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Resenha: "Faculdade de Mangá" de Osamu Tezuka

O mestre dos mangás japoneses escreve uma série de histórias curtas ao mesmo tempo em que fala da indústria de publicação de mangás no final da década de 1940 e início de 1950.


Sinopse:


Em uma realidade pós-guerra mundial, a indústria de mangás começa a desabrochar, mas há poucas obras de suporte para as pessoas que gostariam de se tornar mangakás, além do pouco interesse das editoras em publicar esse tipo de material. Com isso em mente, Tezuka teve a ideia de misturar uma coletânea de histórias e tirinhas a pequenas aulas sobre o básico da indústria na época. Criando assim esta obra singular, recheada com a comédia e aventura típica do autor.






Este é um trabalho bem curioso de Tezuka onde vemos um pouco de sua narrativa curta ao mesmo tempo em que ele fornece dicas a novos escritores. Só tem um detalhe: a maior parte do conteúdo destas aulas de narrativa são bastante voltadas para o período específico em que ele escreveu essa obra, o final da década de 1940. Então, por exemplo, várias dicas que ele fornece sobre papel e caneta não servem para os dias de hoje. Por outro lado, o que Tezuka fala sobre narrativa, as críticas que ele faz à repetição de temas entre outros, são bastante valiosos. É um documento importante de uma época. Além disso, vemos a habilidade de Tezuka para criar histórias simples e diretas voltadas a públicos de todas as idades.


Embora este não seja o trabalho mais genial de Tezuka, conseguimos ver o quanto a sua arte continua atual mesmo passados mais de meio século. Lógico que ele não segue nem um pouco o padrão com o qual estamos acostumados aos quadrinhos japoneses, fruto de uma construção estética que se deu em décadas posteriores, mas seus traços são precisos e poderosos. Gosto demais de como a arte do Tezuka é única, pertence a ele, embora tenham tentado replicá-la à exaustão. Se o leitor prestar atenção, neste mangá Tezuka usa vários dos recursos que o deixaram famoso: as linhas cinéticas, a dinâmica dos quadros, a personalidade dos personagens. Está tudo ali em formas bem diferentes. Seja em um quadrinho cuja temática é tipicamente ocidental em uma pegada western, ao formato das tirinhas, à adaptação de clássicos e a uma narrativa curta. Novamente, não são histórias sensacionais, mas demonstram a qualidade e a versatilidade da arte e do roteiro. Vou falar um pouquinho de cada história.


Na primeira história, temos uma típica história de faroeste. Um bandoleiro chega na cidade e acaba por deter o assalto a um banco. Como o xerife está doente, o forasteiro se torna o xerife temporário. Só que o forasteiro parece conhecer o bando de assaltantes. O que parece um bem na forma de um sujeito bem apessoado e que deseja manter a paz e a ordem pouco a pouco vai levando a algo mais estranho. Principalmente quando o fazendeiro local, o senhor Brown acaba morrendo em um duelo quando Mac, o bandido, alega que Brown levantou falso testemunho sobre ele. E a diligência que vinha trazendo dinheiro para o banco local é assaltada por indígenas locais. Só que os indígenas não fazem ideia do que aconteceu e alegam que não foram eles que assaltaram.


Essa primeira história é bem datada e tem algumas coisas que me incomodaram. A vila onde o forasteiro se torna xerife é formada por humanos e animais antropomorfizados. E eles convivem não muito harmoniosamente com os humanos considerando os animais como seres tolos e inferiores. O dono do saloon é casado com uma raposa a qual ele diz ser sua escrava. E tenta vendê-la a quem quiser comprar junto com o saloon. A representação dos indígenas também é aquela típica do período com eles sendo quase bárbaros e selvagens. Mas, Tezuka aproveita para comentar acerca do preconceito e nos apresenta um personagem na metade final da história que deseja resolver os problemas sem usar métodos violentos. E ele é chamado de covarde porque em um lugar onde tudo é resolvido no cano da arma, alguém como ele é considerado fora de contato com a sua realidade. Mas, com inteligência e persistência, o personagem vai conseguindo lidar com os obstáculos que são colocados em seu caminho.


