• Paulo Vinicius

Resenha: "Filhos do Lixão" de Sofia Soft

Pirralha é um manequim que faz parte de um grupo de crianças que vive em um lixão. Entre suas dificuldades diárias, surge um nevoeiro verde que está ali para acabar com a existência deles. Inicia-se uma fuga contra o tempo onde a autora vai discutir uma série de temas como desigualdade social, abandono, a realidade entre várias outros assuntos.


Sinopse:


Breve romance de ficção fantástica pra jovens leitores, FILHOS DO LIXÃO narra as desventuras de um grupo de vinte e uma crianças & adolescentes que moram num super-hiper-megalixão de proporções planetárias. Entre os protagonistas há até mesmo um personagem sintético: uma manequim chamada Pirralha, descartada provavelmente por uma loja de roupas pra galera teen. Em sua luta diária pela sobrevivência, esse grupo juvenil é obrigado a escapar de ratos e urubus gigantes, chuvas ácidas, assassinos milicianos e um misterioso nevoeiro verde que os persegue, sem descanso. O livrim (primeira obra solo de Sofia Soft) é mais um lançamento da Líquido Editorial.






Assim como Sofia Soft faz ao longo da trama, vamos quebrar logo expectativas. Primeiramente, Sofia Soft é mais um dos pseudônimos de Nelson de Oliveira, aquele que, para mim, figura entre os maiores escritores de ficção especulativa vivos do Brasil. Compreensivelmente, é um autor cujas obras impõem desafios aos leitores, então pode não ser o seu copo de café (caneca de chá é brega demais para o Brasil). Ou seja, em segundo lugar, estamos falando de uma obra de ficção especulativa que vai se debruçar sobre diversas críticas sociais e tem simbolismos e metáforas até o último fio de cabelo, desde o real significado de um "nevoeiro verde" até Pirralha se deparar com uma flor azul e outra vermelha. Esse é aquele tipo de material para você, leitor, que tem a mente aberta e livre de preconceitos e estereótipos; que entende que aquilo que você lê espelha a realidade em que vive.


Vou tentar explicar parte da narrativa, mas ela não é aquela história que pode ser explicada. Um grupo de crianças vive em um lixão cercado por comida estragada, restos de plásticos, camisinhas, lixo químico e tudo o mais que você pensar. Não existem adultos por perto. Cada um deles possui algum tipo de problemática, seja alguém com queimaduras, com um membro a menos, com um roxo no corpo. A vida é dura e cada dia eles precisam lutar por sua sobrevivência. Nossa protagonista é Pirralha, uma manequim de plástico que possui senciência. O grupo é liderado por Xerife, uma garotinha moldada pela dura vida no lixão e que consegue manter todos vivos. Um dia, um mortal nevoeiro verde se aproxima do lixão, destruindo tudo e todos por onde passar. As crianças precisam buscar abrigo contra essa terrível ameaça enquanto alguns deles padecem pouco a pouco.


"O que eu quis dizer é que as crianças trocaram por camisetas menos velhas, em melhor estado, as camisetas supervelhas que estavam vestindo antes de montarem acampamento no vale das camisetas."

É muito curioso o quanto Sofia Soft (sim, vou usar o pseudônimo afinal esta é a autora) buscou dar uma aparência de conto de fadas a este livro. As descrições e a forma como a narrativa é contada se parece muito com este estilo de histórias. Mas, não se enganem: não é um livro infanto-juvenil. Sofia está em seu modo sarcástico, destilando suas críticas por toda a parte e o leitor precisa estar atento a cada uma das ideias. É uma obra altamente metafórica, na qual se torna essencial ler mais de uma vez e ler além das entrelinhas. Outro ponto bastante divertido é o fato de o narrador usar a sua onisciência para quebrar a quarta parede. Frequentemente ele conversa com o leitor. Aliás, o narrador faz o que quer com a história e nos dá rasteiras. Até o final não é um final se você não continuar passando as páginas. A narrativa não possui uma estrutura strictu sensu, mas segue uma linha de pequenas esquetes que juntas compõem uma história completa. Isso entra em um alinhamento com a forma como a qual a autora gosta de escrever: em contos curtos ou micronarrativas com uma temática rápida que dá aquele jab rápido no leitor.


Não vou adentrar demais na história porque acho que vale a pena curti-la com seus diversos significados. Além do que, sua leitura vai ser bastante subjetiva e interpretativa, variando conforme aquele que ela toca. Queria destacar dois pontos. Um deles é o fato de Sofia não romantizar as crianças. Aí ela segue bastante a linha de O Senhor das Moscas, de William Golding, o qual é mencionado na orelha do livro. Crianças são capazes de pensamentos complexos sim, e até mesmo de realizar violências seja entre si, seja com outras pessoas. A gente precisa deixar de lado essa visão romantizada da inocência e pureza e tratá-los como seres em formação. É isso o que é visto aqui com os confrontos e violências vivenciados por cada um. A maneira como eles enxergam a vida se manifesta em sua realidade e o que ela oferece a cada um. Vale a pena destacar o quanto a única verdadeira inocente e sonhadora é Pirralha, um manequim de plástico, próxima a dezenas de outras crianças. Todas as outras deixaram de lado seus sonhos e esperanças, esmagados pelas dificuldades do cotidiano.


O outro ponto é o abandono. Ainda seguindo na linha de O Senhor das Moscas, vemos o quanto o lixão é como se fosse a ilha criada por Golding. Mas, aqui, existe a possibilidade de outras pessoas interagirem com estas crianças, ajudá-las de alguma forma. Só que sua realidade é tão específica que elas são deixadas de lado de propósito. São seres invisíveis à realidade comum, largados à própria sorte. Para sobreviverem, eles dependem apenas deles mesmos e de sua capacidade de resiliência. Podemos até deduzir que o nevoeiro verde seja uma manifestação de um sistema capitalista opressor que massacra os mais pobres e os deixa à revelia, sem direitos e sem apoio. Quando o nevoeiro se aproxima de um deles, a morte é certa já que eles foram tragados por ele. Quase no final da narrativa, Pirralha recebe a escolha de poder permanecer ou abandonar a realidade em que vive, e acaba acidentalmente abandonando o espaço. Entrando em um lugar idílico onde ela poderia viver em paz. Só que como a heroína da história, ela opta por retornar.


"Pirralha fica observando os detalhes da máscara como se examinasse um rosto de verdade, um rosto cheio de vida e vontades genuínas. O risco horizontal nem triste nem alegre vibra tenuamente - uma ilusão de óptica? -, essa boca estilizada parece estar querendo dizer alguma coisa secreta."

Filhos do Lixão é um livro intenso e revelador, que testa os limites da escrita de um gênio da ficção especulativa. Alguém que consegue dizer mais em poucas páginas do que muitos autores que vemos no mercado. Cada vez que leio algo dele sinto que meu universo se expande a lugares inimagináveis. Sempre vou convidar os leitores deste espaço a darem uma oportunidade a este grande autor, que permanece nas franjas da ficção especulativa brasileira, mas que já tem um lugar garantido entre os melhores.












Ficha Técnica:


Nome: Filhos do Lixão

Autora: Sofia Soft

Editora: Líquido Editorial

Número de Páginas: 97

Ano de Publicação: 2021


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*Material enviado em parceria com o autor












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