• Paulo Vinicius

Resenha: "Circe" de Madeline Miller

Esta é uma história de mitos e lendas em um mundo antigo. Mas, vista de um ponto de vista diferente do que você está acostumado. Nada de Hércules, ou Aquiles ou Odisseu. Esta é a história de Circe, uma bruxa, uma feiticeira, uma mulher de poder.



Sinopse:


Na casa do grande Hélio, divindade do Sol e o mais poderoso da raça dos titãs, nasce uma menina. Circe é uma garotinha estranha: não parece ter herdado uma fração sequer do enorme poder de seu pai, muito menos da beleza estonteante de sua mãe, a ninfa Perseis.Deslocada entre deuses e seus pares, os titãs, Circe procura companhia no mundo dos homens, onde enfim descobre possuir o poder da feitiçaria, sendo capaz de transformar seus rivais em monstros e de aterrorizar os próprios deuses.Sentindo-se ameaçado, Zeus decide bani-la a uma ilha deserta, onde Circe aprimora suas habilidades de bruxa, domando perigosas feras e cruzando caminho com as mais famosas figuras de toda a mitologia grega: o engenhoso Dédalo e Ícaro, seu filho imprudente, a sanguinária Medeia, o terrível Minotauro e, é claro, Odisseu.E os perigos são muitos para uma mulher condenada a viver sozinha em uma ilha isolada. Sem se dar conta, Circe acaba despertando a ira tanto dos homens quanto dos deuses. Para proteger o que mais ama, Circe deverá usar toda a sua força e decidir, de uma vez por todas, se pertence ao reino dos deuses ou ao dos mortais que ela aprendeu a amar.Personagens vívidos e extremamente cativantes, aliados a uma linguagem fascinante e um suspense de tirar o fôlego, fazem de Circe um triunfo da ficção, um épico repleto de dramas familiares, intrigas palacianas, amor e perda. Acima de tudo, é uma celebração da força indomável de uma mulher em meio a um mundo comandado pelos homens.





Uma mulher tomando o poder para si


Tornou-se comum falarmos sobre o empoderamento feminino nos últimos tempos. É uma palavra que ganhou notoriedade ao tratarmos do papel da mulher na sociedade. Discutimos o quanto a mulher conseguiu ocupar espaços desde o último século e o quanto ainda falta ser conquistado. É nesse sentido que entra o papel da ficção. Ao fazer a releitura de alguns personagens ficcionais, ressignificamos suas histórias e as apresentamos às novas gerações. Personagens como Catarina, a Grande, Joana D'Arc, Helena de Tróia. Todas ganharam novas versões pelas mãos de autores e autoras. Madeline Miller, uma intensa pesquisadora sobre as narrativas da Ilíada e da Odisseia, escreve mais uma narrativa sensacional depois do sucesso de A Canção de Aquiles. Em Circe, ela nos coloca diante de uma personagem cativante que mesmo presa a uma ilha consegue fazer tremer o mundo em que ela habita.


Esta é uma narrativa que se centra na figura de Circe, uma mulher nascida de um deus (Hélio) e de sua mãe Perseis. Mesmo sendo um titã, o nascimento de Circe já significa uma certa perda de poder e ela habita uma posição inferior em relação aos deuses maiores. Com seu caráter submisso, porém curioso, Circe acaba não se destacando em sua casa. Sua falta de poder também acaba contribuindo para o ostracismo de parentes e pessoas próximas. Mesmo sua mãe não lhe dá valor e a considera feia e inútil. Toda a criação da personagem é marcado pela sua diminuição e quando ela e seus irmãos se rebelam, Circe é quem acaba ficando com o lado pior da moeda. Após um acontecimento trágico que envolve a criação de um monstro lendário, Circe é exilada na ilha de Eana de onde nunca mais pode sair. Nesta ilha ela entra em contato com inúmeros personagens do mundo antigo como Dédalo, Ícaro, o minotauro, Odisseu, Penélope. Esta mulher vai buscar o seu lugar no mundo, ao mesmo tempo em que valoriza a si mesma.


