para isso. E é curioso como o autor não usa de um discurso maniqueísta para isso. Todos os personagens tem seus momentos de fazer o bem e outros em que uma ação pode ser encarada de uma forma não muito boa. Em um momento os colegas de Ítalo fazem uma brincadeira não muito legal com ele que o faz passar vergonha diante de todos. Erika acaba rindo do que está acontecendo, o que serve para partir ainda mais o coração de Ítalo. Ser motivo de risos de pessoas desconhecidas já é ruim, mas daquela por quem ele tem um profundo amor é ainda pior.



Gostei também de como a relação entre os dois é tratada pelo autor. Tem lá os momentos em que o autor joga no ar um envolvimento de namoradinhos entre eles. Mas, isso não é totalmente o foco. Eles são amigos; mais do que isso, são irmãos. E eles se amam como tal. Um deseja a companhia do outro. Tanto um como o outro eventualmente farão amigos e nem sempre seus círculos de amizade se entrecruzarão. Só que o que eles tem um pelo outro é especial. Mesmo diante de tantas coisas estranhas acontecendo, os dois se preocupam com o que se passa no coração de cada um. No momento de crise, será essa conexão a responsável por mudar todo o rumo que a história iria tomar.


A arte é linda. Sério. Você está diante de um mangá. Ele foi feito por um brasileiro. A gente tem a falsa impressão de que o mangá é o quadrinho produzido no Japão. Mas, vários pesquisadores hoje argumentam que o mangá é um estilo de desenho. Possui várias características específicas como a preocupação com a ação durante a criação do enquadramento, os personagens mais expressivos (os famosos olhos grandes), pode ou não ter poucos diálogos e se focar mais no que está acontecendo naquele momento. Tudo isso está presente aqui. Claro que é uma leitura feita de forma ocidental. Mas, o leitor consegue associar a arte facilmente a um mangá. Para mim a arte me lembrou muito a do Osamu Tezuka em Astroboy ou Metrópolis. O design de personagens, a maneira como até mesmo os momentos de reflexão interior são tratados, a estrutura narrativa.


Algo também precisa ser comentado é como o autor soube dar espaço para sua própria arte brilhar. E como ele faz a arte falar por si só. Ele não precisa colocar balões e explicar tudo o que está acontecendo. É possível partir de um viés simbológico para tratar determinadas situações. Isso fornece até uma profundidade maior ao que está sendo dito. O roteiro e a arte combinam bem produzindo uma experiência completa. Achei o final ligeiramente apressado demais porque parece que entramos em uma louca montanha russa de emoções. E algumas pontas soltas leves ficaram para trás. Pode ser que eu não tenha entendido direito o fechamento de determinados plots, mas não é nada que comprometa a experiência global. Tenho certeza que é uma daquelas HQs que são boas candidatas ao meu melhores do ano. E o ano mal começou.



Ficha Técnica:


Nome: Ritos de Passagem - Quando Éramos Irmãos

Autor: Lucas Marques

Editora: Avec Editora

Gênero: Drama/fantasia

Número de Páginas: 144

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora









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