• Paulo Vinicius

Resenha: "Mãos Secas com apenas Duas Folhas" de Paula Febbe

Um homem vai ao médico descobrir se o que ele tem nas costas é um câncer. Durante a espera conhecemos a mente podre de um serial killer que tem uma visão particular da sociedade.



Sinopse:


Sala de espera de hospital. As senhas são as únicas coisas vivas de verdade ali. O aposentado Carlos Almeida espera sua vez. Ele precisa manter a bunda na cadeira, seu pensamento não. E enquanto espera ser chamado, enquanto lava as mãos e seca com mais de duas folhas, enquanto vê um homem morrer, Carlos Almeida pensa, e muito. Pensa em jovens estudantes ao seu lado em camas de motéis, na trágica morte da esposa, no neto que parou de falar, em sua juventude, na vizinha que desapareceu. Pensa nas mentiras que nos contam, nas mentiras que representamos e na mentira que ele é. Nesta obra, a autora Paula Febbe conta uma história feia, sobre um mundo feio onde o mal se esconde por trás da face menos suspeita. "Mãos secas com apenas duas folhas" traz um enredo que envolve pedofilia e misoginia e anormalidade, onde a farsa é a protagonista.





Vou dizer isso da maneira mais elogiosa possível: a Paula Febbe é uma autora perturbadora. Esse é o segundo trabalho que eu leio dela (o primeiro foi Cartas no Corredor da Morte, que ela escreveu junto com a Cláudia Lemes). A maneira como ela consegue escrever personagens perturbadores é inacreditável. E o pior é que são personagens comuns, que poderíamos encontrar na rua. Sua compreensão dos desvios de caráter é uma parte integrante da sua escrita. Ao lado de uma escrita que alterna o banal e o sórdido, temos uma narrativa que certamente vai nos deixar reflexivos sobre pessoas que nos cercam. O quanto realmente conhecemos de alguém? O que se esconde nas profundezas dos nossos desejos mais obscuros?


Um homem idoso vai a uma clínica para verificar se o calombo em suas costas representa um câncer ou apenas algum outro tipo de condição. Ele pega uma senha, se senta nas cadeiras e aguarda a sua vez. Enquanto os números são chamados pelos médicos, Carlos pensa em várias coisas: em sua desagradável esposa, em como as pessoas nunca usam apenas duas folhas de papel ao secar suas mãos no banheiro, em como ele (literalmente) ama o seu neto e o quanto aquela menina de 9 anos era uma vagabunda. À medida em que as páginas vão se passando vamos nos deparando com o quanto a mente dele é psicótica e depravada. Este é um personagem que está de bem consigo mesmo apesar de que lá no fundo eu tenho minhas dúvidas sobre suas certezas (explico mais abaixo). Esse mergulho na mente de Carlos vai nos levar a uma série de imagens perturbadoras de como ele enxerga sua realidade e seu mundo.


A forma como Paula nos conta essa história é bem diferente e agradável. Cada número de senha chamado representa um capítulo e estes são bem curtinhos tendo no máximo duas ou três páginas. É possível ler o livro em uma sentada, apesar de que a forma perturbadora como a história é contada vai exigir um pouco de estômago dos leitores. Aviso logo que tem vários gatilhos na narrativa: pedofilia, assassinato, abuso sexual. Acho até que deveria ter algum tipo de aviso nas primeiras páginas do livro ou na orelha de capa. É importante até porque a autora é bem clara nas descrições. Eu gosto desse estilo em filtro da Paula, e é o que faz as suas narrativas serem tão diferentes, mas pode incomodar algumas pessoas. Mas, voltando à forma: cada capítulo é como se fosse um fragmento da mente do personagem. É um flash de seu pensamento que logo em seguida dá espaço a outro. Como podemos perceber, a narrativa é em primeira pessoa e é isso o que faz o desenvolvimento da história ser tão visceral.


O título do livro Mãos Secas com apenas Duas Folhas possivelmente pode abrir espaço para entender o que realmente acontece com o personagem. O ato de secar as mãos com uma folha de papel pode ser entendido como uma maneira de se lavar de seus pecados. Buscar alguma forma de purificar-se dos males cometidos. Mas, como o próprio protagonista diz, ninguém usa apenas duas folhas para secar as mãos. Logo, o ato de secar as mãos não apaga nossos pecados porque elas não ficam secas o suficiente. Ou precisamos empregar muito mais do que duas folhas, o que constituiria um tempo mais prolongado para obter a redenção. Mas, nosso personagem lava suas mãos o tempo todo, o que demonstra que nem todas as folhas de papel do mundo conseguiriam lavar o que ele fez. Ele reluta entre alguém que não se incomoda mais com os seus pecados, com alguém que lá no seu inconsciente deseja obter algum tipo de redenção. Tanto que seus assassinatos vem sempre carregados de algum tipo de justificativa: ela era isso, aquele cara era aquilo.


Mais um livro da Paula que me surpreende pela maneira como ela entende a psiquê de seus personagens. Uma análise profunda sobre a maldade inerente mesmo a pessoas comuns. Basta um estalo para que o lado sombrio se aposse de nossas ações. Aquele momento em que aquele desejo sombrio que se encontrava em nosso ego acaba se manifestando e causando danos irreparáveis. Nesse caso, não adianta usarmos duas folhas de papel. Isso porque nossas mãos não ficarão limpas o suficiente.












Ficha Técnica:


Nome: Mãos Secas com apenas Duas Folhas

Autora: Paula Febbe

Editora: Monomito Editorial

Número de Páginas: 104

Ano de Publicação: 2018


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