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Resenha: "Autobiografia de um polvo e outras narrativas de antecipação" de Vinciane Despret

Mesclando realidade e ficção, Vinciane Despret nos faz pensar em como entendemos os animais que nos cercam, suas formas de comunicação e como eles podem pensar conceitos abstratos.


Sinopse:


A improvável combinação de filosofia, ciência e literatura de ficção científica faz de Autobiografia de um polvo um livro bastante singular. Nele, Vinciane Despret, uma das pensadoras mais instigantes da atualidade, se inspira na ciência ficcional da therolinguística, a disciplina científica que estuda a linguagem dos animais criada pela escritora Ursula K. Le Guin, para apresentar em cada capítulo um estudo sobre a comunicação e a poética de diferentes animais, como as aranhas, os vombates e os polvos. As narrativas estão situadas em um futuro no qual os conhecimentos sobre a linguagem dos animais conformam um campo de pesquisa bem consolidado, composto de diversas vertentes que tensionam os limites do que entendemos por linguagem.


Nessas abordagens de surpreendente originalidade, nos temas e nas formas, são apresentados novos caminhos para as ciências e outros entendimentos das relações com e entre animais e demais seres (vivos e não vivos) – uma renovação que se faz ainda mais premente em um mundo transformado pelo aquecimento global e pelo fim do capitalismo. Encarnando o gosto pelas misturas na própria narrativa, Despret faz autoras e autores clássicos dialogarem com pesquisadores e artistas completamente ficcionais. Autobiografia de um polvo consiste numa provocação tão audaz quanto divertida a respeito das relações atuais e possíveis com os não humanos que habitam o mundo conosco.






Esse é um livro bastante diferente. A autora Vinciane Despret criou uma narrativa filosófica na qual ela mescla ciência e ficção. O que ela estimula através desse livro curioso é o pensar fora da caixa. Algo que vários livros de ficç+ão científica já trabalharam em algum momento: a de que costumamos pensar outras formas de vida tendo a nós mesmos como o padrão. E nem sempre outras formas de vida possuem o mesmo arcabouço conceitual, simbólico e imagético que nós. Através de três contos ela vai abordar algum tipo de animal e fazer várias proposições como formas de comunicação, entendimento de si como identidade individual ou coletiva, noção de religião ou de poderes superiores. O último conto, que dá título ao livro, possui algumas ideias de ficção especulativa e é onde ela vai elucubrar mais como colocar espécies simbióticas, o fim do capitalismo e uma sociedade em busca de respostas. A minha resenha não deve seguir o estilo tradicional porque o próprio livro não funciona dessa forma. Ele não dispõe exatamente de personagens, o seu enredo é bem solto e não há necessariamente um início, meio e fim.


A escrita de Despret é fluida e possui um tom bastante informativo. No fundo, o livro é mais um livro de filosofia com elementos especulativos. Não sou um especialista em biologia então não sei separar o que é informação real e o que é ficcional. Ainda mais nos dois primeiros contos onde essa linha é mais tênue. Algumas situações são mais escrachadas como aranhas que se comunicam ou vombates cujas fezes geram esculturas. O leitor pode ficar despreocupado porque a autora não emprega muitos jargões científicos; é possível entender e apreciar mesmo que você não seja alguém ligado à área. Ela apresenta os temas com bastante calma e a leitura adota um tom bem contemplativo. Não é uma leitura longa, mas ao mesmo tempo não é algo que você queira fazer despreocupadamente. Recomendo sentar com calma e ler sem distrações por perto, caso contrário você pode perder um pouco as mensagens e os temas abordados. Em alguns momentos a escrita adota um tom epistolar, com trocas de cartas e relatórios entre autores que são os pesquisadores por trás dos estudos sobre os animais. A autora não vai se prender a personagens, embora as pesquisas feitas tem uma consequência posterior. Ela retoma ideias abordadas anteriormente, sempre construindo um algo a mais em cima.


"Apesar da crença de longa data de que os vombates em cativeiro se abstêm de defecar cubos, certas exceções haviam sido observadas: alguns vombates-de-nariz-peludo-do-norte, criados em residência depois da verificação de que esse grupo se encontrava à beira da extinção, tinham começado a construir muros com tijolos de formato cúbico. Não eram muito numerosos, mas seu caso permanecia inexplicado."

