• Paulo Vinicius

Resenha: "Revista Mafagafo nº 1" organizado por Jana P. Bianchi

A Revista Mafagafo nasceu com a proposta de ser uma publicação de contos de fantasia e ficção científica que publica partes de histórias a cada edição. A partir da junção de várias delas, forma-se um todo. Nesta resenha, vamos falar sobre a primeira rodada de histórias. Querem saber mais? 

A Mafagafo é uma revista voltada para a publicação de contos de fantasia e ficção científica. A proposta é criar uma revista cujos contos são publicados em série. A cada edição o leitor vai curtindo partes do conto publicados a cada nova edição da revista (mensal) e ao final de quatro ou cinco edições, o leitor possui a versão completa. Esse é um formato que já existe no mercado americano no formato da Uncanny Magazine e é um sucesso total. A diferença é que a versão nacional pretende mesclar novos talentos com autores já experientes, formando um mix interessante de histórias.

Eu adorei a proposta e nos aspectos técnicos técnicos a revista está sensacional. Uma ideia muito legal é a de criar ilustrações para o início de cada história. Isso dá um gás na narrativa ao mesclar imagem e texto. Artistas são convidados para criar artes conceituais para cada conto. A revisão dos textos está muito boa também. A gente pode mergulhar na história sem nos preocupar com erros ou textos truncados. Isso aí é competência total do pessoal que toma conta dessa importante parte do processo editorial.

A resenha que segue é a dos contos passo a passo. Li as quatro partes da primeira edição e estou comentando sobre os contos fechados.  


Contos presentes nesta edição:


1 - "Tons de Rosa" (de Fernanda Castro)

2 - "<deletado>" (de Rodrigo de Assis Mesquita)

3 - "Pé de Coelho" (de Eric Novello)

4 - "Encantadores de Dragões" (de Rodrigo van Kampen)

5 - "Eterna: A Cidade Perdida" (de Roberto de Sousa Causo)


Vamos às resenhas:


1 - "Tons de Rosa"


Autora: Fernanda Castro Avaliação:

Gênero: Fantasia




A Fernanda Castro criou uma narrativa muito legal sobre uma assistente social trabalhando em um recanto no norte do Brasil onde ela precisa conscientizar a população sobre os frequentes afogamentos de crianças. Para as pessoas da vila, estes meninos estão apenas voltando para a água, já que são filhos do boto. Mas, nossa protagonista não consegue aceitar algo tão ridículo como uma superstição folclórica. Ela vai buscar descobrir a fundo o que está acontecendo.

Cresce cada vez mais a quantidade de histórias fantásticas escritas por autores nacionais buscando inspiração nas lendas pelo Brasil afora. Me sinto feliz que se perdeu um pouco desse ranço de usar o folclore brasileiro para a criação de histórias. Quem está acostumado com as lendas do saci ou do boitatá que nos são apresentadas na escola, não fazem ideia de o quão tenebrosas estas histórias são. Esqueçam a ideia do garoto negro pulando em um pé só com um gorro bonitinho. São histórias cautelares voltadas para assustar as pessoas.

Fernanda calca muito bem a sua narrativa na realidade. Ou seja, o que está acontecendo na aldeia pode ser algo sobrenatural ou não. O leitor vai precisar acompanhar a narrativa para saber. A atmosfera distante do lugar oferece tudo o que ela precisa para construir a tensão em sua história. Como tudo é muito distante, não há o acesso a coisas modernas. É preciso investigar as circunstâncias com o que a personagem dispõe naquele momento. Gostei muito da construção de personagens; todos parecem muito verossímeis. É quase como se eu estivesse observando uma pessoa na rua. Para uma história curta, a autora conseguiu ser competente ao dar essa verossimilhança aos personagens, tirando o ar de caricatura que normalmente é feito com pessoas do interior.

