• Paulo Vinicius

Resenha: "Passagem para a Escuridão - Parte 1" de Danilo Sarcinelli

O retorno de César após anos de exílio deixa todos da corte de Tibéria em alerta. Sua ambição desmedida pode levar o reino à ruína. Mas, um perigo oculto no seio do reino pode abrir as portas da escuridão para sempre. Esta é apenas uma das várias tramas de Passagem para a Escuridão.

Sinopse:


Guiados pela crença no deus-sol Ravi, que ajudou a humanidade a derrotar a Legião Negra do demônio Arkmal, a família Dante tornou a Tibéria um reino próspero e pacífico. Ou pelo menos é o que parece na superfície.

Quando o herdeiro ao trono César Dante é exilado após um ato impensável, a corte tiberiana divide-se em facções com planos próprios para o reino. E estão dispostos a tudo para garantir que consigam chegar ao poder.

Às vésperas do aniversário de dezoito anos do príncipe Lúcio Dante, um atentado põe em movimento um plano que mudará a Tibéria e os reinos vizinhos para sempre.

Nesta história fantástica, o autor Danilo Sarcinelli costura uma trama de intrigas palacianas e segredos macabros que envolverá sem perdão um jovem príncipe que nada mais quer além de viver seu grande amor, mesmo que para isso precise descobrir coisas inimagináveis sobre si e sua família.




Criar enredos complexos nem sempre é uma tarefa muito simples. É preciso tecer uma teia que envolva todos os personagens de forma a criar uma narrativa coerente e que atraia o leitor. Os acontecimentos vão se empilhando um atrás do outro até o momento do clímax onde as várias tramas convergem para uma espécie de momento final. Neste livro de estreia, Danilo escreve uma narrativa repleta de acontecimentos que acabam por envolver todos os personagens de uma maneira explosiva.

Admito que fiquei impressionado com a ousadia do autor. Criar uma trama desse nível logo de cara não é algo que muitos tentem fazer. E o que me deixou mais feliz foi ver como a escrita dele é suave e concisa, sem cometer muitos erros. O leitor pode até não gostar da narrativa (e não vou entender por que disso já que a história é excelente), mas não terá qualquer dificuldade em compreender os vários meandros que unem a história. Senti muita segurança nas linhas do livro a ponto de em um determinado momento eu ter esquecido que precisava observar atentamente a escrita. Simplesmente não havia qualquer necessidade. A escrita é em terceira pessoa com vários pontos de vista. O que eu senti que o autor poderia ter feito é suavizar a transição entre diferentes pontos de vista. Em alguns momentos da história eu me senti perdido sobre quem estava falando ou qual ponto de vista estava sendo apresentado.

“O bom pastor faz suas ovelhas acreditarem que escolhem o próprio caminho.”

A diversidade de personagens presentes na história é impressionante. O autor consegue passar por todos os núcleos da narrativa oferecendo visões diferentes sobre a história. Uma das minhas maiores preocupações era o narrador ser capaz de dar profundidade a tantos personagens simultaneamente. E tal não é o que acontece. Apesar de haver desequilíbrio em relação a alguns (bem poucos mesmo) personagens, o leitor consegue desenvolver uma empatia por todos os personagens. Cada um deles possui algum tipo de questão ou situação a ser desenvolvida na história. Algumas dessas situações são resolvidas neste mesmo volume enquanto outras ficam como ganchos para volumes posteriores. Um ponto que eu acho que o autor poderia ter feito é sinalizado sobre os elementos negativos presentes no protagonista. O desenvolvimento em sonhos é interessante, mas alguns desses sentimentos poderiam ter passado para o convívio social dele. Uma reação desproporcional, palavras ásperas, um olhar de esguelha. Todas são possibilidades para demonstrar que algo de errado estava acontecendo o personagem. Seria uma espécie de queda progressiva.

Outro personagem que eu gostei bastante foi o inspetor Diocleciano. Ele fornece até mesmo uma mudança narrativa na escrita. Os capítulos em que ele participa parecem saídos de um livro de investigação. O autor poderia ter explorado mais essa mudança súbita de escrita; dá um efeito bem legal. Cesar nos fornece a visão de um dos antagonistas da história e sua visão fanática é bem representada pelo autor. Aliás, o fanatismo é um dos temas explorados pelo autor. Como esta postura de César o levar a tomar medidas desproporcionais. Vemos alguns vislumbres das perseguições religiosas semelhantes às que ocorreram no final do Império Romano. Aliás, é perceptível a inspiração romana na narrativa do autor. E não, não estou me referindo aos nomes, mas aos temas.