Debater formas de comunicação de outros seres não é um tema estranho ao gênero. Um dos livros mais recentes que se tornaram famosos está História de Sua Vida e Outros Contos, de Ted Chiang. Nele o autor coloca os personagens diante do enigma de uma imensa nave espacial que aterrissa na Terra e os cientistas tentando decifrar a estranha linguagem dos visitantes. Aqui, Despret nos mostra aranhas que se comunicam através de sons. Vemos que os cientistas que estão as estudando conseguem escutar os sons, mas não sabem decodificá-los. Daí me pego pensando em quantas espécies podem estar, neste instante, buscando se comunicar conosco e não conseguindo porque somos incapazes de pensar em outra direção. A fala não é a única maneira de se comunicar que existe no universo. Os meios de comunicação passam pela possibilidade de outra espécie compreender o que está sendo repassado através de sons, símbolos. Até mesmo o contato visual ou outras formas desconhecidas por nós podem ser comunicativas. No terceiro conto, os cientistas que estudam os polvos buscam entender a tinta que eles entendem agora ser uma forma de comunicação também, e não apenas de defesa. Isso inclui também a mudança de cor.


Essa forma assimétrica de pensar também está presente no segundo conto onde os cientistas se debruçam sobre as fezes dos vombates. Elas formam esculturas que possuem algum tipo de simbolismo entre eles. Isso me fez pensar na maneira como os homens pré-históricos se comunicavam seja através de pinturas na parede ou pelo artesanato. Eram formas pelas quais eram transmitidas mensagens que tinham o efeito de serem compartilhadas com outros membros da mesma espécie. Nas elucubrações dos cientistas aqui, eles tentam pensar na ideia do divino e do sagrado. Ao chegarem a uma teoria (ficcional, é claro) de que as esculturas de fezes seriam algum tipo de elementos de adoração, a autora formula ideias sobre como tais criaturas pensam o sagrado. Aliás, na visão da autora, a relação com o sagrado/sobrenatural não precisa estar eivado de um sistema de panteão ou de deuses em si. Pode ser apenas o pensar em si mesmo dentro de um universo muito maior. Traduzir esse conceito tão abstrato em alguma maneira de se comunicar com esse "algo maior" é que constituiria tal relação. É bem diferente de adorar uma imagem, cultuar um deus ou realizar rituais. É algo que caminha em outra direção. É sempre preciso lembrar que a palavra religião vem do latim religare, que denota uma ligação, uma conexão com algo acima da explicação humana.


Há também outro ponto tratado que tem a ver com a evolução do homem. Não sabemos para que direção nossa espécie irá se dirigir. Na narrativa existem os sims, espécie de criaturas que possuem algumas características animais. Os estudiosos ainda estão perdidos no livro, buscando compreender como os sims funcionam, como se comunicam, que valor dão às coisas. A cientista ao qual acompanhamos os relatórios parece perdida às vezes até que ela tem algum insight a respeito de algum ponto que ela julgava não ter importância, mas que ajuda a entender outras coisas. O que é possível perceber nesse trecho é que a autora trabalha bem a questão da deriva evolutiva ao se questionar qual é o próximo passo. Nossa arrogância como "topo da cadeia alimentar" nos faz pensar que o nosso caminho, nossa jornada evolutiva é o pináculo da natureza, mas será isso mesmo? Outros animais possuem sentidos mais complexos que os nossos; uma barata é um animal capaz de se adaptar mesmo a um desastre nuclear. Derrubando essas certezas que temos, a autora faz um relato bastante interessante sobre o pensar fora de nossos conceitos pré-formados. Os polvos inteligentes que ela apresenta ao longo da narrativa nos faz pensar o quanto desconhecemos sobre a maioria dos animais terrestres.


"As histórias são fartas e deixam em aberto se trata-se de jogos, farsas ou guerras de desgaste. Em contrapartida, fica claro que, para os polvos, tudo pode servir de material para exploração lúdica (os termômetros poderiam se enquadrar nessa categoria). Ao encontrarem uma pequena garrafa plástica boiando na superfície de seu reservatório, os polvos se divertiram por bastante tempo, projetando-a com poderosos jatos de água em direção ao sifão do aquário, o que a fazia retornar para eles, e esse jogo poderia assim continuar indefinidamente."

Autobiografia de um polvo é uma leitura fantástica, que nos tira de nossa zona de conforto. Despret coloca uma série de ideias malucas e caóticas em nossas mentes que nos fazem refletir sobre nosso papel em um mundo onde não somos os protagonistas. A existência de uma Gaia que nos abriga e nos coloca em contato com outras espécies é que é esse personagem principal. Ao pensar os animais que nos rodeiam, entendermos que o óbvio pode não ser lá tão óbvio assim e que existe toda uma teia de relações entre os seres vivos das quais não fazemos a mais remota ideia. É uma boa ficção especulativa que serve para abrir nossas mentes para outras possibilidades.










Ficha Técnica:


Nome: Autobiografia de um polvo

Autora: Vinciane Despret

Editora: Bazar do Tempo

Tradutora: Milena P. Duchiade

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2022


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