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Resenha: "Che - Uma Vida Revolucionária" de Jose Hernandez adaptado da obra de Jon Lee Anderson

A fascinante vida de um homem dedicado à revolução. Jose Hernandez oferece cores e arte àquela que é considerada uma das biografias mais marcantes da vida de Ernesto Che Guevara. Vamos conhecer desde a sua formação até o fim melancólico na Bolívia.


Sinopse:


Buenos Aires, 1953. O jovem Ernesto Guevara acaba de se formar em medicina e decide empreender uma viagem por diversos países da América Latina em busca de algo que possa dar sentido a seu incipiente desejo revolucionário.


Aos poucos, vamos às entranhas da Revolução Cubana e assistimos ao nascimento do comandante Che Guevara, que, após a vitória em Cuba, decidirá levar sua luta a outras terras até a morte na Bolívia, encerrando assim uma trajetória de sacrifícios e sonho que se confunde com a própria história do continente.


Inspirada na obra de Jon Lee Anderson, autor da melhor e mais completa biografia sobre Ernesto Che Guevara já escrita, e com arte poderosa de José Hernández, este romance gráfico revive com assombrosa precisão e dramaticidade a vida de uma figura central da história do século XX. As três partes que compõem a série ― “O doutor Guevara”, “Os anos de Cuba” e “O sacrifício necessário” ―, reunidas aqui num só volume, são um trabalho impecável que faz jus às virtudes e contradições deste personagem que mudaria para sempre o rosto da América.






Este quadrinho é uma adaptação do romance de mesmo nome escrito pelo jornalista norte-americano Jon Lee Anderson. O livro de Anderson é considerado uma das obras mais completas sobre a vida do revolucionário e detalha sua adolescência, suas escolhas, seu período em Cuba e até mesmo os anos em que ele esteve "perdido" em outras guerrilhas espalhadas pelo mundo. A obra foi adaptada em quadrinhos pelo quadrinista e caricaturista mexicano Jose Hernandez. Hernandez não adaptou ipsis litteris a obra do jornalista, preferindo se concentrar em momentos mais centrais e marcantes de sua vida. O resultado é uma HQ honesta e sincera sobre o homem que revolucionou o mundo e deixou como legado o espírito de luta e a vontade de se sacrificar por um ideal.


A edição da Companhia das Letras pelo selo Quadrinhos na Companhia está em capa brochura, impresso em papel offset Alta Alvura o que fornece uma maciez na pegada do quadrinho. Não sou muito sommelier de papel, mas achei o papel elegante para o quadrinho embora ele acabe transbordando para o outro lado. Por ser um papel mais fino e o lápis de Hernandez ser bem carregado, isso provoca transparências. Nada que tenha me atrapalhado em especial, mas sei que com certeza vai ter gente reclamando. A tradução foi feita por Julia Codo e ela está muito boa mesmo, fazendo com que o texto seja acessível mesmo a quem não conhece muitos detalhes históricos. E isso porque estamos falando de um quadrinho extenso e que tem bastante texto. Não há extras na obra, embora tenha um prólogo bem legal escrito por Jon Lee Anderson falando sobre a figura de Che Guevara e como ele foi abordado com a proposta de transformar o seu romance em uma HQ. Para aqueles que estão preocupados com o tamanho da HQ e o fato de ela ser brochura, achei o quadrinho muito bem encadernado e chega até a ter menos problemas que outras HQs da Companhia que me deram trabalho soltando páginas ou outros acidentes. Parabéns mesmo para a editora por esse material tão respeitosamente bem acabado.


A arte do Jose Hernandez é um absurdo. Algumas páginas me faziam passar vários minutos admirando o traço, o lápis e as escolhas feitas por ele. É um estilo expressivo que emprega uma palheta de cores mais escura, mas que possui um grau de precisão incrível. Gosto demais de ver o traçado que ele faz para os personagens e oferece uma vivacidade e sentimento a cada um deles. Algumas cenas de um Che mais maduro vemos os fios de cabelo ou as bolsas embaixo dos olhos demonstrando o seu cansaço ou o olhar sagaz sempre em busca de algo. Os cenários de fundo possuem um detalhamento que deve ter sido fruto de uma imensa pesquisa porque os prédios correspondem aos locais. Alguns dos locais mais famosos vocês podem pesquisar pelo Google e vão encontrar suas correlações. Boa parte do quadrinho se passa nas selvas de Cuba ou mesmo no interior da África e o leitor é apresentado à sujeira de uma trincheira, aos dilemas da guerrilha. As cores mais puxadas para o verde e o marrom fornecem esse clima da selva onde cada lugar esconde um perigo próximo.