Há um debate aqui entre natureza e justiça. Algo horrível pode ser justificado a partir de um instinto natural? Fico pensando imediatamente na cadeia alimentar. Um leão pode ser considerado um assassino porque mata suas vítimas para se alimentar? Eu sei que a essência do que a autora escreve está em outro setor da biologia humana, mas a discussão é semelhante. Ao seguir nossos instintos naturais, uma ação passa a ser julgada de acordo com nossos códigos de ética social. Mas, se formos resgatar situações da Pré-História podemos ver que os próprios seres humanos matavam ou abandonavam aqueles que fossem mais fracos. Isso porque estes não eram capazes de contribuir para a comunidade. Enfim, não posso dar grandes detalhes sobre a discussão da Fernanda porque do contrário eu estragaria o plot twist. De toda forma, gostei bastante do ritmo da narrativa e do que ela quis dizer com a história.  


2 - "<deletado>


Autor: Rodrigo de Assis Mesquita Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Cá estou eu lendo novamente um conto do Rodrigo de Assis Mesquita e adorando a forma como ele aborda o futuro próximo. Se tem um autor que abraça sua natureza cyberpunk é este autor. Desde a série Brasil Cyberpunk que ele nos apresentou grandes ideias a partir de premissas simples. Aqui novamente ele nos coloca diante da criação de uma tecnologia chamada Compilador da História capaz de editar os registros de uma pessoa. O protagonista faz parte da equipe de desenvolvimento deste projeto e acaba por descobrir aquilo que está acontecendo nos bastidores.

Com uma narrativa em primeira pessoa onde o narrador está nos contando o que aconteceu com ele, a gente fica com aquela sensação de 1984, do George Orwell. Quando somos colocados diante de uma sociedade que aparentemente é justa, mas que por trás dela existe um forte controle sobre tudo o que uma pessoa faz. Aquela falsa sensação de segurança que esconde uma administração controlando todos os nossos passos. É de uma claustrofobia assustadora. Só para constar, nós vivemos em uma sociedade que não está tão longe disso. Temos câmeras por toda a parte nos observando a todo instante. Tudo o que fazemos na internet fica registrado de alguma forma. Imagine se houvesse uma forma de apagar nossa própria existência dentro do mundo?

O autor precisa de bem poucos personagens para construir sua narrativa. E ele faz isso muito bem nos colocando diante do protagonista, de Milla (uma amiga de infância que pode estar envolvida com um movimento de oposição), de Beatriz (a pessoa de quem o protagonista tem um crush) e o Doutor (a mente por trás do projeto). O que começa como uma narrativa em um mundo aparentemente aberto, vai se fechando pouco a pouco até formar um lugar do qual sabemos que não poderemos escapar.

A narrativa é muito bem construída em seus três atos onde o autor primeiro nos apresenta o universo literário, depois aprofunda as relações e fecha a trama com um belo plot twist. Aliás, é uma daquelas viradas narrativas que a gente nem desconfia que aparece até tomar uma voadora na cara. Bela maneira de surpreender o leitor. 


3 - "Pé de Coelho"


Autor: Eric Novello Avaliação:

Gênero: Fantasia




Por incrível que pareça esse foi o primeiro conto que eu li do Eric. Um autor já com uma trajetória muito boa, com narrativas que exploram a fantasia a partir de um viés mais contemporâneo. Sempre tive receio de ler os seus trabalhos porque eu me sentia na obrigação de estar preparado para o que ele iria me apresentar. Todos os seus livros tinham ótimas sinopses o que estimulava a minha vontade de adquiri-los. Mas, eles sempre ficavam para “quando eu estiver mais preparado”. Bem, hora de tirar esse atraso.

Pé de Coelho se situa no mesmo universo do livro Neon Azul, uma espécie de mundo igual ao nosso mas com aquele pézinho no sobrenatural escondido naquele beco escuro ou naquela boate estranha. O sobrenatural se mescla perfeitamente com o natural. Porém, se Neon Azul se passa no centro do Rio de Janeiro, este se passa em São Paulo, onde Diana, uma jornalista que quase sempre está próxima a situações perigosas é convidada pelo poderoso Alquimista, uma poderosa figura do submundo envolvida com as situações mais controversas, para acompanhá-lo durante uma noite. Diana tem seus próprios objetivos pessoais nesse encontro que vamos ficar sabendo ao longo do conto. Mas, quando ela chega ao ponto de encontro, ela se depara com uma pessoa usando uma máscara de Coelho que parece saber muito a respeito do Alquimista. É aí que irá começar uma longa noite.

