• Paulo Vinicius

Resenha: "Orks" de Nicolas Tackian e Nicolas Guenet

Os orks tentam acabar com a ameaça dos homens. Eles desejam escravizá-los e espalhar a palavra do Único, o verdadeiro deus. Mas, com a morte do chefe ork, Gorko, um ork de poucas palavras e muito sangue, assume a chefia. A guerra entre orks e homens está para estourar.

Sinopse:


Humanos e anões se unem para escravizar as raças antigas e cabe aos Orks enfrentar esta ameaça e salvar a sua tribo! Em Orks, HQ com roteiros de Nicolas Tackian e arte de Nicolas Guenet, estas criaturas não são os grandes, asquerosos e tradicionais vilões como em muitas obras. Eles são apenas mais uma das raças antigas que povoam o mundo. Orks podem ser violentos e bárbaros, mas também são muito conectados ao planeta e a natureza, tentando viver em paz com seus costumes ancestrais. Neste mundo, os humanos são os grandes expansionistas, escravizando as outras raças antigas, com a ajuda de anões e suas máquinas de guerra. Os elfos são seres muito mais tribais, canibais e reclusos e a situação apenas piora quando todas estas raças entram em um conflito eminente. Orks mostra um outro lado, pouco explorado na maioria das obras do gênero, misturando uma arte impactante e visceral com um roteiro profundo, que fica por um bom tempo na cabeça após a leitura.




Os orcs sempre são pensados como aqueles soldados rasos de supervilões. Heróis matam estes semi-humanos às centenas, diante de gritos e rugidos de guerra. Nicolas Tackian decidiu inverter o ponto de vista. E se os orcs fossem os protagonistas e os humanos é que fossem os vilões. Que tipo de história isso daria? Com essa mentalidade, o autor cria uma história no mínimo interessante. 

A edição da Mythos está muito bonita. Em tamanho europeu, a edição favorece o traço do Nicolas Guenet que tem belas composições de cena. Orks pertence ao selo Gold Edition com edições de luxo e justifica bem isso. Edição em capa dura com papel de boa gramatura que dá a impressão de uma HQ maior do que ela é. Não senti nenhum problema na impressão e acho que devo ter visto um errinho de tradução, mas, sinceramente, um não é nada (tanto que eu sequer me recordo se foi na primeira ou na segunda partes). Novamente eu senti falta de um extra no final. Acredito que na edição europeia não tenha, mas seria legal se a Mythos pensasse em criar matérias no formato de editorial para a edição brasileira (não sei nem se pode, mas seria legal se pudesse). 

A narrativa do Tackian é eficiente em apresentar a proposta e os objetivos da trama. Mas, achei que ela não foi tão bem aproveitada quanto poderia e em alguns momentos me pareceu confusa. A primeira parte é muito boa e vai apresentando os elementos narrativos de forma calma e progressiva. A segunda parte eu achei muito corrida. E eu senti que tinha muito a ser extraído ali. Só senti um estranhamento quanto à velocidade como os plot twists foram apresentados. Em um dado momento eu tive que parar, voltar algumas páginas para tentar entender o que estava acontecendo. As últimas dez páginas aconteceram coisas demais para podermos processar. Normalmente quando o final é agitado, tendemos a dizer que a narrativa está dinâmica e repleta de ação. Mas, não foi isso o que aconteceu exatamente. Alguns momentos foram de choque, mas não aquele choque que agrada ao leitor, mas o choque pelo choque. 

O traço do Guenet é bem detalhista. Algumas construções que ele faz de maquinários dos anões são incríveis (apesar de que na segunda parte eles ficaram meio estranhos). Tem uma cena no final da primeira edição em que os protagonistas estão observando as máquinas entrando na floresta, que é uma cena belíssima. O artista abusa bastante do laranja e do marrom o que dá um tom meio de alvorecer. Algumas cenas também em que são apresentadas cenas de rituais tribais ou até mesmo das árvores com silhuetas são brutais. O artista tem uma boa noção corporal. A gente consegue perceber os vários modelos físicos que ele usa ao longo da narrativa. Não só de raças diferentes de personagens (ele usa elfos, anões, orcs e humanos), mas entre as raças existem vários diferenciais. Ele consegue dar sutileza e até delicadeza aos orcs. Só achei que o artista trabalhou pouco as silhuetas dos anões. 

