• Paulo Vinicius

Resenha: "Polícia Fantasma" de Luciano Nascimento

O policial Franklin está realizando uma intensa perseguição ao terrorista Alvarado. Sua divisão especial contém oficiais que desistiram de seus corpos físicos para se tornarem dados e poderem se incorporar a qualquer cidadão que disponha de um neurofone. Mesmo assim, Alvarado parece ser incansável.



Essa é uma grande cena de perseguição onde o autor vai trabalhando diversas temas à medida em que ela se desenrola. Luciano faz isso de uma forma bastante inteligente e o que parece ser uma história curta e rápida revela ter muito mais escondido nas entrelinhas. A narrativa segue o policial Franklin em uma captura a um terrorista chamado Alvarado. Este realizou uma série de ataques a instituições que controlam os neurofones, uma espécie de identificação deste mundo futurista. Ao realizar seus ataques ele causou diversas mortes colaterais. Franklin conta com sua habilidade como membro da polícia fantasma: ele é capaz de se incorporar em qualquer pessoa que possua um neurofone. Só que quanto mais incorporações ele fizer em uma semana, mais memória passada ele vai perdendo, até não restar mais nada de si mesmo.


A narrativa trabalha bastante acerca da memória. Alvarado parece estar seguindo vozes que dizem sobre o quanto o governo é corrupto. O fato de os policiais fantasmas poderem incorporar em pessoas inocentes é entendido por ele como uma quebra da liberdade, além do fato de colocar as pessoas em risco. Só que sua memória sobre o que está acontecendo é meio fugidia, então o leitor nunca sabe ao certo se as críticas dele são válidas ou são exageradas. Por outro lado temos Franklin que é um policial que não mede esforços para completar sua missão. Mesmo se ele tiver que colocar sua existência em risco. Ele só consegue manter sua essência por pura força de vontade. No posfácio, o autor coloca que a ideia dele era colocar em xeque a discussão sobre a memória como algo dado ou a memória como força de vontade. Até achei válido esse debate só que a narrativa acaba abraçando outras temáticas que talvez o autor não tenha pensado inicialmente.


Por exemplo, as incorporações. A maneira como Franklin as realiza é extremamente invasiva. Ele simplesmente incorpora e pronto, usa o corpo o quanto quiser. Muitas vezes sem o consentimento da pessoa. A divisão da polícia fantasma é uma divisão secreta. Por essa razão é que é possível fazer essa inferência. O autor não nos fornece exatamente uma contextualização acerca do mau uso dessa habilidade, mas é óbvio que ficamos com a pulga atrás da orelha. O quanto isso representa uma sociedade de controle? Mesmo Alvarado usando métodos reprováveis para alcançar seus objetivos, sua motivação é válida. Também não sabemos que vozes são essas que direcionam o personagem rumo aos seus alvos.


Ao mesmo tempo, Luciano distorce a dinâmica de mocinho e bandido. Como a narrativa é contada em terceira pessoa, mas da perspectiva dos dois personagens, conseguimos vê-los racionalizando suas ações. Gostei bastante de como o autor alterna entre os dois pontos de vista sem a necessidade de usar marcadores óbvios de transição. O leitor simplesmente sabe quando ele mudou de ponto de vista. Fica bem claro. Algumas dessas transições ocorrem de um parágrafo para o outro. Sua escrita é extremamente veloz e combina com a ideia de uma perseguição em alta velocidade.


Meu único porém é que eu achei a contextualização ótima e a narrativa merecia um desenvolvimento maior. Claro que isso iria estragar a ideia do autor de uma narrativa inteiramente concentrada em uma grande cena de perseguição. Um desenvolvimento maior demandaria construção de mundo, de personagens, o que encorparia mais a narrativa. Mas, as discussões acabaram ficando rasas frente ao que poderia ser de verdade. Daria uma história incrível, porém o resultado final ficou apenas normal. O que eu percebo é que as limitações de um conto intimidam os autores a desenvolver o potencial máximo de suas histórias. E não deveria ser assim. É no conto que experimentamos, que ousamos. Basta ver ótimos exemplos de contistas nacionais como o Duda Falcão e a H. Pueyo. Eles dominam a arte de dizer muito em um espaço curto. Mesmo assim, gostei bastante do conto e espero ler mais coisas do autor.











Ficha Técnica:


Nome: Polícia Fantasma

Autor: Luciano Nascimento

Editora: Revista Trasgo

Número de Páginas: 21

Ano de Publicação: 2020


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