• Paulo Vinicius

Resenha: "Guardiões do Louvre" de Jiro Taniguchi

O Museu do Louvre é cercado de maravilhas e obras de arte. Nosso protagonista vaga pelas galerias do famoso museu até se deparar com guardiões misteriosos que irão lhe mostrar os seus segredos. Tudo isso no traço magnífico de Jiro Taniguchi. ​

Sinopse:


O aclamado mangaká Jiro Taniguchi o convida a conhecer o Museu do Louvre de uma maneira inesquecível. Depois de uma excursão pela Europa, um artista japonês faz uma parada em Paris sozinho, com a intenção de visitar os museus da cidade. Mas, acamado em seu hotel devido a febre, ele enfrenta o sofrimento da solidão absoluta em uma terra estrangeira, privado de qualquer recurso ou apoio familiar. Quando a febre baixa um pouco, ele inicia seus passeios e logo se perde nos monumentais salões do Louvre. Lá, descobre muitas facetas do mundo das artes, em uma jornada que oscila entre alucinações febris e realidade. Ele se vê conversando com pintores famosos de diversos períodos da história, sempre guiado pelos… Guardiões do Louvre.




Guardiões do Louvre é um mangá único. O que torna esta obra genial não é apenas o fato de ela ser publicada em um formato gigante. O que torna esta obra genial não é apenas o fato de ela ser colorida. É simplesmente o fato de ter sido escrita e desenhada por um gênio da nona arte como o Jiro Taniguchi. Ao longo das páginas a gente se arrepia com um roteiro sensível e com uma arte de encantar o olhar. Quando chegamos à última página temos total consciência de que passamos por uma experiência única. 

A edição do Pipoca e Nanquim é primorosa. Um acabamento lindo em um tamanho gigantesco. Guardiões do Louvre é o mangá de maiores dimensões publicado até o momento no Brasil. No alto de seus 31,6 x 26,4 ele consegue aproveitar todo o traço do autor conseguindo destacar aquilo que Taniguchi tem de melhor. O acabamento é em capa dura com um papel couché de alta gramatura. Dá a impressão de ser um mangá bem mais volumoso do que as 136 páginas aparentam. Ao final temos notas explicativas a respeito de alguns fatos comentados ao longo dos capítulos (algo exclusivo da edição brasileira) e biografias de alguns artistas como Corot, Van Gogh e outros. De fato é uma edição para colecionadores. 

O roteiro de Taniguchi mantém toda a simplicidade que vimos em o Homem que Passeia. Não há grandes firulas aqui. O personagem não tem nome, o que sempre produz o efeito de o leitor poder se colocar no lugar dele. Esse efeito se soma às artes detalhadas do autor e até aos sons que ele consegue transmitir através das onomatopeias. O protagonista é um quadrinista que aproveitou a sua passagem por Madrid e foi até Paris conhecer a cidade. Ao ficar doente, ele precisou reduzir suas pretensões e visitar apenas o Louvre. Lá ele se depara com estranhas aparições de Nice, uma das Guardiãs do Louvre. Ela vai apresentar todo o mundo que existe dentro do museu. Uma proposta simples, mas apresentada com muito sentimento. Algumas passagens realmente arrepiam. Ao final o protagonista sai transformado de sua experiência vivida nos dias em que ele esteve em Paris. 

Ser um mangá colorido não é o único detalhe que o torna deslumbrante. Se formos perceber a maneira como Taniguchi preenche os cenários, retrata os personagens, insere seus quadros na narrativa, o leitor vai constatando a qualidade do trabalho do autor. Os cenários dentro do museu são detalhados. Se vocês prestarem atenção aos salões do Louvre, vocês vão perceber que Taniguchi realmente desenhou a maior parte das obras de arte retratadas no museu. O que é aquela Mona Lisa? E os cenários amplos de Van Gogh? Tem um quadro enorme de Corot no capítulo três que é deslumbrante. Vou repetir: Taniguchi desenhou os quadros de grandes pintores do passado como parte de seu cenário. A quadrinização é um show à parte. Em vários momentos da narrativa, o autor emprega trípticos em que três quadros juntos formam uma cena. Tem um destes trípticos que é uma tomada de baixo para cima de uma igreja, Outro efeito que o autor abusa é das panorâmicas enormes com todo um horizonte no fundo. O detalhamento de cada casa, de cada árvore demonstra a qualidade e a sutileza do traço. Outro efeito bacana que eu gostei no mangá foi no capítulo 4 quando Taniguchi mostra algumas cenas em 1939 e ele as coloca em preto e branco. Dá um efeito bonito ao flashback e nessas cenas somos capazes de perceber como o traço do autor consegue ficar ainda mais redondinho. 

