• Paulo Vinicius

Resenha: "Caçador em Fuga" de George R.R. Martin, Gardner Dozois e Daniel Abraham

Ramon Espejo é um minerador esperto que, após se envolver em uma briga de bar e assassinar um embaixador, foge para as distantes terras do norte. Lá, ele vai encontrar um segredo há muito escondido e se tornará o cão de caça de uma raça esquecida.

Sinopse:


Uma aventura surpreendente sobre a liberdade, escrita pelo mestre George R.R. Martin Ao despertar num lugar escuro, Ramón Espejo não se lembra de como foi parar ali. Logo ele descobre que é refém de uma raça alienígena e que, para recuperar sua liberdade, será forçado a ajudá-los a encontrar outro humano como ele – um fugitivo. Quando a caçada começa, no entanto, Ramón recupera algumas lembranças: a miséria e as péssimas condições de trabalho e de vida no México; a decisão de deixar a Terra e explorar um novo planeta-colônia, São Paulo; o sonho de encontrar metais valiosos e enriquecer; o desejo de uma nova chance. Agora, envolvido numa estranha perseguição nesse mundo hostil e imprevisível, Ramón precisa encontrar uma maneira de escapar de seus captores... e depois, de alguma forma, sobreviver. No entanto, à medida que suas memórias se fortalecem, Ramón descobre que seu pior inimigo pode ser ele mesmo. Caçador em fuga, publicação que faz parte do selo LeYa/Omelete, é uma história criada a seis mãos que levou quase trinta anos para ser escrita. O resultado é uma aventura de ficção científica que cria mundos e espécies diferentes com detalhes fascinantes, analisando a humanidade em seus piores e melhores momentos por meio de um personagem politicamente incorreto, atrapalhado e carismático.




Esta é uma história escrita a três mãos. Pode parecer confuso para você, caro leitor, mas vou tentar resumir tudo rapidamente. Gardner Dozois, um tradicional editor de coletâneas de ficção de gênero e amigo de George R.R. Martin tinha uma ideia para uma história lá no começo dos anos 80. Porém, após ver o manuscrito ele achava que a história não estava boa e pediu a seu amigo Martin que desse uma olhada no original e tentasse ajudá-lo a finalizar a história. Martin se debruçou sobre o projeto, deu seu toque pessoal, mas também não foi capaz de finalizar e ambos acabaram por engavetar a história. Décadas mais tarde, Martin apresenta o manuscrito a Daniel Abraham (autor que junto com Ty Franck formam o pseudônimo James S.A. Corey, autor de Leviatã Desperta) e este fica encantado com a história. Com a ajuda de Abraham eles finalmente conseguem finalizar o manuscrito e publicam Caçador em Fuga. Uma história que parece mais uma novela.

“Por que conseguiria matar um homem cuja morte não lhe traria benefício algum, mas não conseguia acabar com o homem cuja morte lhe traria o mundo? Quando a própria vida dependia disso?”

Trabalhos escritos a várias mãos são animais complexos. Representam uma roleta russa: podem dar algo incrível como Leviatã Desperta e toda a série The Expanse ou podem dar algo ruim e truncado. Caçador em Fuga se situa no meio dessas duas instâncias. Em um trabalho coletivo, é importante eliminar as individualidades para favorecer a coesão. A ideia principal é que o leitor não seja capaz de identificar a escrita dos autores. Só que neste caso aqui eu fui capaz de identificar o estilo do Martin. Está presente na maneira como o personagem fala, na descrição dos cenários e até mesmo no cinismo inerente à sua psiquê. É o melhor do livro, mas ao mesmo tempo prejudica a proposta coletiva da obra.

A escrita é um pouco pesada. Senti isso na dificuldade que eu tive para terminar o livro. Peguei o livro achando que se trataria de uma narrativa mais dinâmica devido à própria temática da obra, mas me enganei um pouco. Os autores rumaram para algo mais reflexivo e cerebral com vários trechos marcados por fluxo de pensamento. Interessante que a justificativa para esses trechos são memórias vivenciadas pelo protagonista que se fundem com outras e causam uma certa confusão mental. Esses "flashbacks" servem para compor as motivações do personagem. A narrativa é em terceira pessoa, mais aproximada de Ramón. Ou seja existe todo um trabalho de escrita para que o leitor se apegue ao protagonista e eu acho que nesse sentido os autores foram muito bem sucedidos. Apesar das minhas críticas, no geral o livro é muito bem escrito, com um bom encadeamento de palavras. Só me incomodou esses momentos mais reflexivos que acabam tomando boa parte da leitura. Entendo que estes momentos visavam trabalhar a temática da história, mas eu senti que estamos diante de um livro mais de ideias do que de ação. E não foi isso o que eu entendi em um primeiro momento.

