• Paulo Vinicius

Resenha: "Monge Guerreiro" de Rômulo Felippe

Esta é a história da jornada dos dois maiores artefatos da Cristandade, a Lança de Longinus e a Coroa de Espinhos rumo à França. Um monge buscando redenção e um poderoso grupo de templários terão que defendê-los das ambições de um Rei Negro e seu mago.

Sinopse:


A maior aventura da Ordem do Templo

Maior rei da história da França, Luiz IX (hoje São Luiz) determina que duas das mais importantes relíquias do Cristianismo sejam transportadas dos confins da Terra Santa e da Grécia binzantina até o coração do seu reino. De Jerusalém partem os valentes Cavaleiros Templários liderados pelo grão-mestre Christopher Blancher, um experiente combatente que carrega preso à armadura a coroa mais poderosa do mundo; do Monte Meteóra, e por decisão do destino – quiçá divina –, parte o monge ortodoxo Bastian Neville, um dissidente da Ordem do Templo, cuja missão é levar de encontro aos antigos irmãos de armas a Lança de Longinus. Entre as duas relíquias sagradas, entretanto, há um rei pagão de nome Slatan Mondragone. Sua missão? Reduzir a pó todos os reinos Cristãos. E para isso uma profecia deverá ocorrer na boca do Vesuvius, o vulcão mais furioso da Europa. Com mais de oitenta personagens e combates épicos – eclodindo em um final apoteótico no coração de Veneza – Monge Guerreiro narra não uma, mas diversas odisseias no coração negro do século XIII.




Escrever o primeiro romance é sempre uma tarefa complexa. É preciso pensar no universo, em que público atender, superar as dúvidas acerca de si mesmo. Esse ano pude me deparar com vários primeiros trabalhos. Muitos autores buscando o seu espaço e tentando apresentar um trabalho de qualidade. E fico muito feliz de poder ter conhecido o trabalho do Rômulo. Para um primeiro livro, nos deparamos com um material de muita qualidade que vai encantar os fãs de livros tanto de fantasia como de romance histórico.

A escrita do Rômulo é em terceira pessoa passando-se em três núcleos basicamente: a jornada de Bastian rumo à Orhan, a cavalgada dos templários em um grande grupo na mesma direção e as maquinações de Slatan Mondragone e o mago Nuray. Temos aqui uma escrita clara e simples de ser entendida. Sem grandes firulas, o leitor consegue ficar imerso no mundo rapidamente. O fato de o autor ter calcado seu romance no nosso mundo auxilia nesse sentido dando um norte para aquele que deseja entender mais. Os diálogos são bastante verossímeis para o período, fruto de bastante pesquisa do autor (vou voltar a isso mais à frente). Gostei também da ideia de capítulos curtos separando as cenas dos grupos. Alguns leitores me perguntam se isso é o melhor em todos os livros... Depende. No caso de Monge Guerreiro, ter capítulos menores serve para separar bem os diversos núcleos. Se o autor optasse por subseções, talvez criasse um pouco de confusão. A solução encontrada por ele foi a melhor. Percebi também uma construção de narrativa em três atos. Na primeira parte é feita a introdução dos três núcleos com a motivação e objetivo dos personagens. Na segunda é feito um aprofundamento de suas histórias, apresentando obstáculos que precisam ser superados. E em um último trecho somos levados a grandes batalhas que irão definir a trajetória dos mesmos.

Senti alguns problemas na escrita. Por exemplo, percebi um certo peso na leitura. A leitura, apesar de clara e objetiva, demorava um pouco a passar. Em alguns momentos, o autor recorria a recapitular fatos que aconteceram antes. Mas, isso não é tão obrigatório para um autor. Cabe ao leitor o papel de reconstruir os elementos que compõem a trama. Muitas repetições podem acabar prejudicando o ritmo da história mais do que ajudar o leitor a se manter preso. Outra coisa a se observar são os diálogos, um pouco estoicos e presos demais. Isso é fruto mais de uma escrita mais acadêmica. Quando a gente passa para uma escrita livre ou ficcional, tendemos a manter esse ranço da escrita profissional. Não é um problema, é apenas fruto de uma transição entre dois estilos completamente distintos de escrita. Por exemplo, durante mais de uma década eu escrevi artigos para revistas ou congressos. As minhas primeiras resenhas no falecido Oceano de Histórias (o meu outro blog) eram austeras demais, presas ao limite. Com a prática e a repetição o meu estilo ficou um pouco mais livre (não que eu não retenha alguns destes "vícios" vez por outra). Tenho certeza absoluta que são coisas que o Rômulo certamente não vai levar para seus próximos escritos até porque ele já vai ter mais experiência com técnicas de escrita ficcional. Ah, e o livro precisa de uma revisão pequena para aparar algumas arestas. Ficaram alguns typos por consertar... e não foram poucos. Mas, tranquilo, nada que um revisor não consiga tirar para uma futura edição em uma grande editora que eu tenho certeza que esse livro vai parar.

