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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "O Último Recreio" de Carlos Trillo e Horácio Altuna

Depois que uma bomba biológica acabou com todos os adultos, um grupo de crianças tenta sobreviver em um mundo diferente do que era antes. Tudo isso com a sombra do fato de que se eles entrarem na puberdade, morrerão pelos efeitos da bomba que ainda continuam no ar.


Sinopse:


Uma bomba que mata apenas adultos é detonada e agora o mundo está entregue às crianças. Nesta estranha distopia criada por Carlos Trillo e Horacio Altuna, acompanhamos a história de um grupo de jovens lutando não apenas para sobreviver, mas também para compreender o mundo sem ninguém para guiá-los.


Lançada originalmente em capítulos entre junho de 1982 e junho de 1983 na revista espanhola 1984, O Último Recreio nos coloca questões assustadoramente atuais. Guerra, doença, desamparo. A genialidade de Trillo e o traço cruel de Altuna nos dá a universalidade e a atemporalidade destas questões e muitas outras nesta obra obrigatória para o leitor de quadrinhos.





Esse é um roteiro bem cruel que mexe com um tema que muitas vezes é encarado como um tabu: a infância. Carlos Trillo nos coloca em um mundo distópico onde ingenuidade e violência caminham de mãos dadas. E a gente pode ver, em histórias curtas, o quanto crianças podem revelar um lado obscuro tão grande quanto o de adultos. Muitos vão se lembrar na hora de outro clássico da literatura, O Senhor das Moscas, de William Golding. Embora tenha várias diferenças, o núcleo da história continua sendo esse lado obscuro que não é tão explorado pelos autores. Existe uma falsa ideia de que é preciso colocar a própria noção de infância em um pedestal imaculado, que remete a um senso de pureza e inocência. Quando nada poderia estar mais longe da verdade. Quem trabalha em educação infantil e nos primeiros anos do ensino básico, sabe que crianças são sim capazes de atos bem cruéis. Principalmente se não dermos os devidos limites a elas. Mas, volto a esse assunto já mais abaixo.


Esse é um quadrinho formado por várias histórias curtas que se passam em um mundo distópico. Uma bomba foi estourada (não é explicado o motivo) que dizimou toda a população adulta através de um efeito químico. Os resíduos dessa bomba, agora chamada de "sex bomb" ficaram no ar e matam todos aqueles que alcançam a puberdade. Só restaram crianças nesse mundo e aqueles cuja biologia não pode ser afetada pela sex bomb. Vamos acompanhar diversos grupos de crianças tentando sobreviver neste novo mundo distópico e anárquico onde gangues de rua dominam o fornecimento de comida, as casas e tentam impor a ordem pela força. Em um mundo sem adultos e sem regras, as crianças tomaram posse de todas coisas. Mas, serão elas melhores que seus pais? Ou apenas repetirão os mesmos erros?


Falando sobre a arte do Horacio Altuna, ela combina bem com esse ambiente estranho e melancólico ao qual somos levados. Altuna tem uma boa pegada na hachura e no pontilhado, fazendo as cenas ganharem amplitude. E é bem curioso porque ele não usa nenhum quadro grande para compor as cenas. São sempre quadros pequenos, composições de seis a oito quadros por página ou até páginas formadas por pequenos quadrados em que pequenas cenas ou closes de rosto são postos. O fato de as sarjetas serem pretas somadas a esses quadros menores torna a leitura bem escura e prensada. Passa uma sensação quase que de prisão. É uma contradição até bem-vinda: embora as crianças sejam livres, algo que elas sempre fantasiaram, de escapar do controle dos pais, a verdade é que elas parecem mais presas do que antes. A maior parte delas não sabe o que fazer com essa suposta liberdade ou como se virar para poder sobreviver. O cenário é cruel, e acontece dentro de uma grande cidade, não nomeada. Altuna apresenta as ruas e avenidas esvaziadas, com folhas e papéis sendo levados pelo vento. O que impressiona em sua arte é como ela é tão cruel quanto o roteiro. Algumas das cenas mostram corpos de crianças jogados nos lugares mais inusitados possíveis. Às vezes estamos passando o olho por uma página e nos deparamos com um beco repleto de corpos jogados.


Isso combina bem com o meu comentário sobre o design de personagens que é lindo. Primeiramente é preciso elogiar o quanto Altuna deu individualidade aos designs. Não vemos designs iguais por todo o quadrinho. Segundo que seus personagens bebem de uma contradição que está presente também no roteiro de Trillo: uma inocência associada a crueldade. Os personagens são crianças, então podemos nos deparar com um quadro com uma criança curiosa com o que está acontecendo do outro lado da rua, ou apenas assustada dentro de uma enorme mansão, achando que teriam fantasmas. Por outro lado, tem as gangues de rua, e ver a expressão de um menino portando uma .38 e apontando para a cabeça de outro é apavorante. Tem uma cena dramática pela metade do quadrinho em que um garoto vai tentar pegar a arma do líder de uma gangue de crianças porque ele desejava acabar com a sua opressão. O chefão acorda e simplesmente dispara no outro. Só que ele não entendia exatamente o que poderia acontecer caso disparasse no outro de forma fatal. Temos duas expressões transpostas ali: uma de raiva, de o outro ter invadido o seu espaço e tentado reduzir sua autoridade; e outra de desespero ao ver qual foi o resultado de seu ato. Altuna também vai colocar sensualidade em alguns momentos da trama porque esses meninos não podem crescer. É uma inversão do mito de Peter Pan. Então lidar com a sexualidade é perigoso, mas acaba sendo inevitável. Teremos esses momentos apresentados em alguns capítulos.


