• Diego Araujo

Resenha: "Inominável - 130 anos de H.P. Lovecraft" organizado por Maurício Coelho

Vinte e dois autores vieram demonstrar o que os cento e trinta anos de H. P. Lovecraft influenciou para sua vida e escrita com esta antologia que homenageia o autor através de contos.



Sinopse:


Com o intuito de celebrar os 130 anos de nascimento do escritor estadunidense H. P. LOVECRAFT, o escritor Maurício Coelho, em parceria com a Pará.grafo Editora, organizou uma coletânea de contos de horror cósmico inspirada no universo literário lovecraftiano. Uma edição comemorativa e especial, com 22 contos criteriosamente selecionados, de escritores de diversas partes do Brasil.


A obra recebe o prefácio de Nathalia Sorgon Scotuzzi, editora e pesquisadora de Literatura de Horror, e maravilhosas ilustrações do paraense Otoniel Oliveira. A capa foi ilustrada pelo artista Rodolfo Tavares e o projeto gráfico é de autoria do escritor e designer Dênis Girotto de Brito.


O livro INOMINÁVEL: 130 anos de H. P. Lovecraft é resultado de uma primorosa seleção de contos de horror cósmico. Ao todo, foram avaliados 144 textos de escritores de todo o Brasil, de onde selecionamos os 22 melhores para integrar essa antologia comemorativa.


Cada escritor nos apresenta, com seus respectivos estilos e usando (em alguns casos) dos mitos brasileiros, histórias fantásticas de horror cósmico que levam o leitor a uma experiência assombrosa, mas única!






Inominável: 130 Anos de H. P. Lovecraft é uma antologia de contos escolhidos por meio de seleção literária cujo tema era ecoar o legado deste autor. De um autor que deixou o legado de todo um universo mitológico para outros capazes de expandir suas narrativas em novas situações de horror cósmico, seja com os elementos já consagrados, elaborando novos ou ainda misturando outras vertentes àquilo que já foi consolidado nos contos originais. Publicado em 2021 pela Pará.grafo Editora graças a uma campanha bem sucedida de financiamento coletivo. Segue uma análise breve de cada conto presente na antologia, além de uma avaliação do livro como um todo no final.


Lista de contos da coletânea:


1 - "O Barkeiro De Vostok" de S.

2 - "O Horror em Eilean Mor" de Rafael Danesin

3 - "Angelim Vermelho" de William Araújo

4 - "Uma sombra na lua" de Lu Evans

5 - "Nas Montanhas do Silêncio" de Gabriel Romero Ricardo

6 - "O Balanço do Mar" de Marcelo Boemeke

7 - "Sonhos em Que Habito" de Sat A. M.

8 - "Horror no Rio Tietê" de R. R. Galdino

9 - "De Algum Lugar Além das Estrelas Negras" de Marcus Polidori

10 - "Água de Outros Tempos" de Ana Carolina Peres Bogo

11 - "O Bosque" de Lucas "Havoc" Suzigan

12 - "Do Tempo Restou Apenas a Sombra" de Bruce Torres

13 - "A Mancha em Meus Sonhos" de Paulo H. P. Lima

14 - "O Terror no Vale do Javari" de Alexandre Torres

15 - "O Dia da Maré Alta" de Rodolfo Mnac

16 - "O Pintor de Montes Freire" de Carlos Almeida Júnior

17 - "A Fonte" de Tauan Souza

18 - "Uma Grande Honra" de Felipe R. R. Porto

19 - "Noite de Outubro" de Igor A. N. Silva

20 - "A Estrada dos Suplicantes" de Guilherme Tomishiyo

21 - "Os Contornos da Criadora" de Ricardo D. Strowitzki

22 - O Culto do Mapinguari - Rafilsky Ferreira



1 - "O Barkeiro De Vostok" de S.





Misha é um servidor soviético numa missão solitária na estação da Antártica onde descobre um abismo que o engole. O protagonista revive suas memórias enquanto cumpre o papel designado, afinal essa é a única companhia que ele tem. De narrativa detalhada, o leitor pode absorver a escrita e compartilhar da solidão de Misha como sua companhia, usando o estilo do autor homenageado por toda a antologia com o propósito de aproximar o leitor ao personagem.

