• Paulo Vinicius

Resenha: "Filhos de Sangue e outras Histórias" de Octávia E. Butler

Já conhecemos a autora de sucessos como Kindred e Parábola do Semeador. Mas, agora vamos ver como ela se sai na ficção curta. E garanto a vocês que suas histórias irão deixar a todos pensando em temas como desigualdade social, amor entre espécies diferentes e preconceito.


Uma criança oriental com uma blusa azul está olhando para um ser parecido com uma centopeia. Ao fundo temos paredes de cimento cinza. A centopeia parece estar caminhando em um chão também cinza.

Sinopse:


Octavia E. Butler, a Grande Dama da Ficção Científica e autora de clássicos como Kindred: laços de sangue e A Parábola do Semeador, agora nos apresenta uma incrível coletânea de contos e ensaios, uma perfeita introdução para novos leitores e uma aquisição obrigatória para fãs. “Filhos de Sangue”, um dos grandes destaques da coletânea, traz uma avassaladora reflexão de Octavia sobre questões como simbiose, amor, poder e escolhas impossíveis. O conto venceu todas as premiações da categoria como Hugo, Nebula e Locus e é constantemente enaltecido como um de seus melhores trabalhos. Todos os contos incluem notas da própria autora, abordando a inspiração, criação e desenvolvimento de suas ideias. Servindo como parábolas dos problemas reais que afligem o mundo atual, cada história nos transporta com poucas palavras pela imaginação extraordinária de Octavia, reforçando a sua posição como uma das autoras mais relevantes da literatura contemporânea.






Certamente os leitores brasileiros já se afeiçoaram ao estilo impactante das histórias da dama da ficção científica. Mulheres como Dana e Lauren mostraram a força da mulher negra diante das adversidades. Mas, que tal ver histórias curtas? Nessa coletânea de contos, Butler vai se debruçar sobre vários temas e produzir um livro que é considerado um dos melhores do gênero no século XX com histórias clássicas como Filhos de Sangue, Sons da Fala e Atalho. O mais curioso é que Butler afirma que escreveu esses contos de forma quase acidental enquanto realizava pesquisas para outras histórias ou com alguma situação curiosa que ela vivenciou.


Como é o caso do conto que dá nome à coletânea, Filhos de Sangue. Nessa narrativa os humanos vivem em uma espécie de reserva protegidos pelos alienígenas Tlic. Gan é um menino que vive junto de sua mãe, seu irmão e sua irmã sendo "protegido" por T'Gatoi, uma espécie de alienígena na forma de centopeia. A dieta alimentar dos seres humanos é a base de ovos. Estes parecem ter algum tipo de propriedade alucinógena e viciante. Então a rotina básica da família é se aninhar no corpo de T'Gatoi, comer ovos e isso. Isso até um homem muito machucado chegar à porta da família. O simples ato de cuidar desse elemento estranho vai gerar acontecimentos que farão Gan se deparar com verdades que não poderão mais ser esquecidas.


O que aconteceria se o seu corpo servisse apenas de repositório para a reprodução de seres alienígenas? É mais ou menos isso o que se passa nessa história. Butler afirma que não escreveu essa história pensando em uma relação de escravidão, embora a gente consiga fazer essa associação ao pensar em o quanto o ser humano perde sua habilidade diante dessas criaturas. Basta pensar na imagem da mãe presa por tentáculos ("aninhada") em uma situação em que o alienígena diz ser de carinho. Mas, pensando depois sobre amor entre espécies eu entendi o que ela quis dizer. T'Gatoi ama Gan do seu jeito estranho. Tanto que ele dá uma opção a ele mais tarde. Se não amasse, talvez essa opção não teria sido dada.


Em O Entardecer, a Manhã e a Noite Butler aborda a questão do transtorno mental. No mundo criado por Butler existe uma condição chamada GDE que faz com que as pessoas se tornem um tipo de savants. Pelo que dá para entender na narrativa ou eles acabam se destacando em alguma área de conhecimento ou acabam se tornando muito agressivos, causando automutilação. A vida das pessoas com GDE é bem complicada e é um transtorno que acaba sendo transmitido hereditariamente. O protagonista é um GDE, filho de um casal de GDEs. Seu pai matou sua mãe e depois se matou enquanto comia suas próprias vísceras. Uma cena bem forte até. Algum tempo depois ele conhece Alan, outro GDE que tem sua mãe internada em um lugar chamado Dilg, onde dizem que os GDEs mais violentos conseguem viver em paz.


Um ser humano junto a um ser que parece uma centopeia. O fundo é meio acinzentado e eles parecem estar acima de uma espécie de banco ou degrau.

Essa é uma temática bem delicada e a autora consegue abordar com bastante elegância. As dificuldades, as dúvidas, o preconceito. A gente pode facilmente associar a condições como a síndrome de Down ou ao nanismo. E a como a sociedade responde a essas pessoas. O próprio protagonista mesmo sendo portador de GDE não consegue enxergar uma possibilidade de aproveitar a sua condição para alguma coisa significativa. Há até mesmo um questionamento sobre se eles deveriam passar os seus genes adiante tendo ou não filhos. Porque eles sabem que se eles tivessem filhos, a condição passaria adiante. Não passou pela cabeça deles a superação dos problemas, a adaptação às particularidades. E isso é trabalhado ao longo da narrativa através da dona do instituto em Dilg. A maneira como ela é paciente e didática com os personagens é reveladora talvez dos próprios sentimentos da autora.