A segunda história é sobre um garoto pobre que deseja poder comer e desfrutar da vida. É então que ele encontra o deus dos pobres e este lhe concede três pedidos. Ele pede que o deus faça com que toda vez que ele abra a sua bolsinha de dinheiro sempre saia riquezas de lá. E o deus diz a ele que não é assim que ele vai encontrar a felicidade. Que mesmo que ele consiga o que quer, vai continuar infeliz. Mas, o protagonista insiste e logo o menino se torna o garoto mais rico de sua cidade. Ele compra casas, come o que deseja e distribui dinheiro a todos. Até o dia em que uma princesa vem até ele pedir para se casar. Vendo-se encantado por sua beleza, o menino conta a ela a fonte de sua riqueza. E a princesa o trai, roubando-lhe a bolsinha. O menino é jogado no calabouço e precisa descobrir algum jeito de conseguir recuperar o que a princesa pegou.


Essa história é formada por algumas adaptações de histórias clássicas. A própria ideia do menino e do deus da pobreza é oriunda das narrativas de Sherazade nas Mil e Uma Noites. A relação de Aladdin e o gênio da lâmpada. Lógico que aqui Tezuka torna esse encontra mais simples por causa das limitações de espaço. A regra dos três desejos continua presente e a própria moral da história está na essência da narrativa. Se o personagem obteria a felicidade com tudo o que desejasse ou se apenas teria mais e mais problemas. A outra adaptação se encontra mais para a frente da história com a narrativa da roupa invisível que apenas os espertos conseguem visualizar. Uma narrativa sagaz que se utiliza do orgulho do homem e o volta contra ele mesmo. Nos dois casos, o autor encaixou muito bem as narrativas àquilo que ele desejava contar. Além de ter conseguido dar sua personalidade à história.


Já a terceira história, mesmo antiga, tem uma pegada bastante atual. Dois policiais foram chamados à casa de uma madame que os chamou para dar parte de um assassinato. Do seu gato. E os policiais logo ficam descobrindo que a madame acha que ele foi envenenado. Com a investigação, eles chegam ao menino Tom que conta a eles que o gato teria bebido o leite de sua casa e fora envenenado. A informação de que o gato teria bebido um pouco de leite envenenado avança rapidamente (graças a jornalistas que interpretam mal a informação) para que todos os produtos derivados do leite podem matar pessoas. Isso causa um caos generalizado na cidade com as pessoas evitando tomar leite, comer queijo entre outras coisas. Mas, alguma coisa estranha não bate com o que foi dito pelo jovem Tom. Principalmente porque ele é um menino travesso.


Ótima história para analisarmos como a desinformação pode levar à confusão social. Aqui é como se fosse um telefone sem fio em que a cada jornalista que a informação chegava, tudo aumentava. Até que o que era algo simples, se tornou uma regra que era levada a ferro e fogo. Os jornalistas sempre ficavam atrás de novas declarações de Tom e o menino complicava mais e mais tudo. Até que Bessie decide seguir Tom e tentar descobrir o que realmente aconteceu. Bessie é uma homenagem de Tezuka aos enormes computadores que existiam nessa época. Que ocupavam salas e mais salas para poderem processar informações. Tezuka deu vida a um desses computadores. No mais, temos as tirinhas que Tezuka coloca espalhadas na metade da edição, tirinhas que alternam entre a ironia e o humor, sempre afiado da parte do autor. Gostei da edição, recomendo, mas não vão esperando nada no nível de Metrópolis, Astro Boy ou Ayako. São histórias mais contidas e que valem pelo seu valor histórico.



Ficha Técnica:


Nome: Faculdade de Mangá

Autor: Osamu Tezuka

Editora: NewPop

Gênero: Humor/Fantasia

Tradutora: Karen Kazumi Hayashida

Número de Páginas: 168

Ano de Publicação: 2019


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