2 - "O Horror em Eilean Mor" de Rafael Danesin





O conto é um registro epistolar do que os personagens presenciaram nas ilhas onde nenhuma outra pessoa jamais deveria pisar, senão perderia a sanidade ou a vida. A narrativa segue repleta de menções acerca das criaturas que nenhum humano seria capaz de confrontar, com descrições que falam mais do espectador do que da criatura em si, usando de adjetivos e advérbios ao explicar as reações do personagem. Com grande respeito ao escritor homenageado, o conto seguiu de forma segura na composição do horror cósmico.

3 - "Angelim Vermelho" de William Araújo





A história vem de uma mensagem de e-mail feita por um certo arqueólogo anônimo que narra o que aconteceu consigo e seu colega José durante uma expedição na Amazônia. É o primeiro conto de ambientação brasileira da antologia, com referência ao povos indígenas e os elementos naturais da floresta, como uma árvore chamada angelim vermelho em destaque ao trazer o acontecimento insólito. O autor segue um ritmo próprio de escrita, indiferente ao de Lovecraft, o que diversifica as formas narrativas ao longo dos contos sendo, porém, repetitiva. Usa frases seguidas para dizer a mesma coisa além do narrador descrevendo suas impressões através do emprego de verbos sensoriais (como o uso excessivo do verbo sentir) e os diálogos por vezes só remetem ao que já estava descrito no parágrafo anterior. A revisão ortográfica também deixou passar algumas palavras sem a acentuação apropriada.



4 - "Uma sombra na lua" de Lu Evans





Outro caso ocorrido na Antártica. Um grupo de arqueólogos foi verificar uma montanha em formato de pirâmide, cuja origem parece ocorrer antes mesmo de existir humanos no planeta, gerando curiosidade, e já sabemos o destino dos curiosos nesse tipo de história. Há uma progressão interessante desde a descoberta restrita a um grupo de pessoas até as consequências de um alcance mundial, com o protagonista condenado a saber demais e incapaz de fazer algo a respeito. Quando a escrita não foca no protagonista, as descrições ficam distantes, não aproveitando a tragédia e perdendo o potencial de afetar o leitor.

5 - "Nas Montanhas do Silêncio" de Gabriel Romero Ricardo





Um grupo de pesquisadores fazia uma expedição no interior do Amapá para catalogar uma região cuja montanha os indígenas se recusavam a se aproximar, por causa de uma lenda que gostariam de esquecer. Isso até o grupo testemunhá-la por conta própria. A escrita extensa fragmenta as cenas condizentes com o que se pretende mostrar em cada trecho, escalando de uma pesquisa cotidiana ao extremo do conhecimento superior à limitação humana. Baseada em conhecimento técnico, o conto traz um apelo à sustentabilidade e critica a humanidade por falharmos em nosso papel com o planeta, se usando disso para denunciar a nossa inferioridade perante o que jaz oculto a nós.


6 - "O Balanço do Mar" de Marcelo Boemeke





O narrador era fascinado pelo mar, a ponto de discutir com os pais sobre preferir continuar a tradição familiar da pesca do que arranjar melhores condições de trabalho no campo, até que a obsessão com o mar se voltou contra ele. Em alguns pontos se assemelha ao embate de Dagon, misturando outros elementos narrativos de Lovecraft para construir esta história. Esta história tem tudo para quem gosta da escrita lovecraftiana e ainda mantém uma linguagem acessível ao leitor contemporâneo, facilitando uma leitura imersiva.

7 - "Sonhos em Que Habito" de Sat A. M.





O rei se lembra da sua coroação, agora que foi deposto e deu lugar a seu sucessor. A ambientação medieval foge do lugar comum existente a esses tipos de contos, e o autor se dedicou a contar a narrativa em detalhes, tornando-a diferente das demais da antologia. As cenas são curtas, e os cortes deixam as transições abruptas, dificultando a assimilação da passagem, forçando o leitor a retomar trechos para se localizar no conto.

8 - "Horror no Rio Tietê" de R. R. Galdino





Denner era um psiquiatra que atuava tanto em uma clínica quanto no meio acadêmico, e este segundo ramo o atraiu para a região de Acácia, no interior paulista, para verificar os sobreviventes da catástrofe de Pântano Feliz, uma cidade dizimada por razões desconhecidas, e entender o porquê deles parecem sofrer de distúrbios psiquiátricos. O autor mescla as características do horror cósmico com a localização situada no conto, fazendo com que as diferentes personagens da sociedade cumpram um papel específico na narrativa, como o político que faz tudo para promover sua campanha eleitoral, o ambientalista que evita em vão um desastre promovido pelo serviço público, e o habitante tradicional que conhece segredos que deveriam ser mantidos intactos, além de outros papéis menores e ainda adequados à realidade de uma cidade do interior. A escrita pesa em sua forma descritiva, detalha as ações do protagonista, repete menções num mesmo parágrafo em que ele constata os detalhes narrados. O começo destoa da forma escrita no restante do conto ao soltar os elementos (personagens e o evento inusitado) sem explicação para só depois esclarecer os fatos a serem investigados pelo psiquiatra.

