• Paulo Vinicius

Resenha: "Cabaré em Chamas" de H. Pueyo

Após o desaparecimento de Erik por muito tempo, Ariadne tenta tocar a vida como médica especializada em guls. Mas, a chegada do estranho Quaint pode fazer surgir segredos ocultos tanto de Erik quanto da própria Ariadne.



Sinopse:


Ariadne é uma das únicas médicas humanas no Brasil especializadas em tratar gūls, criaturas carnívoras de rápida regeneração que se alimentam de gente. Apesar de jovem, ela foi criada por um imigrante soviético chamado Erik Yurkov, que desapareceu anos atrás sem deixar nenhuma explicação. Ariadne não quer ouvir falar dele nem pintado de ouro, mas um misterioso gūl chinês chamado Quaint bate em sua porta, insistindo que Erik foi sequestrado. Juntos, os dois precisam navegar pelo submundo da elite gūl brasileira para encontrá-lo e para descobrir a verdade por trás da conspiração política que sumiu com seu mentor.





Um mundo onde guls fazem parte do cotidiano. Sim, guls, aquelas criaturas que devoram carne humana, possuem uma força descomunal e são praticamente eternos. Essa é a criatura da vez usada pela H. Pueyo que cria uma fantasia urbana em um mundo completamente verossímil. As sutilezas que ela faz para criar o seu cenário são incríveis e salvo detalhes pequenos, é o mundo em que a gente vive. Ela não se debruça para detalhar as mudanças causadas pelos guls na sociedade humana; eles são apenas uma ferramenta para contextualizar a sua história. Para um conto, ela conseguiu o seu objetivo com tamanha facilidade que é para deixar qualquer um bobo. É uma lição para autores que querem explicar tudo para serem detalhados em sua construção de mundo. Nesse conto, H. Pueyo faz o estritamente necessário. Dominando a estrutura básica dos contos, ela cria uma narrativa sensível, comovente e pesada ao mesmo tempo.


Ariadne é uma médica que cuida de guls. Ela aprendeu tudo o que ela sabe com o doutor Erik, um pesquisador dessas estranhas criaturas que a resgatou em um momento terrível de sua vida. Dando uma nova oportunidade para Ariadne (que nem é o verdadeiro nome da protagonista), Erik se tornou um mentor e mais do que isso para ela. Só que ela nunca foi correspondida e um dia o médico desaparece sem deixar vestígios. Tudo fica normal até que Quaint, um gul que possui uma ligação forte com Erik aparece na vida de Ariadne buscando o paradeiro de seu amigo. Essa busca vai fazer com que a protagonista se depare com terríveis verdades e um mundo de aparências que a deixará confusa sobre o que ela deseja para si.


Não tenho mais adjetivos suficientes para descrever a escrita da Pueyo. Quando eu acho que ela vai errar a mão e fazer eu diminuir minha avaliação, sou colocado diante de uma narrativa arrebatadora. Aliás, antes de continuar, deixa eu colocar um aviso:



TEM GATILHOS. E GATILHOS PESADOS. Se você tem algum tipo de inconveniente com histórias que lidem com abuso sexual e violência contra a mulher, pare aqui, por favor. Essa não é uma história para você. Os temas são pesados mesmo.



Colocado o aviso, continuamos:


Pueyo sabe conduzir uma história. Ela nos guia através do seu mundo com uma precisão que eu vejo poucos hoje em dia fazendo isso. Sei que todos vocês gostariam de ver uma narrativa longa dela. Sinceramente? Não me faz falta. Nesse tempo como blogueiro e leitor, aprendi que determinados autores funcionam melhor dentro de suas próprias caixas de ferramentas. É o caso da Pueyo e do Duda Falcão. Acho que se a Pueyo mudasse para uma narrativa longa, isso prejudicaria a forma como ela aborda as histórias. Ela parece saber exatamente o tamanho necessário à sua narrativa. Algumas vezes vai ser uma narrativa de 5 páginas, outras vai ser uma novelleta como Cabaré em Chamas. Além disso, eu adoro a versatilidade dela; já li contos de realismo mágico, que flertam com o terror, um scifi, uma fantasia tradicional e agora uma fantasia urbana. Preciso dizer o quanto isso é incrível?


Estamos diante de uma narrativa investigativa. Ariadne vai atrás de Erik e começa a descobrir detalhes impressionantes sobre o seu mentor. Isso acaba mudando a impressão que ela tinha sobre ele. E o quanto ela não o conhecia. Quaint e sua brusquidão de gul a vai encantando. Ele apresenta a ela o seu universo e Ariadne se vê obrigada a sair de sua zona de conforto para explorar todo esse novo mundo que lhe aparece. Como uma boa narrativa de mistério, Pueyo vai nos colocando as peças do quebra-cabeças pouco a pouco. Vamos montando as peças e juntando os fatos até chegarmos ao momento climático que nos assombra. Tenho certeza de que os leitores irão se espantar com como as coisas são colocadas no final. E de forma alguma a narrativa é previsível...


A personagem de Ariadne é extremamente complexa. Quem acha que ela vai ser só uma personagem-orelha ou uma investigadora simples é porque não conhece como a Pueyo conta suas histórias. A história de Ariadne é pesada e o que ela passou fez com que ela nutrisse uma fobia não só de sair de casa, mas de ser tocada por outras pessoas. Já comentei dos gatilhos e se eu disse que tem conteúdo sexual é porque ela sofreu algo do tipo. Certo? Só que o que ela sofreu é algo inacreditável. E a forma como a autora liga os acontecimentos da personagem com a narrativa principal só demonstra o quanto ela se importa em não deixar barrigas na narrativa. Pueyo sabe usar bem a Arma de Tchéckov, ou seja, nada do que está no cenário está lá à toa. Tudo o que foi dito ou não foi dito interfere em nossa interpretação dos fatos. Portanto, prestem atenção em tudo.


Sou suspeito para caramba de falar da Pueyo. É uma das autoras brasileiras mais criativas e impressionantes da atualidade. Pena que pouca gente aqui conhece o trabalho dela. E ela já chegou ao mercado norte-americano onde o público começa a dar o valor que ela merece. Torço para que as minhas resenhas dos trabalhos dela façam vocês abrirem os olhos a alguém que é inacreditável. A variedade e a versatilidade dela são dignos de nota. Mais um conto cinco estrelas que eu passo boa parte da resenha babando e elogiando horrores. Que venham mais!!











Ficha Técnica:


Nome: Cabaré em Chamas

Autora: H. Pueyo

Editora: Revista Mafagafo

Número de Páginas: não informado

Ano de Publicação: 2020


Avaliação:



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