O conto Parentes Próximos é um dos contos que não tem nada de ficção especulativa nele. Trata de um filho cuja mãe acaba de falecer. Ele está indo ao velório para depois seguir o testamento e ver o que ela deixou a cada um dos parentes. Só que o protagonista foi abandonado pela mãe e criado por outros parentes, então ele desenvolveu uma raiva muito grande pela sua mãe. Neste conto, Butler explora as relações familiares e o quanto elas podem ser complexas. As famílias podem esconder segredos que não somos capazes de imaginar. Os diálogos são muito importantes aqui e a forma como a autora os conduz é incrível. Tudo compassado e ritmado com silêncios e segredos sendo expostos a cada novo parágrafo. Normalmente eu não gosto de diálogos curtos, mas Butler faz isso aqui de uma maneira que não incomoda o leitor. Porque eles são diálogos verossímeis e nos passam sentimentos. Esses sentimentos reverberam a cada nova descoberta até chegar ao momento climático.


Não vou comentar sobre Sons da Fala porque ele recebeu uma resenha individual (lembrem-se que este conto está presente no Projeto Cápsula da editora Morro Branco). Atalho é um conto bem simples e direto. Ele esconde muitos significados no pouco que ele nos conta. Trata-se de uma mulher mais velha que trabalha em uma fábrica que vai até um bar onde alguns jovens idiotas implicam com ela. Quando ela sai do bar, ela se encontra com um velho conhecido. Esse é um conto que trata de mulheres que trabalham em profissões difíceis e as tornam menos "atraentes" aos homens. Mas, eu não sei se a Butler quis inserir isso também, mas eu acho que eu percebi também uma relação de violência doméstica entre ela e o homem que ela encontra. Alguma coisa passada que acabou gerando a prisão dele e o afastamento dos dois. Não sei... pode ter sido minha impressão.


A imagem de uma mulher negra sendo envolvida por um alienígena que está colocando suas mãos longas em seu rosto. A mulher negra está com um ovo em suas mãos e parece estar sugando algum líquido dele.

Obsessão Positiva é uma série de pequenos textos contando sobre a trajetória de Butler por ela mesma. Das suas inspirações, à sua vontade de escrever, às suas dificuldades. É um texto incrível com vários trechos inspiradores principalmente no sentido de que a autora perseguiu seus objetivos desde o começo. Pensem que quando ela começou a escrever fantasia e ficção científica, não haviam negros escrevendo o gênero. Ela foi uma das pioneiras e a gente pode ver pelos seus relatos o quanto seus professores tentaram dissuadi-la da ideia. Já Furor Scribendi é um artigo rápido falando um pouco sobre o ato de escrever e o quanto é importante agir. É interessante a visão dela sobre talento e persistência. Ela não acredita necessariamente em talento. Para ela, sem uma meta em vista, não importa o talento que você tenha ele não vai suprir o necessário para chegar ao sucesso.


O conto que me pegou de surpresa foi Anistia. Para mim, o melhor desta coletânea. Noah é uma mulher que foi abduzida pela Comunidade e foi vítima de todo tipo de experimentos por vários anos e depois sofreu o mesmo pelas mãos dos humanos. Hoje ela atua como mediadora entre humanos e a Comunidade. Os humano não tem mais opção além de conviver com os alienígenas que ocuparam todas as regiões desérticas do mundo, de onde retiram os recursos necessários. Os seres humanos se tornaram um objeto de seu interesse. Depois de alguns momentos tensos entre as duas espécies, hoje há uma espécie de acordo tênue em que humanos se oferecem para trabalhar ao lado da Comunidade e serem "envolvidos" por eles. A partir desse ato eles retiram informações que eles desejam dos homens.


É um conto bem pesado que não deixa nada a desejar a Kindred. Aliás, em vários momentos, eu me vi lendo O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke quando os seres humanos perderam o poder de agência sobre si mesmos. Na narrativa Butler nos mostra o quanto nos tornamos insignificantes frente a uma força superior e relutamos a aceitar essa realidade simples. Por toda a narrativa as pessoas frente a Noah ficam tentando encontrar brechas para atacar os invasores. E não há. O homem precisa se sentir no topo da cadeia alimentar. E isso em algum momento não vai existir. Somos pequenos demais diante de um enorme universo. Outro tema tocado é a violência sofrida pela protagonista. Os abusos que ela passou são inimagináveis, tanto pelas mãos dos alienígenas quanto dos humanos quando ela retornou para a Terra. Mas, o que mais doeu para ela foi ter sido torturada pelos seres humanos. Foi vê-los saber o quanto ela estava fragilizada, foi atacá-la em suas vulnerabilidades, mesmo ela tendo revelado tudo o que ela sabia. Essa parte do relato doeu no fundo do coração. Se preparem porque é um soco no estômago.


O último conto é O Livro de Martha é um conto mais reflexivo. A história é simples: Martha morreu e acorda em frente a Deus. Deus dá a ela uma missão: voltar ao mundo dos homens e encontrar uma maneira de tornar a humanidade melhor. Para isso ele vai dar a ela parte de seus poderes. Qualquer mudança que ela fizer com a humanidade será permanente. Isso dará muito pano para debates. Não vou comentar nada além disso porque considero essa história bem valiosa para ser lida. É a visão de uma utopia para Octávia Butler. No geral se trata de uma boa coletânea em se tratando de uma autora que não é muito fã do gênero de histórias curtas. Mesmo assim ela conseguiu criar algumas histórias memoráveis.










Capa Filhos de Sangue e Outras Histórias

Ficha Técnica:


Nome: Filhos de Sangue e Outras Histórias

Autora: Octávia E. Butler

Editora: Morro Branco

Tradutora: Heci Regina Candiani

Número de Páginas: 240

Ano de Publicação: 2020


Avaliação:

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Assinatura Paulo Vinicius - Frase: "Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o começo de outra."

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