Os personagens são bem construídos. Admito que gostei mais do Bastian dentre os personagens apresentados pelo autor. Muito por causa da profundidade de seus problemas e dilemas. Fiquei muito feliz de o Rômulo ter trazido a debate a lendária cruzada da crianças. Não é um tema que os historiadores medievais gostem de comentar a respeito. Alguns tratam até como uma lenda porque não existem muitos registros a seu respeito. Encaro com muita seriedade porque foi um acontecimento triste do qual a Igreja nunca se pronunciou claramente a respeito. Queria demais que o Rômulo voltasse a esse tema, quem sabe tratando desse período da vida do Bastian. Daria uma obra fenomenal.Mas, enfim, o personagem é bem trabalhado e seu caminho na história é de muita evolução. Apesar do foco em três núcleos narrativos, Monge Guerreiro é uma história sobre o Bastian e como ele foi atrás de sua redenção em uma jornada perigosa rumo a uma terra infestada por povos bárbaros.

Setseg é uma personagem interessante, mas acho que o Rômulo poderia ter aproveitado bem mais sua participação na história. Ela acabou ficando muito em segundo plano, apesar de ela ter sido construída de uma maneira bem redondinha. Aliás, aplausos para o autor por ter trazido uma presença feminina muito boa na história. Normalmente romances históricos sempre pecam por apresentarem mulheres submissas demais ou apenas como fantoches sexuais. Nada disso!!! Rômulo traz uma princesa mongol que encara um guerreiro de frente, letal com seu arco e flecha. Isso sem perder suas características femininas, mantendo uma fragilidade e uma doçura em determinados momentos da história. Outras personagens femininas também são importantes como Fairuza, a mulher de um huno que emprega de sua beleza a seu favor. Ou Aleksandra que possui seus próprios planos em um reino dominado por um homem poderoso.

Minha única crítica é em relação ao Conselho Episcopal de Roma no final da história. O autor poderia ter empregado mais desse núcleo ao longo da história, quem sabe formando um quarto núcleo narrativo. Eu entendi que a ideia era mostrar um grupo de homens tolos e acomodados que serviriam como obstáculo a Bastian. Mas, esse obstáculo poderia ter gerado alguns subplots extras até.Bem, estou elucubrando demais e entrando muito na arte de escrita do autor. Só senti que eles tiveram uma importância pequena demais para um grupo que representaria o núcleo da cristandade no Ocidente.

Antes de eu comentar sobre a narrativa em si, faço um enorme pedido a vocês: LEIAM O POSFÁCIO DE SEUS LIVROS. Sério, gente. Muitas vezes o autor tem um trabalho danado para escrever um posfácio comentando a respeito de suas inspirações, de como foi o seu processo de escrita, sobre a pesquisa e poucos se dão ao trabalho de ler. Já vi algumas pessoas perguntando ao Rômulo porque ele usou um unicórnio ou um dragão na história. Ele explica isso!!!!!!! Caramba... são pouco mais de cinco páginas e nelas o autor explica detalhadamente suas viagens, suas escolhas, tudo. Se torna até desnecessário perguntar isso a ele. Só estou dando um toque por conta do meu inconformismo ante a prática de não ler posfácios e agradecimentos.