"Você vive. Logo, você exerce sua função. Se não exercê-la, não pode viver."

O trabalho com os personagens, sem dúvida alguma, é o melhor do livro. Eles são muito vívidos e somos capazes de imaginar a realidade de Villa Diego com sua sujeira e podridão diante de uma exploração feita por alienígenas que possuem seus próprios objetivos. Mesmo o livro sendo focado em Ramón e Maneck, o começo da história faz uma construção muito competente sobre tudo o que cerca o personagem. Nesse sentido o leitor é capaz de ouvir toda a atmosfera de colônia, com seus bares, trabalhos cotidianos e vidas que seguem apesar da história que é contada mais para a frente. Parece que a narrativa é tão introspectiva que o mundo continua a funcionar mesmo sem o protagonista por perto. E eu adoro isso. Ramón não precisava ser O Herói, O Escolhido, O Salvador do Universo. O protagonista é tão interessante pelo simples fato de ele ser um simples minerador que está tocando a sua vida. Se mete em algumas enrascadas que podem mudar tudo naquela colônia, mas escolhe ser egoísta. Essa é a marca do Martin. Ele não constrói personagens heróicos, mas sim humanos. Cada um de nós seria capaz de se colocar no lugar de Ramón e talvez fazer as mesmas escolhas.

Já as raças alienígenas que são citadas na história (salvo uma) pouco ou nada interferem no desenvolvimento da narrativa principal. Os Enye agem como um catalisador, mas o foco mesmo é na fuga de Ramón. Isso é o que eu mais gostei também na construção de personagens e narrativa. Os autores não se dispersam demais em uma apresentação de mundo que pode levar capítulos e mais capítulos. Alguns elementos de construção de mundo até aparecem vez por outra, mas somente quando são necessários para a história. Outros personagens também só são acionados quando necessário: Elena, o interesse romântico de Ramón (sua paixão caliente), Griego e seu ferro-velho, o bar de Mikel. Até mesmo alguns personagens do passado de Ramón são explorados, mas, novamente, apenas se possuem algo para contribuir para o aprofundamento dos objetivos e motivações do protagonista.

A temática da história é o que forma a nossa personalidade. Quem somos? Somos o resultado de nossas experiências ou há algo químico por trás de nossa formação? Sem dar spoilers da trama, Ramón passa boa parte da trama questionando suas escolhas de vida. Aliás, uma das grandes dúvidas levantadas pelo protagonista e que aparece logo no começo da história é o que o levou a matar o europeu no bar e ocasionou todo o resto das mais de 290 páginas. Por que ele pegou uma faca e rasgou o pendejo? A experiência que ele tem na floresta precisando realizar uma caçada mortal faz com que ele passe a refletir sobre seus problemas e seu lugar no mundo.

A mudança que se configura no personagem é perceptível. Toda a experiência que ele passa como fugitivo e depois precisando realizar uma caçada humana transforma as concepções que ele tem sobre si mesmo. Ele passa a reavaliar as suas opções. Esse crescimento do personagem é algo impressionante que chega a interferir no final da história. Caçador em Fuga é um manual sobre como trabalhar um personagem e como essa evolução pode afetar o desenvolvimento da narrativa.

“‘Livre’ é viver sem restrições.”

Os capítulos são bem espaçados tornando a história bem fluida. Minha reclamação ficou no peso da pena dos autores. Achei que as coisas passavam bem devagar para mim. Pelo que eu pude perceber os autores adotaram uma estrutura em três atos sendo que a apresentação é a primeira parte, depois temos dois trechos espelhados em que caçador e caça alternam lugares formando o desenvolvimento e o último trecho é a conclusão. O clímax da história eu achei também meio estranho e a passagem não me soou tão emocionante quanto deveria ser. Acabou sendo mais um encerramento de plots do que propriamente um desfecho per se.

Caçador em Fuga é um bom livro de ficção científica. Escrito de maneira competente apesar de que conseguimos identificar um dos autores, é uma história que merece a sua atenção. Em alguns momentos a ação corre em alta velocidade, em outros a gente é apresentado a momentos bastante reflexivos. A temática abordada é o de quem somos e se somos moldados pelas escolhas que fazemos. Essa temática é aprofundada através do desenvolvimento da psiquê do protagonista. Como uma das poucas obras de ficção científica lançada esse ano que é mais recente, você tem que comprar esse título.


Ficha Técnica:

Nome: Caçador em Fuga Autores: George R.R. Martin, Gardner Dozois e Daniel Abraham Editora: Leya Gênero: Ficção Científica Tradutor: Fábio M. Barreto Número de Páginas: 304 Ano de Publicação: 2017


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