• Paulo Vinicius

Resenha: "Interferências" de Connie Willis

A jovem Briddey está indo fazer um EED, uma operação no cérebro que permite a ela compartilhar os seus sentimentos com o seu amado. Seu namorado Trent sugeriu isso antes de pedi-la em casamento. Mas, o resultado da cirurgia pode revelar ser um desastre completo.

Sinopse:


Em um futuro não muito distante, um simples procedimento cirúrgico é capaz de aumentar a empatia entre os casais, e ele está cada vez mais na moda. Por isso, Briddey Flannigan fica contente quando seu namorado, Trent, sugere que eles façam a cirurgia antes de se casarem — a ideia é que eles desfrutem de uma conexão emocional ainda maior, e que o relacionamento fique ainda mais completo. Bem, essa é a ideia. Mas as coisas acabam não acontecendo como o planejado: Briddey acaba se conectando com outra pessoa, totalmente inesperada. Conforme a situação vai saindo do controle, Briddey percebe que nem sempre muita informação é o melhor, e que o amor — e a comunicação — são bem mais complicados do que ela esperava.




O que é um gênero literário? Muitas vezes nos pegamos rotulando livros de acordo com o que acreditamos ser a sua temática. Fantasia, Ficção Científica, Terror, Drama. Todos são facetas do mesmo tipo de produção literária: a prosa. Nós é que escolhemos pegar um livro e colocá-lo em uma prateleira específica e deixar ao cargo do consumidor adquiri-lo ou não. Era um meio de facilitar o direcionamento de leituras para leitores específicos. Só que isso se tornou mais do que a proposta inicial. Se tornou uma forma de tolher a criatividade autoral. Alguns autores fazem o possível para "encaixar" as suas obras em uma prateleira específica, perdendo um pouco de sua liberdade criativa.

A primeira impressão que um leitor tem ao iniciar Interferências é de um livro chick-lit. Ou seja, uma comédia romântica daquelas típicas da Sessão da Tarde. Já aviso logo: NÃO JULGUE O LIVRO PELA PRIMEIRA IMPRESSÃO. Connie foi extremamente habilidosa na escrita de Interferências e, apesar de todo o jeito descontraído da escrita, Interferências é muito, mas muito mais do que uma comédia romântica. Uma escrita em terceira pessoa com o foco na Briddey e em sua visão de mundo, o livro tem uma escrita veloz e dinâmica. Os diálogos são explosivos e repletos de referência pop. Mas, todas elas são bem tranquilas de pegar e até algumas do universo geek. Juro que quando via um diálogo da Briddey com o C.B. parecia que eu estava vendo uma discussão da Lorelai Gilmore com o Luke, em Gilmore Girls. Aqueles diálogos pá-pum, com retomadas inteligentes e comentários sagazes. Diálogos que quando você parava para analisar eram geniais e possuíam várias camadas que só entendíamos depois que a informação era processada.

Uma das genialidades presentes neste livro é a troca de gêneros que a autora faz diversas vezes no livro. O que começa como uma comédia romântica se transforma após 30% de leitura em um suspense e depois em uma trama de espionagem industrial com leves toques de ficção científica. Na hora em que o leitor se acomoda com o jeitinho doce e gentil dos personagens vivendo mil trapalhadas, a autora nos dá uma rasteira e transforma a leitura em algo tenso. A maneira como vamos nos sentindo cercados o tempo todo por pessoas que querem tomar os poderes telepáticos para eles é sufocante. É como se a Connie tivesse nos jogado em um compactador e fosse fechando as laterais pouco a pouco até nos deixar sem saída. E no final temos uma trama de espionagem industrial interessante onde os personagens acabam precisando se virar para resolver o problema.

"Ora, é assim que as consequências indesejadas funcionam. Você não tem como saber o que podem ser até acontecerem, e aí já é tarde demais. Veja só a Lei Seca. E o DDT. Pareciam ótimas ideias e olha só o que acabou acontecendo..."