9 - "De Algum Lugar Além das Estrelas Negras" de Marcus Polidori





Michelle desperta entre as ruas de São Virgílio, sem lembrança dos últimos dias, mas sabe que mora perto de onde se encontra e que tem um marido chamado Paulo. Ao chegar em casa, os dois tentam entender o que aconteceu com Michelle, e a partir desta descoberta partem para um recomeço de vida. Ambientado no Brasil, o conto mostra as influências da cultura estadunidense nos protagonistas e faz uma referência sutil ao citar a formação de Paulo na universidade Miskatonic. Na trama sobrenatural, o conto traz questionamentos sobre o que é o ser humano numa perspectiva ímpar do horror cósmico, algo capaz de envolver reflexões a leitores que são meros humanos.

É preciso comentar sobre um spoiler, ainda mais para quem pode sofrer gatilho com cenas de suicídio: aqui há um caso de automutilação, embora não aconteça com a intenção do personagem, e elabora uma metáfora do quanto o consumo indevido de algo psicotrópico pode prejudicar uma vida.

10 - "Água de Outros Tempos" de Ana Carolina Peres Bogo





James recebe uma caixa em seu escritório, sem saber sua origem, até descobrir por conta própria. É uma homenagem a um dos trabalhos clássicos de Lovecraft, respeitando os conceitos originais ao criar a sua história. Mesmo assim faltou alguns detalhes narrativos, como o de o horror cósmico afetar os humanos que decidem compreender a existência de algo além de sua limitação humana enquanto James é conduzido em direção à entidade por meio da caixa. As descrições quanto ao medo do personagem dificultam o leitor sentir o mesmo efeito, pois deixa de mostrar quais as sensações dele ao se resumir a dizer o quanto está aterrorizado.


11 - "O Bosque" de Lucas "Havoc" Suzigan





Uma moça desperta em um bosque sem saber o motivo, algo que ela tentará descobrir. O principal a ser dito sobre este conto é a sua repetição, seja na hora de citar o que a personagem pensa, pelo uso exaustivo das mesmas palavras, por prolongar frases a darem a mesma informação, ou de dizer o quanto ela está confusa pela situação; por seguir a narrativa desta maneira, faz com que o leitor fique desanimado para assimilar as cenas em que ela vivencia. Esta crítica não acusa o conto de ser ruim, apenas constata a falta de polimento, de reescrever as frases e deixar a narrativa objetiva, concentrada em narrar a aventura de uma moça e o mistério que a deixou num bosque de mata fechada onde pasta uma cabra com brilho carmesim nos olhos, para assim desenrolar o manifesto sobrenatural compatível com a proposta da antologia.


12 - "Do Tempo Restou Apenas a Sombra" de Bruce Torres





Raul encontrou por acaso um sujeito de sotaque francês, como também entendia esse idioma após trocarem algumas palavras enquanto seguiam pelo mesmo destino. Só que Raul mal sabia o que viria em seguida, não só do golpe militar que aconteceu no Brasil na época, mas também de seu próprio destino. Mesclar o horror com a época da Ditadura Militar aumenta o efeito por si, ainda mais ao encaixar fatos realistas na ficção, esta última trazendo uma perspectiva singular de Raul que garante reflexões sobre o fato ocorrido com ele. Ele deixa de conviver com o que o resto do país testemunhou nesse período ao mesmo tempo de adquirir um conhecimento inusitado a qualquer humano, sendo questionável de isso ser algo bom. Por Raul narrar o que aconteceu a partir da sua percepção, a escrita poderia ter sido feita através de um mecanismo de um fluxo de consciência, não que a forma vigente esteja errada, afinal escrever neste fluxo é um desafio à parte, ainda mais para tornar entendível ao leitor. Apenas caso fizesse, poderia oferecer um vislumbre da experiência de Raul ao ler o seu relato.