Aqui a gente percebe o grau de pesquisa da parte do autor. O quanto a sua experiência pelos lugares auxiliou na sua habilidade de descrever precisamente algumas localidades do livro. As descrições são tão vívidas que somos capazes de nos transportar para os lugares. Isso dá uma enorme riqueza para a história. Mesmo quando o autor alterna para uma localidade ficcional, esta não perde sua harmonia em relação ao resto das descrições. Isso acontece porque como o autor conhece a topografia do lugar, ele é capaz de criar regiões que não destoam da realidade. Mesmo um lugar como a Floresta das Sequóias, eu jurava que fazia parte realmente de alguma região do Leste Europeu. Porque não é um lugar realmente absurdo. O mosteiro no começo da história me lembrou outro que fica na França que tem essa imagem idílica de estar sobre um lago. Provavelmente essa tenha sido a inspiração do Rômulo.

Os hábitos e costumes dos diferentes personagens na história são muito bem delineados. Mesmo detalhes pequenos como a bebida mongol, a forma como eram tratados os ferimentos condizem perfeitamente com o que realmente existia na época. A construção dos palácios ou dos monastérios também está bem precisa. São nos detalhes pequenos que o autor consegue tirar o máximo proveito de sua narrativa. Porque apesar de serem coisas que os leitores passam direto os olhos, uma leitura mais atenta vai te mostrando como esses detalhes são importantes para a verossimilhança da história. Aí vocês me perguntam: ué... verossimilhança em uma história de fantasia? Claro. Eu preciso acreditar que aquele universo é possível. E para isso o autor se cerca de o máximo de detalhes possíveis de forma a apresentar a "física de seu mundo". Ele precisa dar coerência à sua trama.

E esse é o gancho para a minha análise sobre a narrativa da história. Eu estava ouvindo alguns podcasts sobre escrita criativa por esses dias (é, gente... acreditem... eu estudo escrita criativa... para caramba... preciso dar bons feedbacks para os autores), e me deparei com a fala do Thiago Lee, do Curta Ficção, que ilustra perfeitamente o meu argumento aqui. Para que um leitor possa imergir por completo em uma narrativa e comprá-la por inteiro, é preciso a presença de três elementos: lógica interna, coerência e suspensão de descrença. Já cheguei a fazer uma matéria a respeito de suspensão de descrença e é nela que eu vou me focar. Os dois primeiros elementos, o autor tira de letra. Existe uma boa lógica interna que coordena a narrativa ao longo de suas várias etapas. O objetivo final da história é a jornada das relíquias e é nisso que o autor se foca. A coerência é mantida a partir dos objetivos dos vários núcleos narrativos. Apesar de algumas mudanças no status quo dos personagens mais adiante na história, esta não perde o prumo em nenhum momento. Mas, eu acho que no aspecto da suspensão de descrença houve alguns problemas básicos. Senti na escrita do Rômulo muito de autores clássicos de capa e espada, e para alguns leitores contemporâneos alguns elementos deste estilo podem incomodar. Por exemplo, quando se emprega demais o "o mais forte do mundo", o "mais poderoso entre os seres", o "monstro entre os homens", e o personagem principal acaba derrotando um após o outro, isso tira um pouco da minha crença de que aquele é o mais forte do mundo. Mais para a frente da história, quando o Bastian ou o grão-mestre enfrentavam algum oponente com o epíteto de "o mais habilidoso", eu já sabia que ele seria derrotado. Não estou dizendo que eles precisavam perder!!! Nada disso!! É tomar cuidado ao adjetivar demais, caso contrário, não vai haver suspensão de descrença. O leitor se torna um cético chato que vai franzir o cenho toda a vez que aparecer uma frase assim.

Monge Guerreiro é uma obra de alto calibre que possui fortes ligações com romances históricos como As Crônicas de Artur ou A Busca do Graal. Só que Rômulo coloca esse gênero de histórias dentro da fantasia, criando um estilo próprio muito interessante. Uma escrita muito boa apesar de ter alguns pequenos deslizes, mais pelo fato de este ser um romance de estreia do autor. Os personagens são incríveis, muito detalhados e com suas próprias motivações e objetivos. Esta é uma boa história de bem contra o mal, e é algo que eu sinto falta nos últimos tempos. Que bom que temos autores como o Rômulo Felippe para nos lembrar como esta é uma batalha essencial e como mesmo em dias cinzentos como os atuais não podemos perder jamais a fé na redenção de nossos pecados. Afinal, todos, inclusive Bastian, merecem uma segunda chance.


Ficha Técnica:


Nome: Monge Guerreiro

Autor: Romulo Felippe

Editora: Cavaleiro Negro

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 416

Ano de Publicação: 2016


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