Tenho sentimentos muito divididos em relação a essa narrativa. Embora eu tenha gostado muito da escrita do Novello, sempre instigante e trabalhando muito no gestual dos personagens, a história não foi capaz de me prender. Começando pelo lado positivo, gosto de autores que nos fazem imaginar como um personagem se move, fala ou gesticula. Isso cria muita personalidade a ele, além de nos fornecer uma leitura que está além das linhas escritas. Determinadas cenas poderiam ser interpretadas de uma maneira completamente diferente caso o autor não fosse capaz de nos mostrar qual é a linguagem não verbal do personagem. Essa característica é mais clara quando um personagem está querendo ser sarcástico ou fazer uma piada, mas é muito mais difícil de se conseguir em situações que exigem maior seriedade. Quando um personagem está feliz? Ou se sentindo confiante? Como discernir uma frase inocente sendo dita de forma ameaçadora sem eu dizer que ele está parecendo ameaçador? Novello consegue fazer isso apenas descrevendo o olhar, ou um tique específico ou uma passada pelo cenário.

Já o lado negativo veio muito de o conto se passar inteiramente dentro de um quarto. Não gosto muito de cenas paradas a menos que o autor explore outros cenários através de flashbacks ou mudanças de ponto de vista. Para mim pareceu uma longa sequência de talking heads (pessoas conversando) que levou a uma cena de ação incrível no final. A leitura me pareceu arrastada na segunda e na terceira parte e não me fez comprar os riscos apresentados por Novello. Tanto que para mim a quarta parte foi a melhor: onde ele conseguiu nos surpreender através de um plot twist e nos colocar no meio de uma sequência legal de troca de tiros.

Me convenci então de que eu estou preparado para encarar outros trabalhos do autor. É o momento de pegar e me embrenhar no mundo criado por ele e ver por que Neon Azul é uma obra tão elogiada por meus amigos. Devo isso ao autor e a mim mesmo como leitor e apreciador de boas histórias de fantasia.  

4 - "Encantadores de Dragões"


Autor: Rodrigo van Kampen Avaliação:

Gênero: Fantasia




Depois de ler um trabalho de ficção científica do Rodrigo, nada como ler uma fantasia. Gostei da polivalência dele, mantendo até o espírito da forma que ele tem de narrar histórias. Para quem leu Trabalho Honesto, em O Encantador de Dragões, temos a boa fórmula que torna o texto dele tão atrativo: uma narrativa interessante, personagens bem trabalhados e um final coerente com a proposta apresentada no começo da história.

O mundo criado pelo autor é assolado por feras terríveis que assolam os vilarejos. No lugar onde Mayara, nossa protagonista mora, surge um feiticeiro poderoso chamado Hugo que consegue dar paz à vila afastando os dragões. Para permanecer ali, Hugo só faz uma exigência: crianças precisam ser enviadas até a torre onde ele vive para ajudá-lo durante um ano e depois são enviadas ao Lorde do Rochedo. Só que as crianças que vivem com Hugo voltam estranhamente modificadas. Mas, Mayara se oferece para ir até a Torre porque deseja se tornar uma feiticeira também. Ela verá que conquistar o seu sonho pode vir a um custo bem alto.

A narrativa é feita em primeira pessoa, mas o autor consegue tornar a voz da protagonista interessante. Ela tem todos os aspectos de uma criança da idade dela: sonhadora, curiosa e até um pouco petulante. Isso a torna real em um mundo fantástico. O outro menino, Lúcio, não recebe tanta atenção do autor. Acaba se transformando mais em um personagem de fundo. Também gostei da forma como o feiticeiro Hugo é apresentado com uma perspectiva muito ambígua. Não sabemos definir se ele é apenas um recluso ou se ele é maligno. Suas atitudes não nos permitem definir isso com certeza.

Só achei que a narrativa é um pouco desbalanceada. Em determinados momentos, eu percebi que o autor se perdeu no que estava construindo. As coisas não fluem tão dinamicamente nas partes que se situam no meio da história. Só lá para o final da terceira parte é que parece que a narrativa volta para os eixos. Talvez seja por isso que eu tenha perdido parte do meu interesse pela história em si. Gostei em parte de como a história é finalizada porque senti que o destino de Mayara não fica bem claro. Mas, a história é bem divertida e eu queria ver o Rodrigo atacando fantasia mais vezes. Podem até ser novas histórias da Mayara.  