"Eu não serei como um pássaro criado em uma gaiola, pensei, entorpecido demais para voar mesmo quando a porta está aberta. Entrei naquela floresta e minha vida começou."

Madeline Miller nos dá uma aula de desenvolvimento de personagens. Sério. Dos livros que eu li em 2020 (e foram às dúzias até o momento), Circe é aquele que melhor consegue demonstrar como é possível construir e evoluir um personagem. Mesmo se tratando de alguém explorado em diversas narrativas por milênios, Miller dá sua própria leitura e se apodera da personagem de uma maneira única. Ela não é uma personagem perfeita; muito pelo contrário. Alguns de seus comportamentos irritam os leitores e isso é completamente normal. Nossa ninfa é imperfeita... ela precisa aprender lições duras que somente a experiência vai lhe fornecer. Como ela comenta em uma determinada cena, sua vida antes de ir para Eana foi em uma gaiola dourada onde não conseguiu perceber o mundo pelo que ele realmente era. A escrita é simples e tranquila, mas vai exigir do leitor um pouco de calma e paciência. Não é aquele livro que você vai devorar em poucas sentadas, sendo necessário absorver as mensagens colocadas pela autora.



"Por cem gerações, eu tinha caminhado o mundo sonolenta e entediada, ociosa e confortável. Não deixei marcas, não realizei feitos. Mesmo aqueles que tinham me amado um pouco não se importaram o bastante para ficar. Então aprendi que podia curvar o mundo à minha vontade, como um arco é curvado para uma seta. Eu teria praticado toda aquela labuta mil vezes para manter esse poder em minhas mãos. Eu pensei: é assim que Zeus se sentiu quando empunhou seu raio pela primeira vez."

Pela narrativa ser em primeira pessoa e do ponto de vista da Circe, se torna essencial nos envolvermos com os seus problemas. E eu me encantei com ela desde o primeiro momento. Me importei com seus problemas, seus dilemas. A narrativa é a responsável direta por sua evolução algo que nem sempre é tão transparente em algumas histórias. Até mesmo seus problemas se modificam ao longo da narrativa por causa das escolhas que ela faz. Em um primeiro momento, Circe quer apenas ser aceita. Ela quer ser valorizada e reconhecida por quem ela é. Depois de tanto ostracismo por parte de sua família, a personagem é ressentida com todos. Ela deseja apenas uma palavra ou postura de seu pai ou de seus irmãos. Em um segundo momento, Circe quer ser amada. Ela sai em busca do amor seja no ambiente divino, seja no mundo dos homens. Mas, suas decepções vão fazendo seu coração se tornar cada vez mais amargo e seco. No último terço da história, Circe busca, inconscientemente, se aceitar como pessoa. Algo que diante de tudo o que ela viveu é uma tarefa quase impossível e vai exigir dela todo um trabalho emocional. Quando isto acontecer, vamos ver o surgimento de uma verdadeira titã.


A autora explora bem as relações entre titãs e deuses olimpianos. Desde a rebelião de Zeus contra o seu pai, o titã Cronos, que as relações não são nem um pouco amistosas. Ao longo de todo o livro as relações de poder e dominação vão se espalhando. Progressivamente, os titãs perdem sua autoridade em um mundo onde seres como Atena e Apolo ganham cada vez mais espaço enquanto Nereu, Selene e Oceano ficam para trás. Então, as trocas e as maquinações se tornam essenciais. Por exemplo, a punição de Circe na ilha de Eana nada mais é do que um jogo de poder entre Hélio e Zeus. Mais para a frente teremos a importância de Odisseu nos planos de Atena para a manutenção de seu poder e reverência na Grécia antiga ante o aparecimento de uma possível nova nação em outra península. Ou o quanto a ida de Pasifae, irmã de Circe, é uma peça fundamental em um jogo de poder de longo prazo entre titãs e olimpianos.


