• Paulo Vinicius

Resenha: "Folhas secas ao chão" de Diogo Andrade

Sarujin é enviado para investigar o desaparecimento de um companheiro e vai parar em um lugar repleto de segredos. Durante sua estadia, ele precisará fazer uma dura escolha entre o dever e a honra.


Sinopse:


Quando um monge de Shanjin, o Templo da Montanha, desaparece, um shenlong é enviado a um pequeno vilarejo nas montanhas para encontrá-lo. Ali, em meio aos bordos vermelhos do outono, ele se vê diante de algo muito maior do que esperava. Intrigas e segredos perturbadores para os quais não estava preparado.







O monge Sarujin é enviado até Kaisai para saber a respeito do paradeiro de seu companheiro Komar. Ele tinha ido até lá para investigar a existência de pergaminhos do antigo mestre Fushan que possuía informações que poderiam servir ao estudo dos mistérios sobre o emprego do chi. Ao pedir uma audiência com o líder local, ele recebe como resposta meias verdades e ameaças veladas, principalmente na forma do chefe da guarda, o temível Kaura. Porém, ele recebe acesso aos pergaminhos apenas para copiá-los. Durante sua permanência, Sarujin se depara com um lado sombrio da cidade onde cada canto escuro da cidade pode revelar uma nova ameaça.


A escrita do Diogo é bastante redondinha e ele sabe escolher bem as palavras a serem empregadas. É importante construir uma sensação de uma história que lembre os antigos filmes wuxia ou até mesmo a série Kung Fu com David Carradine. A história é narrada em terceira pessoa a partir do ponto de vista de Sarujin que nos guia pela história. Portanto, a forma como a história precisa ser contada deve lembrar um monge buscando resolver situações do cotidiano e trazendo-as para a sua filosofia transcendental. A história tem dois ritmos distintos: dois terços dela são mais calmos e descritivos com o protagonista investigando o desaparecimento, tentando copiar o manuscrito e precisando lidar com ameaças que ele não compreende; a parte final parece ligar um botão e mudar a velocidade com ação desenfreada e revelações surpreendentes. Não há nada de errado com esta abordagem, mas a história poderia ganhar mais agilidade com uma distribuição maior destes momentos mais velozes. Isso vai variar de autor para autor, mas uma boa fórmula é alternar momentos calmos e agitados, pensando na metáfora de um batimento cardíaco que sobe e desce. A opção do Diogo por essa narrativa mais concentrada e dividida pode ter sido ocasionada pelo tamanho da própria história que é uma novella. Nesse ponto, concordo com a escolha, porém havia essa possibilidade e até acho que dá para brincar bem com setenta páginas de história.


Como acontece com qualquer autor que já li uma vez, minha mente é relacional. Costumo fazer comparações para entender a evolução da escrita, como o autor passou a enxergar o desenvolvimento de personagens, a distribuição narrativa. O fato de A Canção dos Shenlongs, seu livro anterior, ser uma história tão boa acaba aumentando a expectativa para uma próxima história. Existe também uma distância entre as duas publicações que fez os fãs ficarem ansiosos. O autor escreveu mais uma história focada no mundo em que ele criou em A Canção dos Shenlongs e, mesmo a história sendo autocontida, quem leu o primeiro livro vai perceber algumas conexões. Quando o autor se propõe a escrever mais histórias centradas em seu universo, se faz necessário uma construção de mundo mais apurada e específica. E, mesmo o livro tendo uma boa ambientação, penso que ela é insuficiente ainda para mostrar a que veio. E o motivo disso é simples: se tornou necessário uma narrativa maior. Se o espaço entre as duas publicações tivesse sido menor, talvez essa questão nem surgisse e temos bons contistas que constroem universos narrativos interligados por suas várias histórias curtas como o Duda Falcão, o Oscar Nestarez, a Ana Lúcia Merege. É o preço pago por criar expectativas. A qualidade da narrativa não entra em questão, mas quando colocamos a obra no rol de publicações feitas pelo autor, isso age de forma contraproducente. O universo é fascinante e o que ele propõe na história deixa o ar de curiosidade, mas uma futura terceira publicação feita nesse universo vai ter mais um bola de ferro atrelada nos pés.


Essa é uma narrativa que fala muito sobre honra e dever. Sarujin precisa investigar o desaparecimento de seu companheiro Komar e encontra um cenário adverso ao que ele imaginava. Os problemas vão se empilhando um após o outro e a descoberta do pergaminho do mestre Fanshu o coloca em um dilema: continuar a busca por seu companheiro desaparecido ou fazer uma cópia do precioso pergaminho. A ele não é permitido fazer as duas escolhas. E o desaparecimento se coloca em uma trama em que outras pessoas inocentes estariam envolvidas. Ao mesmo tempo, perder a oportunidade de transcrever o manuscrito é deixar de lado uma ferramenta preciosa para o desenvolvimento de sua filosofia e técnicas marciais. A honra de salvar inocentes ou o dever com os seus mestres? Diogo consegue pesar bem essa balança mostrando a dificuldade tida pelo personagem em tomar uma escolha efetiva, tanto que ele passa pelas duas de alguma forma. Com o avançar da história, Sarujin vai se dando conta do peso de suas escolhas e de como isso afeta o seu espírito.


Gosto de como o Diogo consegue entregar muito bem os momentos de ação e friso o quanto fazer isso é complicado. Mesmo autores experientes sentem dificuldade em descrever cenas em que muitas coisas estão em movimento. É preciso pensar de forma tridimensional, como cada movimento provoca uma alteração física no cenário, onde os personagens se situam a cada nova ação, como cada ação gera uma reação. Até mesmo a física dos poderes empregados precisa ter a ver com aquilo que é pontuado na história. Se vocês observarem atentamente, principalmente quem leu o primeiro livro, vai perceber que os animais que representam os yantras dos personagens, falam muito sobre suas características psicológicas e emocionais. No caso aqui, Sarujin tem o macaco e isso faz dele uma persona curiosa, sábia e corajosa nos momentos decisivos. Ainda quero entender como funciona o ciclo de vida e morte no mundo criado pelo autor por conta de algumas habilidades manifestadas pelos antagonistas na narrativa. Provavelmente são pontos a serem explorados posteriormente.


Se eu for analisar Folhas secas ao chão como uma história independente, a narrativa é sólida, a construção de mundo é legal, apesar de algumas lacunas e o personagem é bem trabalhado com suas indecisões e dilemas. Só que não posso fazer isso porque a narrativa se insere em uma espécie de publicação seriada que compartilha um mundo explorado anteriormente. E nesse sentido, faltam informações ao leitor, algo que pode e será explorado em livros posteriores. Porém, não é possível analisar algo que ainda não existe. E isso vai depender de quais são os planos para o autor, os próximos passos a serem seguidos. Diferentemente de outros leitores que desejavam mais páginas nesta história, sinceramente acho que ela tem o tamanho ideal. Para o objetivo proposto aqui, funciona, talvez inserindo mais cinco páginas alguns aspectos como o da mulher do governante e seu papel naquele lugar poderiam ter sido melhor abordados, mas seria mais algo a mais do que algo a prejudicar.











Ficha Técnica:


Nome: Folhas secas ao chão

Autor: Diogo Andrade

Editora: Cuscuz Studio

Número de Páginas: 70

Ano de Publicação: 2021


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*Material recebido em parceria com o autor




















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