"A árvore-totem é, ao mesmo tempo, túmulo e protetora de nossa tribo. Escalar seu tronco é como renascer... mas também pode levar à morte."

Essa é uma HQ com temáticas surpreendentes. Se pegarmos em uma análise fria e superficial, vamos imaginar que não há grandes reflexões sendo feitas. Mas, se aproximarmos a lupa temos temas como moderno x antigo, politeísmo x monoteísmo, escravidão. O tema que mais salta à mente é o da escravidão. A revolta dos orcs em relação aos humanos tem a ver com o tratamento indigno que estes recebem dos últimos. As guerras territoriais acontecem e os aprisionamentos também. O que incomoda aos personagens da história é o tratamento e a forma como o seu território tem sido vítima da destruição dos humanos. Na história, os membros das camadas dirigentes na cidade humana enxergam os orcs mais como animais a serem abatidos. O julgamento é feito em relação à sua aparência e cultura. Aliás, a cultura orc é completamente descartada pelos humanos. É possível fazer um paralelo com o colonialismo exercido pelos europeus em relação às culturas africanas do século XIX. Estes perceberam a ameaça que a entrada dos europeus no continente representaria uma ameaça direta às suas culturas. 

E podemos relacionar isso com o conflito entre tradição e modernidade. A todo o momento vemos os orcs recorrendo ao apoio espiritual, a oráculos de forma a guiá-los em suas decisões. Vemos até um conflito entre o líder tribal que deseja a guerra e os anciãos que pedem cautela. Não há um consenso entre as duas partes sobre que atitudes tomar em relação à ameaça que se avizinha. Do outro lado temos seres humanos usando semi-humanos como objetos descartáveis e promovendo a intolerância para incentivar a população contra os orcs, últimos remanescentes não conquistados das raças antigas. Nesse sentido fica a dúvida: guerrear ou buscar uma linha de diálogo, onde o outro lado não deseja esta linha? Em nenhum momento o leitor é colocado diante de um contexto onde os humanos desejam de fato acabar com a guerra. Apenas a sacerdotisa é contra, mas por conta de suas convicções religiosas. 

Não posso deixar de mencionar a questão religiosa como um ópio para o povo. A crença no Deus Único cega a população quanto à ameaça que este exerce sobre o cultos antigos. Claro que Tackian usa elementos sobrenaturais para dar um caldo a isso, mas me parece o conflito entre o monoteísmo (religião com apenas um deus) e o politeísmo (religião com vários deuses). O monoteísmo surge com uma mensagem simples e de compreensão, mas em seu âmago seus praticantes são intolerantes e destrutivos. A sacerdotisa representa o lado ponderado de tudo, tendo em seu coração uma visão inocente e ingênua sobre o que sua religião representa. Quando ela é apresentada aos fatos cabais, vemos o choque de alguém que teve suas convicções abaladas. Ao final, o autor propõe uma solução de meio-termo que eu achei estranha no sentido de que parece haver um volume 2 da história. Se ele tivesse encerrado ali com uma história fechada, eu teria compreendido. 

Orks é uma HQ surpreendente com um roteiro bom. O que parece ser algo simples, vai apresentando múltiplas camadas que revelam toda uma complexidade escondida nas linhas. A arte de Guenet é bem detalhista, apesar de que perdeu um pouco do brilho na segunda parte com uns trechos meio confusos. 


Ficha Técnica:

Nome: Orks vol. 1 Autor: Nicolas Tackian Artista: Nicolas Guenet Editora: Mythos HQs Gênero: Fantasia Tradutores: Octávio Aragão e Paulo Henrique Goés Tirré Número de Páginas: 116 ​Ano de Publicação: 2018 Link de compra: https://amzn.to/2QWSs0G


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