Os personagens são riquíssimos. Briddey é uma personagem muito forte e decidida, mas que infelizmente tem sua vida cercada por sua família. Vivendo em uma família tradicional irlandesa, eles querem que a protagonista se case com alguém bom para ela. E esse bom é um bom rapaz irlandês. Mas, Briddey quer é acelerar a sua relação com Trent, um dos chefes da Commspan. Um homem bonito, inteligente e bem sucedido. O bom partido. Aqui temos aquele velho trope das comédias românticas: as aparências enganam. Claro que a Connie dá uma invertida e ao invés de apresentar a menina nerd que se transforma em uma linda mulher, ela faz o contrário. Vai ser no exotismo e na insanidade de C.B. que Briddey vai sentir uma leve queda. Principalmente quando ele a ajuda durante o seu surto telepático.

Já C.B. é o maluco da empresa. Ele vai passar a se relacionar mais com a Briddey quando ela tiver os seus primeiros problemas com a telepatia. O tempo todo o personagem vai revelar um lado dramático por trás das suas frases inteligentes e de seus bordões. Pouco a pouco vamos vendo o quanto aquela pessoa que parece segura, na verdade tem muitos medos e dúvidas. Não estou dando spoilers... está na cara desde o começo da história que C.B é apaixonado pela Briddey. As situações curiosas em que eles se metem vão reforçando pouco a pouco isso.

Vários são os temas contidos em Interferências. Um dos mais claros é a questão da quantidade de informação com a qual lidamos a cada minuto. De fato a maneira como Briddey é atacada pelas vozes, no formato de uma inundação é justamente como eu entendo esse excesso de informações. Hoje precisamos fazer milhares de coisas ao mesmo tempo. Não temos o tempo para realizar o ócio intelectual... não temos mais aquela hora mágica onde todas as vozes se silenciam. Nosso mundo contemporâneo exige demais de todos nós. E a cada dia novos sistemas para aumentar a velocidade de comunicação surgem. Não me espantaria se aparecesse um Trent ou um Hamilton no futuro que inventasse algum tipo de dispositivo em que a informação entrasse direto em nossos cérebros. Essa enxurrada de informações acaba nos impedindo de apreciar as belezas que se estendem bem ao alcance de nossos olhos. Informação demais é prejudicial. Como Briddey foi capaz de perceber ao se submeter ao EED.

Vale a pena tocar no tema das mães superprotetoras. A maneira como Mary Clare se relaciona com Maeve é tenebroso. Aliás, Maeve e Briddey tem muita coisa em comum. Esse cerco feito pela família só prejudica a criação de uma criança, Eu entendo que muitos pais tem medo de com o que nossos filhos e filhas andam se envolvendo. A quantidade de formas de se perder ou se envolver com situações ruins é tanta que isso provoca um excesso de ansiedade na forma como nos relacionamos com eles. E como todos puderam ver em Interferências de nada adiantou Mary Clare ser tão protetora; Maeve sempre dava um jeito. No fundo, Maeve é só uma criança curiosa, que gosta de Cinderela, Enrolados e filmes de zumbis. O diálogo entre pais e filhos é essencial para não criar esse tipo de atmosfera claustrofóbica na própria casa. A adolescência é uma fase difícil, de transformações. De nada adianta os pais tornarem a adolescência ainda mais difícil.

A telepatia é muito bem explorada pela autora. É quase como se fosse o "sistema de magia" dela. Ela apresenta as maneiras como a telepatia funciona, os limites da mesma e constrói algo por cima que dá uma outra dimensão. O mais curioso é que algumas das informações que a Connie apresenta em Interferências são baseadas em pesquisas reais. Houve estudiosos que acreditaram que Joana D'Arc era psíquica.

Gostei demais da história e isso serve para aqueles que abandonam o livro logo nas primeiras páginas quando não gostam muito da narrativa. Dê uma oportunidade... avance na história. Connie Willis não é vencedora de vários prêmios Hugo à toa. Ela conseguiu criar uma história genial e divertida, usando técnicas bem avançadas de escrita. Além disso, o casal é encantador. A gente realmente fica torcendo para que tudo dê certo para eles.




Ficha Técnica:

Nome: Interferências Autora: Connie Willis Editora: Suma Gênero: Romance/Ficção Científica Tradutor: Viviane Diniz Lopes Número de Páginas: 464 Ano de Publicação: 2018


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*Material enviado em parceria com a Editora Suma


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