Gosto de como Hernandez encontrou soluções para encaixar os textos de Che no meio dos quadros. Seja com citações diretas, frases que ele retirou de livros ou cartas enviadas a seus parentes ou a Fidel. Cada um deles ajuda a compor uma cena que conta mais um pouco sobre o revolucionário. Vários recortes de jornal e relatórios ajudam a contar o contexto geral da relação entre Che e os norte-americanos. Mesmo nos chamados anos perdidos, temos muita informação sobre o destino dele na África e depois na América do Sul, fruto de uma pesquisa intensa feita por Jon Lee Anderson. A quadrinização também é excelente com as páginas possuindo de 3 a 6 quadros. Vez ou outra ele coloca páginas inteiras, mas não são muito comuns. O emprego de imagens que ocupam vários quadros como se fosse uma espécie de vitral é bastante comum e formam imagens lindas. Algumas das páginas desta HQ dariam quadros incríveis dada a estética da composição. Até o momento em que escrevi esta resenha é a HQ que eu mais gostei no aspecto gráfico.


O texto de Jon Lee Anderson é bem adaptado pelo artista e vale destacar como o jornalista não se deixar cair no aspecto da idolatria que é comum aos biógrafos de Che. É um personagem incrível, com uma vida única e uma personalidade muito carismática. Só que quando caímos na idolatria acabamos deixando passar algumas de suas falhas de caráter. Afinal, Che é um ser humano, de carne e osso como todos nós, passível de qualidades e defeitos. Anderson aborda, por exemplo, a maneira ruim como ele lidou com os seus dois casamentos e os filhos que ele teve nestes dois relacionamentos. Algo que ele descartava com grande facilidade. Ao se dedicar à revolução, ele abdicou de sua vida comum. O que pode ser bonito e altamente idealista, mas esconde nas entrelinhas graves problemas que ele teve ao longo de sua vida. Ele teve problemas com o próprio Fidel ao colocá-lo em situações inusitadas por conta de sua perseguição a um ideal mais puro da revolução. Na última parte da HQ, temos a reprodução de um relato de Che em que ele próprio admite que algumas de suas escolhas foram erradas. Como historiador, gosto de pensar nestas figuras extraordinárias da História como pessoas que foram fruto de seu tempo e tiveram seus caminhos guiados por seu coração. E nem sempre nossos corações nos colocam no caminho mais acertado. Por isso é importante fugirmos dessa busca incessante de colocarmos tais pessoas em um pedestal.


A HQ é dividida em três partes: a primeira contando o período de formação de Che até ele conhecer Fidel, o segundo se passa em Cuba e na guerrilha em Sierra Maestra e o terceiro mostra os anos na África e o final na Bolívia. Originalmente a HQ foi publicada em três volumes, que a Companhia das Letras reuniu em uma edição integral. O primeiro volume publicado foram os anos de Cuba porque a editora acreditava que seria o mais interessante dos três, depois o período de formação e por último o terceiro volume. De fato, o trecho mais interessante é o período em Cuba, mas para mim o terceiro livro me trouxe uma série de informações novas que desconhecia sobre a vida de Che. Vale destacar ainda que a abordagem de Hernandez é diferente daquele feita por Hector Oesterheld, Alberto e Enrique Breccia em sua famosa HQ que já resenhamos aqui. Enquanto que na HQ de Oesterheld o roteiro vai mais para a atuação de Che em momentos-chave, aqui temos os bastidores, as situações familiares, os encontros e desencontros. É uma HQ rica em informações, mas que ao mesmo tempo nos emociona ao viver aquele período tão conturbado. É um destaque para a ótima adaptação de Hernandez que conseguiu fazer o texto de Anderson ganhar tridimensionalidade.


