• Paulo Vinicius

Resenha: "Memória da Água" de Emmi Itaranta

Em um mundo desolado após uma crise que esgotou a água doce do mundo, a jovem Noria se preparar para assumir a casa de chá de sua família. Só que seu pai esconde talvez a última fonte de água natural do mundo. Noria precisará decidir se ela esconde o fato ou compartilha a água com o resto dos aldeãos. 

Sinopse:


Num futuro distante, depois de muitas guerras, a Europa foi dominada pela China, e o bem mais precioso dos tempos antigos se tornou tão escasso quanto a liberdade. A água passou a ser controlada e distribuída em cotas pelos militares. Noria é filha de um mestre do chá, uma profissão muito antiga que tem conhecimento sobre a localização das nascentes de água. Ela está sendo treinada para substituir o pai, e dentre todos os ensinamentos, ele revela à filha seu maior segredo: uma fonte natural escondida que fornece água para a família. Desamparada em um mundo destruído, ela começa a questionar o significado de tamanho privilégio. Guardar esse segredo é negar ajuda ao restante de população, e ajudá-los é colocar em risco a própria vida: os militares punem severamente quem for descoberto desfrutando de alguma fonte ilegal de água. Como o pai a ensinou, é preciso ter sabedoria para compreender o verdadeiro poder da água. Mas Noria também aprendeu que a sabedoria representa, acima de tudo, o poder de decidir seu próprio destino, a escolha entre lutar e se entregar.




Em uma semana marcada pela comemoração do Dia Mundial da Terra (no último final de semana) eu quis apresentar esta excelente narrativa que mostra um futuro pós-apocalíptico marcado pela falta de recursos hídricos. O emprego desse tipo de ambiente para tratar de situações mais intimistas já foi visto outras vezes como em A Estrada, escrito por Cormac McCarthy. Gosto deste tipo de histórias porque ao deixar de lado os aspectos mais ligados à ficção científica, os autores costumam se focar mais nos personagens. É isso o que acontece aqui. 

Assim como uma cerimônia de chá tradicional, a escrita de Itaranta é leve e graciosa. Conseguimos sentir as cenas e as situações ocorrendo como se observássemos a um grande jardim onde o simples fato de folhas de sakura caírem em um lago ecoassem até nossos sentidos. Ou seja, estamos diante de uma autora que emprega uma escrita poética e sensorial. Por essa razão, faz sentido ela empregar uma narrativa em primeira pessoa, onde Noria nos conta a história através de sua perspectiva. Em vários momentos parece que a personagem está contando os acontecimentos de um futuro distante (o que não faz muito sentido dado o que se passa com ela na história). Alguns capítulos são marcados por fluxos de pensamento, onde a protagonista inicia um parágrafo contando algo que lhe está acontecendo, e subitamente uma série de outras imagens se passam no parágrafo. 

Por ser uma história contada pela protagonista, é lógico que o foco tem que ser nela. Nesse sentido temos uma personagem bem introspectiva e cuidadosa em todas as suas ações. A autora consegue acentuar essa característica e demonstrar que isso é fruto de seu treinamento como mestra do chá. A personagem transborda suavidade e elegância, que a autora consegue transmitir através de suas palavras. Em um primeiro momento o enfoque é na relação entre Noria e seu pai; posteriormente isso é transferido para Sanja. A maneira como um mestre do chá pensa, como ele prepara suas cerimônias e sua relação com a natureza aparece em boa parte da narrativa. Mesmo no final é de fundamental importância a relação mantida pela protagonista com a propriedade onde ela realiza o seu trabalho. Vemos que o dilema acerca de sua decisão é importante para o desenvolvimento da trama. Isso dá todo um peso ao que a protagonista precisa resolver. 

"A água é o mais versátil de todos os elementos. Não tem medo de morrer no fogo ou viver no ar, não hesita em se chocar com rochas afiadas durante as tempestades ou de penetrar na escura mortalha da terra. A água existe para além de qualquer começo e fim. Na superfície, nada parece mudar, mas dentro do silêncio subterrâneo do mundo, a água se esconde e cava novos canais e caminhos com dedos macios. Insiste até as pedras desistirem e, lentamente, se moldarem em lugares secretos."

Sanja é outra personagem que recebe bastante atenção. A amizade das duas é explorada na narrativa. Se torna mais complexa à medida em que vários obstáculos colocam as duas em xeque: a situação da família de Sanja, o segredo sobre a nascente, os militares chegando à cidade. Em alguns momentos parece que Noria se apaixona por Sanja, mas isso nunca é revelado completamente pela autora. Isso porque pode ser apenas uma forma doce como Noria enxerga sua amiga. Mas, algumas cenas como as duas na caverna ou mais para o final da narrativa nos deixa um pouco em dúvida. Entretanto, eu gostei muito dessa forma gentil de tratar a relação entre duas mulheres. Só achei que a autora poderia ter explorado um pouco mais isso. A terceira parte da história é quase que completamente ocupada apenas por Noria. 

A trama trata da coragem que temos para fazer nossas escolhas mesmo diante das adversidades. Noria se torna a mestra do chá de sua casa e com isso uma série de responsabilidades são colocadas em seus ombros. Ela sabe a importância que a propriedade tem para gerações e gerações. Ao mesmo tempo, a personagem entende a necessidade de manter a existência da nascente para as pessoas da vila. Os acontecimentos vão se sucedendo e obrigando a protagonista a rever seus conceitos. O curioso é a manutenção dos seus princípios do começo ao fim. A personagem é como uma rocha no meio de um rio: perene e poderosa. Ela acaba precisando fazer escolhas difíceis, mas sua personalidade básica formada a partir de anos ao lado de seu pai, nunca muda. Mesmo no fim da história e diante de uma situação impossível de ser resolvida, ela consegue manter o seu caráter. 

Alguns trechos foram mal explorados ou simplesmente ficaram esquisitos. É tratado bastante do controle do fluxo de informações. Sei lá, fiquem em dúvida acerca desse tema na história. Por um lado, isso deixa a história mais intimista e intrigante. Foca a história em quem a autora desejava trabalhar. Por outro, muitas perguntas ficam sem resposta. No final, Noria dá uma explicação básica a partir das informações que coletou, mas nada fica muito claro. Pode ser algo proposital da autora, usando uma metalinguagem para continuar a controlar o fluxo de informações. Acho que o tema poderia ser melhor abordado, mas não desgostei da forma como ele foi apresentado. 

Memórias da Água é um romance suave com uma escrita bem poética. Sem dúvida alguma, os leitores vão ser conquistados pelos personagens dessa história. Todos se sentirão de alguma forma em relação a eles. Uma escrita sensorial que faz de cada cena uma pintura. 


Ficha Técnica:

Nome: Memória da Água Autora: Emmi Itaranta Editora: Galera Record Gênero: Ficção Científica Tradutorres: Liliana Negrello e Christian Schwartz Número de Páginas: 288 Ano de Publicação: 2015


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