5 - "Eterna: A Cidade Perdida"


Autor: Roberto de Sousa Causo Avaliação:

Gênero: Ficção Científica (Steampunk)




Estamos diante de um autor que faz parte da velha guarda da ficção científica no Brasil. Alguém que pensa o gênero de uma forma bem diferente do que é feito nos dias de hoje. O mais legal é ter uma revista que coloca autores tão diferentes lado a lado e nos permite perceber como existem diversas abordagens para o gênero. E talvez possamos aprender um pouco com Causo sobre como construir uma história divertida ou como criar momentos memoráveis em cada edição, prendendo a atenção do leitor por mais tempo.

Vou ser direto e falar sobre o que eu não gostei logo na apresentação da narrativa. Continuamos a ver as aventuras de Ulisses Brasileiro depois que ele conseguiu fugir com Larsinie de uma armadilha montada por Robida. Agora, Ulisses é levado até a cidade de Eterna, uma imensa cidade flutuante no Brasil central. Ulisses será recebido de forma amistosa ou ele descobrirá novos inimigos? Não consegui gostar da narrativa… não por completo. Isso porque essa é uma continuação das aventuras de Ulisses. Fica estranho a gente acompanhar a continuação de uma aventura acontecida em outra história. Por mais que Causo tenha feito uma boa recapitulação na primeira parte deste conto, tudo me parece muito estranho. Me sinto como se eu chegasse de pára-quedas no meio da narrativa e sem uma bússola para me guiar. Creio que o autor tenha feito a apresentação dos personagens e do universo literário no outro conto. Por mais que ele tenha procurado me situar, não consegui ajeitar o meu prumo para acompanhar o que estava acontecendo. Posso parecer chato, mas eu gosto de me apegar aos personagens, de sentir de onde eles vieram, como eles vão conhecendo seus aliados. Por ex: tem uma situação no final da narrativa onde Ulisses precisa lutar e o autor nos coloca que ele sabia lutar savate aprendido na velha academia. Eu percebi na hora que a tal da academia era importante para entender a índole do personagem.

Por outro lado, Causo é um dos poucos autores que conseguem transportar o gênero pulp para suas histórias. Como é bom ter esse feeling de uma história divertida e descompromissada. Ulisses é um aventureiro, um cara que se arrisca para manter sua palavra e seus ideais. Não sei como vocês imaginaram o Ulisses, mas na minha mente ele parece um Indiana Jones brasileiro. Uma das coisas que eu mais gosto nos pulps é como eles permitem que o autor viaje completamente sem ser obrigado a dar grandes explicações sobre suas decisões narrativas. Juro que eu senti flashes da escrita do Edgar Rice Burroughs nas linhas de Causo. Chegou a arrepiar. Acredito que eu seja um dos poucos lunáticos na blogosfera literária que realmente curtem as aventuras de John Carter. E Causo me transportou para um mundo steampunk que me lembrou demais esse tipo de narrativa. Gente, ele usou Ambrose Bierce (um escritor do século XIX) como companheiro de Ulisses. Aliás, me pergunto se o fato de ele chamar seu protagonista de Ulisses não tenha a ver com o Ulisses de Heródoto em A Odisseia.

É uma pena que esta seja a segunda história do autor que eu leio e não consegui curti-la. Digo ser uma pena porque Causo tem o tipo de escrita e de composição narrativa que eu mais gosto. Curto histórias descompromissadas, curto universos extravagantes e curto principalmente quando um autor emprega habilmente a história do Brasil para criar algo só seu. Por essa razão eu quero me dar mais oportunidades de ler materiais do autor.  

Ficha Técnica:

Nome: Mafagafo vol. 1 Organizado por Janayna Bianchi Editora: Auto-Publicado Gênero: Ficção Científica/Fantasia Número de Páginas: 240 Ano de Publicação: 2018


Link para download:

www.revistamafagafo.com.br


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