Trillo tem um roteiro muito bom que se embrenha em diversos temas. Como são várias histórias curtas, alguns temas se repetem enquanto outros são apresentados. O roteirista foi muito feliz ao usar um elenco que se repete também. Alguns personagens aparecem em várias histórias como o Sapo, o Gordo, a Ann, o Andy, o Flynn. Óbvio que por ser um mundo bem cruel, não conte com os personagens sobrevivendo até o final porque você pode ser surpreendido. Algumas das histórias tem finais bem tristes. A narrativa de uma inocência perdida é perene por todo o quadrinho. São meninos e meninas que se veem em um ambiente que se tornou hostil e elas não sabem como sobreviver ali. No começo, tudo é festa com as crianças querendo brincar e extravasar em uma situação sem fim. Agora que os pais não estão presentes, a farra vai até tarde, os lugares proibidos se tornam acessíveis. A primeira história lida com essa sensação de liberdade. Dois garotos perambulam pela cidade quebrando janelas, roubando comida e fazendo o que querem. Só que aí um deles vai longe demais ao decidir simplesmente atacar e estuprar uma garota. É aí que somos apresentados aos efeitos da sex bomb. Com o decorrer da história, a farra vai acabando e as crianças precisam se preocupar em como arranjar comida, aonde vão se estabelecer até chegar a momentos desesperadores quando as coisas simplesmente acabam na cidade.


As crianças precisam também lidar com quem é que vai administrar aquilo tudo. Surge a figura de um eunuco que não foi afetado pela sex bomb e ele deseja se transformar no líder. Só que um líder que se impõe pela manipulação e pela intimidação. Usa crianças para fazer seus serviços sujos. O que ele não contava é que estas são crianças que não conhecem limites. Então colocá-las dentro de um quadradinho ou um conjunto de normas não funciona. Simplesmente por que elas não conhecem normas. A ideia de governar uma nação de crianças se torna efêmera rapidamente e esse eunuco vai adotar posturas bem macabras lá pelo final da HQ. Essa discussão sobre regras está bem presente aqui. A construção da maturidade das crianças passa pela construção de uma visão de que o mundo é ordenado de acordo com um conjunto de regras de conduta. São coisas passadas no ambiente doméstico pelos pais e na escola pelos professores. Mas, se você não tem contato com isso, como entender limites? Ou formas de se portar. Isso é perceptível até mesmo na forma como eles se vestem que é completamente aleatória.


A sexualidade é tratada com bastante medo por essas crianças. E não sejamos caretas pelo fato de Altuna ser explícito em algumas cenas. Essa é uma história sobre crianças em um mundo devastado por uma bomba que os impede de crescer. Altuna foi bastante respeitoso na forma como tratou o assunto. Não tem nenhuma exploração estúpida de sexualidade infantil. Deixando isso bem claro para não haver confusão. Ao contrário, tirando uma cena no capítulo final, a maior parte das cenas mais sensuais me deixaram com o estômago embrulhado do que qualquer coisa. São cenas sempre cercadas por violência. Curioso que a única cena mais sexual propriamente dita é repleta de amor e carinho pelo casal (e a gente fica se perguntando o que aconteceu depois). É bem complicado a gente ver um casal de garotos estirados em um beco, quase nus, repletos de outros corpos decompostos e lixo do lado. Cenas bem incômodas mesmo. Em outro momento, um dos meninos diz ter se tornado um homem e que a sex bomb não o afeta por ele já ter envolvimento sexual com sua namorada. Ou seja, ele emprega uma fofoca sexual sobre sua parceira para conseguir status dentro de seu grupo. A questão é: o quanto do que ele disse é verdade?


Um último momento que merece destaque é quando um grupo de crianças decide sair da cidade, já que esta se mostrou muito hostil e não tem oportunidades mais de obter comida. Cada um dos membros do grupo volta para os lugares onde eles estão e precisam fazer as malas para sair. Eles entram em contato com seus passados e é aí que o lado infantil transparece mais. A saudade de seus pais, a solidão de estarem abandonados neste estranho mundo. Talvez o momento mais emblemático é que vários deles fazem suas malas e colocam brinquedos dentro. O menino coloca seus robôs de brinquedo enquanto que a garota estufa bonecas dentro da mala. O líder do grupo pede que todos deixem espaço para levarem comida para o lugar onde estão indo. Ao carregarem suas malas, estas parecem pesadas demais. É aí que as crianças, com olhos tristes e melancólicos, abrem suas malas e despejam os brinquedos em uma vala. A inocência se foi. Hora de encarar o mundo. Essa é uma história cruel e fascinante ao mesmo tempo. Nos coloca para refletir a respeito de várias situações que vivemos nos tempos atuais.











Ficha Técnica:


Nome: O Último Recreio

Autor: Carlos Trillo

Artista: Horacio Altuna

Editora: Risco Editora

Tradutora: Jana Bianchi

Número de Páginas: 136

Ano de Publicação: 2023

















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