Ao mesmo tempo, o mundo mortal funciona diferente para seres que não enxergam o tempo como um empecilho. A imortalidade e a efemeridade da vida humana é parte essencial da trama do livro. O contato de Circe com Prometeu faz com que a protagonista desenvolva outro tipo de relação com o mundo dos homens. Em diversos momentos do livro, Circe acaba se colocando em uma posição de vulnerabilidade simplesmente porque ela se importa. Ao mesmo tempo, durante quase todo o livro ela é enxergada pelos homens como uma deusa menor ou sequer é lembrada. Apenas quando se torna mais ameaçadora é que ela passa a ser reconhecida. A forma até obscena como Aietes e Pasifae brincam com as vidas humanas incomoda nossa protagonista. A ponto de ela retirar importantes lições dessas interações. Seja com o controle violento de Aietes ou com a indiferença cruel da venenosa Pasifae. Isso ou até a paciência quase ilimitada de Atena de esperar por aquilo que ela deseja.


"Os poetas gostam de tais simetrias: a bruxa Circe, igualmente habilidosa em tecer feitiços e fios, em fiar encantamentos e tecidos. Quem sou eu para estragar um hexâmetro tão natural? Mas qualquer maravilha em meus tecidos vem daquele tear e do mortal que o fez."


Os personagens são o que tornam essa narrativa rica em narrativa e em ambientação. Até agora comentei mais sobre Circe, mas personagens como Dédalo e Odisseu possuem muito espaço na história. Miller não tem pressa alguma em desenrolar suas tramas, como um novelo de lã sendo usado em um imenso labirinto minotáurico. Tudo o que a autora insere na história tem uma conclusão em algum momento. As relações entre personagens são importantes para a trama, logo é importante destacar o amor de Dédalo por seu filho ou a inteligência de Odisseu e o quanto ele sente falta de Ítaca. Mesmo assim, a autora não idealiza seus personagens. Por exemplo, Odisseu é um homem destemperado. Em alguns momentos, ele demonstra sua extrema violência ao punir um de seus homens ou ao lidar com Circe. Mesmo os deuses que aparecem apenas esparsamente na história tem características bem delineadas e uma personalidade visível. Hélio é o poderoso e cruel deus na corte dos titãs; Atena é uma megera traiçoeira, porém sábia e honrada.


"A todo momento os mortais morriam, por naufrágio e pela espada, por feras selvagens e homens selvagens, por doença, abandono e idade. Era o destino deles, como Prometeu me contara; a história que todos eles compartilhavam. Não importava quais maravilhas realizassem, no fim tornavam-se pó e fumaça. Enquanto isso, cada deus mesquinho e inútil continuaria sugando o ar iluminado até que as estrelas se escurecessem."

Aguardamos a evolução de Circe ao longo de toda a história. Ela começa como uma mulher apagada em uma corte que não a valoriza. Por toda a narrativa ela vai aprendendo lições e se desenvolvendo como bruxa e como mulher. Tem um momento mais para o final da história em que ela decide tomar o destino em suas mãos. Esse é um daqueles momentos em que a gente grita "é isso aí!!!". Somente bons livros conseguem tirar esse tipo de reação dos leitores. E se não fosse toda a paciente construção de uma trajetória não teríamos chegado até aquele importante momento.


Sem dúvida alguma, Circe vai entrar no hall das minhas melhores leituras do ano. E eu recomendo fortemente para autores que desejam saber como construir adequadamente seus personagens. Como gerar empatia da parte dos leitores. É assim que se faz. E em um tipo de voz narrativa que nem me agrada tanto mas que, quando bem feita, produz esse tipo de resultado. Não à toa o livro ganhou tantos prêmios e recebeu tantos elogio da parte da crítica especializada. Assim que eu fechei o livro já queria ler mais coisas escritas pela autora. E Circe também já entrou para o hall da fama daqueles personagens inesquecíveis.











Ficha Técnica:


Nome: Circe

Autora: Madeline Miller

Editora: Planeta Minotauro

Tradutora: Isadora Próspero

Número de Páginas: 369

Ano de Publicação: 2019


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