"Tamanha era sua fidelidade ao desenhar a natureza que se tornou o pintor paisagista mais poético e livre de todos. Eu declaro, com todas as palavras, que amo as pinturas de Corot. E admiro profundamente o artista em si."

O aspecto fantástico da narrativa serve ao personagem e não o oposto. Então o autor não se incomoda muito em explicar o porquê das visões do protagonista. Elas servem ao propósito de contar a história. Achei interessante Taniguchi empregar Nice para ser a guia do protagonista pelos capítulos. A deusa da vitória está ali com a função de mostrar ao personagem como ele pode transcender seu estado atual. Possivelmente o que acontece com ele é fruto do que nos é revelado no último capítulo. Talvez um desejo inconsciente dele. Ou uma necessidade de fechar uma porta. 

Guardiões do Louvre não é apenas um mangá que vai te mostrar os salões do museu. Nada disso. Taniguchi tem uma proposta bem clara aqui: mostrar qual a relação entre os japoneses e as obras de artistas franceses. Qual a visão japonesa sobre homens como Corot e Van Gogh. E existe um respeito mútuo de ambas as partes. Somos colocados com aquela dúvida na cabeça se por acaso alguns desses artistas realmente não foram influenciados pelo modo de viver dos japoneses. Há um fio condutor aqui: o apreço oriental pelo modo de vida simples, algo que o autor nos apresentou também em O Homem que Passeia. A capacidade de ter um olhar mais amplo sobre as coisas. Perceber as nuances da realidade que o cerca. Também tem a questão do flanêur, ou seja, do homem que perambula sem rumo. A arte de apreciar o ambiente apenas pelo prazer da apreciação. Mas, o autor vai além: o ato de flanar modifica o nosso íntimo. Somos afetados por essa percepção do mundo através de todo o nosso corpo. Somos capazes de superar adversidades e sanar dúvidas simplesmente olhando para dentro de nós dentro de um universo maior. 

Algo que me arrepiou foi o capítulo 4. De fato eu não conhecia o que transcorreu no museu às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Como historiador, eu estudei o nível de destruição de obras de arte causados pelos nazistas durante sua jornada rumo à conquista mundial. Eles destruíam de forma violenta tudo aquilo que não remetessem às suas origens germânicas. E muitas obras pagaram caro com isso através de seu desaparecimento dos anais da História. Ver como um curador de museu fez o possível e o impossível para resgatar obras de arte me emocionou. Nunca nos esqueçamos de que uma das funções da História, aquela criada por Heródoto, é ser capaz de fazer com que possamos compreender a cultura do outro para que haja o entendimento. Somente através do estudo das civilizações e de como estas são diferentes de nós é que seremos capazes de estabelecer laços de tolerância e romper os grilhões da ignorância. 

Este é um mangá que eu vou guardar com carinho. Não apenas pela beleza de sua edição, mas pela mensagem que ele transmite a todos nós. Assim como O Homem que Passeia, é uma daquelas obras que vai deixar marcas nos leitores que atravessarem o mar de páginas belas deixadas pelo autor. E parabéns mais uma vez ao Pipoca e Nanquim por entregar esta obra de arte. 


Ficha Técnica:

Nome: Guardiões do Louvre Autor: Jiro Taniguchi Editora: Pipoca e Nanquim Gênero: Fantasia Tradutora: Drik Sada Número de Páginas: 136 ​Ano de Publicação: 2018


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