13 - "A Mancha em Meus Sonhos" de Paulo H. P. Lima





O paciente envia mensagens ao seu psiquiatra sobre o fato de ele visualizar uma mancha negra em seus sonhos e depois até quando acordado. Manda novas mensagens mesmo ao descobrir sobre a mancha ir além de um distúrbio psiquiátrico. O conto epistolar foca na percepção do personagem/narrador sobre sua condição de maneira fiel, capaz de transpor ao leitor os sentimentos dele conforme escrevia para o doutor. A fidelidade se mantêm com a descoberta gradativa do que de fato o personagem aprende sobre a mancha, oscila o humor conforme os erros e acertos da verdade revelada, entregando o resultado esperado a quem conhece as histórias de Lovecraft, e mesmo assim sente o efeito graças a escrita competente ao promover esta sensação.

14 - "O Terror no Vale do Javari" de Alexandre Torres





Um grupo sai em combate contra os traficantes dentro da mata amazônica, apenas para encontrar seus corpos decapitados. Muitos dos membros do esquadrão possuem origem indígena, um fator importante para o desenvolvimento deste conto. Aqui os mitos brasileiros se relacionam com as aparições cósmicas, usando até de um fato mal esclarecido em 1930 para elaborar a trama sobrenatural da história. Conseguimos perceber que o autor conhece os vários assuntos que aborda, como a diversidade das tribos indígenas, a localização usada no conto, nossos mitos e os do autor homenageado, aproveitando tudo isso numa trama que ainda complementa com algumas cenas de ação.

15 - "O Dia da Maré Alta" de Rodolfo Mnac





Um escravo sobrevive ao naufrágio de um navio que seguia rumo a América. Além dele, apenas o capitão Jones continua a respirar. Despertam em terra desconhecida, um lugar jamais registrado pelos cartógrafos. De tudo que aconteceu nesta terra insólita, a maior decepção do escravo foi de sobreviver demais. A escrita remete aos tempos da escravidão na América, o que historiadores podem dizer ser o pior tipo de escravidão ocorrido na História, já o autor entrega na perspectiva deste personagem o que consegue ser ainda pior. Ou seja, esta construção consegue demonstrar o quanto o horror cósmico supera os humanos, sendo estes limitados até quando torturam os da própria espécie. O autor faz isso sem apelar aos adjetivos "inomináveis" recorrentes aos tipos de contos até os do próprio Lovecraft.


16 - "O Pintor de Montes Freire" de Carlos Almeida Júnior





Um paciente psiquiátrico recém-habilitado narra o que presenciou na casa do pintor Augusto, seu vizinho. A escrita caminha pela linha segura das narrativas de Lovecraft, demonstrando a intenção desde o começo de mostrar o personagem narrador como vítima de um distúrbio, quando na verdade apenas viu o que lhe saía da compreensão. Há repetições quanto ao seu arrependimento de seguir até onde avançou nesse mistério do vizinho, não tanto quanto a outros contos desta coletânea que recebeu a mesma crítica, mas ainda assim o suficiente para ecoar uma informação já mencionada.

17 - "A Fonte" de Tauan Souza





Esta história epistolar tem duas partes. A primeira é descrita por um perito investigando o local onde ocorreu um provável suicídio, e a segunda é narrada pelo suposto suicida a descobrir porque seus sonhos o influenciaram a sair do Sul do país para atender a um chamado em São Luís. A narração do perito começa por meio de descrições comuns a ficções policiais, citando detalhes supérfluos que indicam hábitos do sujeito investigado. Ao longo deste início há a transição da narrativa policial rumo ao horror cósmico, e de fato alterna os gêneros sem perder o ritmo. Na hora de transcrever o segundo registro epistolar, o autor respeitou a mudança exigida pela história e adequou a forma de escrever ao outro personagem, conduzindo o conto usando os elementos clássicos de Lovecraft ao incorporar a ambientação da capital maranhense e entregar o horror ao personagem que mergulhou em delírio por testemunhar a manifestação das entidades que aqui sempre estiveram e estarão.

18 - "Uma Grande Honra" de Felipe R. R. Porto





Noah é morador de uma vila pacata, cuja única desavença entre os moradores é a religião, dividida entre católicos e protestantes, isso até ele descobrir um terceiro tipo de culto existente na própria família. Ao se concentrar na descoberta feita pelo personagem, há um novo testemunho sobre o chamado bem conhecido entre os leitores de Lovecraft. Mostra o significado profético das frases clássicas por meio de acontecimentos e das indagações quanto aos humanos jamais terem a capacidade de compreender a realidade vislumbrada. O início colocou em destaque o personagem/narrador inquieto quanto ao que viu, fazendo o leitor duvidar sobre a veracidade do relato, e este trecho poderia ser minimizado por ser recorrente a tantos contos do gênero, para concentrar no que o conto oferece de diferente.