Analisando cada um dos livros, o primeiro vai abraçar mais os períodos formativos de Che. E aqui a história se concentra na inquietação dele com o seu destino. Desde o começo já dava para imaginar que Che não ficaria muito tempo na Argentina. Ele não tinha o pendão para uma vida comum, para algo que se voltasse para o público, uma família e uma casa tranquilas. Ele estava em busca de sua própria identidade, mas para fazer isso, ele colocou uma mochila nas costas e saiu pelo continente. Ao se deparar com a miséria vivida pelas populações mais humildes do continente, ele percebeu a desigualdade social latente por toda a parte. E que havia a necessidade de se buscar algo melhor. Talvez o momento definidor de seu destino foi a guerrilha na Guatemala ao lado de Arbenz quando tudo indicava ser possível obter a vitória quando uma escolha ruim dos líderes do movimento levou à prisão de todos. Fica um elogio ao jornalista por mostrar o contexto da relação de poder que a Fruit Company tinha na região e todo o conceito de repúblicas das bananas, algo nem sempre abordado por quem fala desse período. Talvez o pior foi ter perdido o apoio popular. Isso fez com que Che adotasse uma postura mais estrita em relação ao movimento guerrilheiro. Conhecer Fidel e Raul Castro foi quase como uma consequência ou um sinal do universo.


A segunda parte vai se debruçar sobre os anos em Cuba e em como a guerrilha ganhou atenção internacional. Nesse ponto acho até que o texto de Anderson procura valorizar mais o movimento guerrilheiro colocando quase como se eles fossem os 300 de Esparta. E não era bem assim. Historicamente sabemos que Fidel e Che eram muito habilidosos em ludibriar seus oponentes fornecendo falsas informações. Eles trabalharam muito com a desinteligência, algo que Che aprendeu com os soviéticos. Aqui a história se concentra na busca pela libertação de um país. A luta contra Fulgêncio Batista era a alma do movimento. Perceber que os americanos apoiavam Fulgêncio foi a gota d'água para estabelecer claramente a divisão entre os guerrilheiros e os americanos. A maneira como a vitória de Fidel abalou as estruturas de Washington é espertamente colocada por Hernandez na forma de recortes de jornal que apresentaram a indignação com o fato de Cuba se tornar uma ponta de lança para a URSS na Guerra Fria. Claro que há também as discussões e as pressões de Che e Fidel com Nikita Kruschev que apenas pretendia usar Cuba como moeda de barganha com Kennedy.


Dramático é o mínimo que se pode dizer acerca da última parte do quadrinho. E é triste perceber o quanto Che acabou desiludido no final. Provavelmente essa é uma desilusão advinda de uma maneira literal demais de se pensar o marxismo e sua aplicabilidade em um mundo dominado pelo capitalismo. A visão estrita de Che não levou em consideração as especificidades locais que poderiam impor obstáculos à guerrilha como um todo. A vitória em Sierra Maestra foi uma tempestade perfeita, algo complicado de ser replicado em outras regiões. Che percebeu rapidamente o quanto os micro-poderes no continente africano não eram fáceis de serem disciplinados ou administrados. Isso o levou de volta à América do Sul onde ele precisou escolher entre ir para a Bolívia ou de volta à sua terra natal, Argentina. Talvez se Che tivesse ido para a Argentina, ele poderia ter tido mais sucesso aliado ao peronismo e quem sabe mudando-o para ser alguma coisa mais palatável. Seguir para a Bolívia foi fatal e a HQ aborda bem esse período com um guerrilheiro aceitando o seu destino e entendendo que o sacrifício poderia ser mais importante do que uma vida indiferente. Ele entra para a História como um ícone, e mesmo tendo tido uma vida nem sempre agradável se tornou uma influência para inúmeros movimentos sociais até os dias de hoje. A HQ consegue captar bem essas diversas facetas do homem e colocá-las no chão, muito mais do que criar um mito. Para mim, uma das melhores leituras que fiz este ano.



Ficha Técnica:


Nome: Che - Uma Vida Revolucionária

Autor: Jose Hernandez

Adaptado do livro de Jon Lee Anderson, Che - Uma Vida Revolucionária

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Biografia

Tradutora: Julia Codo

Número de Páginas: 440

Ano de Publicação: 2023


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*Material recebido em parceria com a Companhia das Letras









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