Outro tema explorado neste primeiro volume é escuridão que existe dentro de cada um de nós. E como nem sempre conhecemos bem as pessoas que amamos. Somos surpreendidos por algumas situações ao longo do livro que nos deixa de cabelos em pé. Personagens que julgamos de uma forma, na verdade possuem segredos incríveis escondidos. No final deste primeiro volume, passamos a nos questionar o quanto apresentamos realmente quem somos a quem amamos. O que o protagonista passa é o suficiente para ele questionar uma série de valores que ele julgava como certos. Outros personagens como Marco e Diana passam por situações semelhantes. Como passar por cima destas situações? Alguns personagens acabam negando os acontecimentos; outros acabam se aproveitando destas situações para obter alguma vantagem; alguns outros acabam sendo afogados por estas situações.

“A verdadeira escuridão que espreita o coração dos homens é a abulia e o vazio moral.”

Neste sentido aqui tem o problema mais grave que eu encontrei no trabalho do Danilo: os plot twists. Apesar de ser um problema mais grave, é preciso ressaltar de antemão que Passagem para a Escuridão é um livro bem redondinho e que o que vou apontar aqui é muito mais para ajudar o autor do que algo que vá incomodar os leitores. Plot twists são empregados hoje de uma maneira bem comum por autores para fornecer um elemento de surpresa aos leitores. São as viradas narrativas, apresentando algum acontecimento chocante que acaba por mudar o rumo da história. Só que, como qualquer elemento narrativo, ele precisa ser apresentado com cuidado. Um plot twist precisa ser coerente, ou seja, o autor precisa dar pistas sutis que ele pode acontecer. A virada não pode acontecer "caída do céu". Quando o leitor vê a virada, ele pode se lembrar de alguma fala, olhar ou acontecimento anterior que corrobore a virada. E muitos acontecimentos em Passagem para a Escuridão não deixam pistas para um plot twist que ocorre mais à frente. Algumas revelações me soaram estranhas porque me pegaram realmente de surpresa. Nesse sentido, voltei alguns capítulos para ver se havia algum indício da virada, alguma fala jogada pelos personagens, mas eu não os encontrei. Talvez eu possa ligar este problema dos plot twists à colocação sobre a decadência do protagonista. Talvez. Mas, novamente, esse problema eu percebi por conta da minha leitura atenta. A escrita do Danilo é tão boa que você pode passar a história inteira sem reparar nisso.

A narrativa tem uma boa separação entre início, meio e fim. O autor soube dosar muito bem estes três momentos. Introdução do mundo, desenvolvimento do plot principal e dos subplots e o clímax narrativo com um epílogo deixando um gancho para o próximo volume. Os capítulos são de tamanho mediano, não sendo nem um pouco cansativos. Achei até que eu os passava de maneira até ávida, querendo saber o que aconteceria a seguir. A narrativa segue um ritmo bem seguro e não achei que teve barrigas na história. O tamanho ficou bem satisfatório e é suficiente para que o leitor consiga se apegar aos personagens e se emocionar com a história. Talvez a narrativa sofra um pouco da síndrome do primeiro volume, mas isto é tão normal em séries que eu já até passo por cima desse problema. Acho que são raríssimos os autores que conseguem não passar isso para a história.

Para quem espera uma história com muita magia, preciso alertar que o Danilo tem os pés bem no chão. A magia parece estar ali, mas de uma maneira mais sutil. A mim me parece que se trata de uma história mais focada nas pessoas do que em criaturas ou feiticeiros que soltem bolas de fogo. Eu gosto dessa pegada do autor. Parece ser um livro de fantasia, mas mais em um sentido de histórias de conquista e traição como se tornaram bastante comuns nos últimos anos. A diferença é que ele dá personalidade ao reino que ele cria. Ainda acho que o Danilo precisa fazer uma construção de mundo mais apurada no segundo livro, mas não é nada espetacular. E se duvidar, é isso mesmo o que ele deve fazer a seguir.

“Sua vida até aquele momento havia sido um lindo sonho de luz e de paz. Não passava de uma fantasia, uma ilusão. A dura realidade desabafa com um balde de água fria em cima de sua cabeça. O futuro dali em diante seria uma trilha escura cercada por sombras nefastas”.

Para quem gosta de uma boa história a la Game of Thrones, Passagem para a Escuridão pode te surpreender positivamente. Uma escrita segura e bem experiente para um autor que começa a publicar seus trabalhos. Os personagens, mesmo em grande número, são muito bem trabalhados pelo autor. O leitor consegue se apegar a cada um deles que recebem bom tempo no palco. Se estiverem procurando por uma fantasia mais pés no chão, este pode ser o seu livro.


Ficha Técnica:


Nome: Passagem para a Escuridão - Parte 1

Autor: Danilo Sarcinelli

Editora: Jambô

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 288

Ano de Publicação: 2018


Outros Volumes:

Passagem para a Escuridão - Parte 2


Link de compra:

https://jamboeditora.com.br/produto/passagem-para-a-escuridao-vol-1/


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