19 - "Noite de Outubro" de Igor A. N. Silva





O detetive relata a verdadeira história do caso noticiado com alguns artistas mortos afogados. O detalhe é que eles eram muito mais do que apenas alguns (parecendo algo ocultado de alguma forma), e a realidade ocorrida a eles, em especial ao poeta Schettini, faz com que seja melhor jamais divulgar o ocorrido nas mídias habituais. O conto é o resultado da investigação do detetive em relação ao poeta, um caso que mescla assassinatos com elementos do horror. Sob a narrativa do detetive, os fatos são enumerados e sofrem o conflito entre o ceticismo e o ocultismo presente no caso; um detalhe pessoal de Schettini encaixa com a atitude ao invocar a ação paranormal, o que faz com que ele raciocine de uma maneira diferente ao que foi treinado em sua profissão, chegando a ter de confrontar um dilema pessoal depois de conhecer a verdade.

20 - "A Estrada dos Suplicantes" de Guilherme Tomishiyo





O narrador é membro de uma família detentora de tantas terras que seus parentes mal passam por onde mora e já precisam cuidar das demais partes. A propriedade é tão grande a ponto de esconder um segredo que ele propõe a resolver junto com o criado e amigo Elias. Mas sabemos o que acontece a quem tenta entender os mistérios alheios à raça humana. A palavra-chave desta história é a solidão, que sem repeti-la, ressoa a situação do protagonista seja onde está ou o que busca fazer. Também é condenado a todo momento, seja a viver isolado da família ou diante das consequências paranormais. As causas se alternam, enquanto ele sucumbe na solidão transvestida de loucura aos céticos.


21 - "Os Contornos da Criadora" de Ricardo D. Strowitzki





O protagonista tenta se sustentar com aulas particulares de língua estrangeira na região portuária onde morava. Só que seus alunos nem sempre conseguiam pagar pelas aulas. Sem condições de quitar o aluguel, ele passou a morar numa pensão onde havia outra hóspede prestes a ir para França, uma aluna em potencial, apesar dos segredos dela condenarem a sua vida. Aqui há uma nuance em relação às histórias lovecraftianas: o personagem sofreu porque lhe faltou curiosidade pelo insólito, e por isso foi tragado ao horror. O conto progride por meio da experiência singular do personagem, refém da própria memória pouco crível a quem passa apenas por uma vida comum.

22 - O Culto do Mapinguari - Rafilsky Ferreira





O personagem é convocado pelo seu tio, único parente vivo de uma família tradicional, a uma expedição sobre uma tribo indígena perdida que na verdade sobreviveu, sendo sua verdadeira intenção encontrar a criatura que viu representada numa miniatura, o Mapinguari. Aqui segue a escala de obsessão, loucura e tragédia, sendo os humanos o cerne do horror antes mesmo de se constatar ou não a existência deste mito brasileiro. Os diálogos na maioria das vezes consistem em trocar informações dos personagens para o leitor, destoante de conversas naturais entre si. Sobre a antologia como um todo:


Com a seleção de diversos contos, a antologia conseguiu distribuir diversos tipos de homenagens o suficiente para agradar diferentes perfis de leitores de Lovecraft. Vai atender tanto os que preferem uma abordagem clássica a do autor, ou então mesclando o mito elaborado por H. P. com características brasileiras, ou apelando para o distúrbio psicológico de modo a influenciar na maneira de escrever os contos de horror cósmico. Interessante ver as histórias ambientadas no Brasil possuindo algumas semelhanças, seja relacionando as criaturas paranormais com o conhecimento indígena (na maioria das vezes os índios apenas conhecem as criaturas, o que evita o estímulo ao preconceito, ao contrário do trabalho de Lovecraft) e o horror realista no período escravagista. Ver diferentes autores usando ideias parecidas pode ser um sinal de expansão à mitologia de entidades feito Cthulhu através do cenário brasileiro. Isso faz com que esta antologia seja mais do que uma coleção temática de contos, pois de fato ajuda a manter e valorizar o legado de qualidade de H. P. Lovecraft.




Ficha Técnica:


Nome: Inominável - 130 anos de H.P. Lovecraft

Organizado por Maurício Coelho

Editora: Pará.Grafo

Número de Páginas: 289

Ano de Publicação: 2021


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